"Sofista" significa sabio, especialista do saber.
Somente no século
XX foi possível uma revisão sistemática desses juízos e, conseqüentemente, uma radical reavaliação histórica dos sofistas; e a conclusão a qual se chegou é que os sofistas constituem um elo essencial na historia do pensamento antigo.
Resumo sobre os Sofistas:
- deslocam o interesse da filosofia da natureza (physis) para o homem
- instauram um clima cultural que se poderia chamar com o moderno termo "iiuminista" ou período humanista da filosofia grega, investigam a vida do homem como membro de uma sociedade)
- centram seus interesses sobre a Ètica, a politica, a retórica, a arte, a língua, a religião e a educação, ou seja, sobre aquilo que hoje chamamos a cultura do homem.
- criticam a religião em perspectiva ateísta
- criticam o conceito de verdade e de bem (relativismo moral) - destroem a imagem tradicional do homem
- consideram a virtude como objeto de ensino, ou seja, a virtude se funda no ensino.
- apresentam-se como mestres de virtude
- são expressões da crise da aristocracia e da ascensão politica das novas classes
- eram portadores de uma cultura pan-helênica
A passagem da physis para o Homem.
A filosofia da physis pouco a pouco exauriu todas as suas possibilidades. Com efeito, todos os caminhos ja haviam sido palmilhados e o pensamento "fisico" chegara aos seus limites extremos. Desse modo, era fatal a busca de outro objetivo. Do outro lado, no séc. V a.C. manifestaram-se fermentos sociais, econômicos e culturais que, ao mesmo tempo, favoreceram o desenvolvimento da Sofistica e, por seu turno, foram por ele favorecidos.
Fatores que contribuiram para o surgimento da problemática sofistica:
- Ocorreu uma lenta mas irreversível crise da aristocracia,
- acompanhada de crescente poder do povo; o afluxo cada vez mais maciço de estrangeiros ás cidades, especialmente em Atenas, com a ampliação do comercio, que, superando os limites de cada cidade, levava cada uma delas ao contato com um mundo mais amplo;
- a difusão dos conhecimentos e experiências dos viajantes, que levavam a inevitável comparação entre usos, costumes e leis heliniísticas, e usos, costumes e leis totalmente diferentes.
A crescente afirmação do poder do demos e a ampliação da possibilidade de aceder ao poder a círculos mais vastos fizeram desmoronar a convicção de que a arete' estivesse ligada ao direito de nascimento, isto é, que se nascia virtuoso e não se tornava, pondo em primeiro plano a questão de como se adquire a "virtude politica". A ruptura do circulo restrito da pólis e o conhecimento de costumes, usos e leis opostos deveriam constituir a premissa do relativismo, gerando a convicção de que aquilo que era considerado eternamente valido, na verdade não tinha valor em outros meios e em outras circunstâncias. Os sofistas respondiam a reais necessidades do momento, propondo aos jovens a palavra nova que esperavam, ja que não estavam mais satisfeitos com os valores tradicionais que a velha geraçaõ lhes propunha nem com o modo como os propunha.
A Sofistica se agrupa em quatro expressões:
1) mestres da primeira geração, que não estavam em absoluto privados de reservas morais, e que o próprio Platiio considerou dignos de certo respeito;
1-Mestres da primeira geração:
Protagoras de Abdera (nascido entre 491 e 481 a.C.)- Utilitarismo e Relativismo
“A Verdade”, a qual contém seu famoso princípio que expressa de forma lapidar o postulado essencial do ensino sofistico: "O homem como a medida de todas as coisas, daquelas que são por aquilo que são, e daquelas que não são por aquilo que não são", aparentemente, manifestando uma forma de humanismo relativista
As Antilogias, que demonstra que "em torno de cada coisa há dois raciocínios que se contrapõe, isto é, em torno de cada coisa e possível dizer e contradizer, ou seja, é possível apresentar razões que se anulam reciprocamente.
Para cada tese é portanto possível trazer a baila argumentos a favor e contra (antilogia) e, por conseguinte, e possível, com técnica apropriada, tornar mais forte o argumento mais fraco: nisso justamente consistia a "virtude", ou seja, a habilidade do homem. Assim, o "verdadeiro" e o "falso", e o " bem" e o "mal" perdem qualquer determinação absoluta.
Todavia, nem tudo para Protágoras e relativo: com efeito, se o homem e "medida" da verdade, e "medido" pelo "útil" e pelo "danoso": estes, portanto, tornam-se referencias ultimas das quais Protágoras se proclamava mestre.
A "virtude" que Protágoras ensinava era exatamente essa "habilidade" de saber fazer prevalecer qualquer ponto de vista sobre a opinião oposta. O sucesso de seus ensinamentos deriva do fato de que, fortalecidos com essa habilidade, os jovens consideravam que poderiam fazer carreira nas assembléias, nos tribunais, na vida politica.
Viajou por toda a Grécia e esteve em Atenas virias vezes, onde alcançou grande sucesso. Também foi muito apreciado pelos políticos (Péricles confiou-lhe a tarefa de preparar a legislação para a nova co1ônia de Turi em 444 a.C.). As Antilogias constituem sua principal obra, da qua1 nos chegaram apenas testemunhos. Envolvia ensinar os jovens a defenderem determinada disposição para, em seguida, defenderem a posição oposta, a antilógica.
"Sobre os deuses não tenho como saber (ouk échō eidénai) nem se existem (hṓs eisìn), nem se não existem e qual seria seu aspecto (idéan); muitas coisas, pois, impedem (tà kōlýonta) tal saber, como a obscuridade (adēlótēs) [da questão] e o fato de ser a vida (bíos toû anthṓpou) humana pequena/ ínfima" (brachýs) (B4-DK).
Enquanto Protágoras parte do relativismo para implantar o método da antilogia, Górgias parte do niilismo para construir o edifício de sua retórica.
2) "Mesmo que existisse, não seria cognoscivel": o pensamento, com efeito, não se refere necessariamente ao ser - como queria Parmênides -, mas existem coisas pensadas que não são existentes (como, por exemplo, a Quimera). Górgias procurava impugnar o principio de Parmênides segundo o qual o pensamento é sempre é o pensamento do ser e o não-ser é impensável
3) "Mesmo que fosse pensável, o ser na o seria exprimível": a palavra, sendo um som, significa quando muito um som, mas nao aquilo que deriva dos outros sentidos, como por exemplo uma cor ou um odor. Esta doutrina toma o nome de "niilismo", enquanto põe o nada como fundamento de tudo. A palavra, perdendo qualquer relação com o ser, não e mais veiculo de verdade, mas torna-se portadora de persuasão e sugestão: se esta ação tem proposito pratico (por exemplo, convencer o publico em uma assembleia, os juízes em um processo), temos a retorica (oratoria); se, ao invés, tem proposito puramente estético, temos a arte.
Eliminada a possibilidade de alcançar uma "verdade" absoluta (a ale'theia), só restou a Gorgias o caminho da "opinião" (doxa). Ele, porém, negou também a opinião, considerando-a "a mais pérfida das coisas". Procura então um terceiro caminho, o da razão que se limita a iluminar fatos, circunstâncias e situaçõess da vida dos homens e das cidades na sua concretude e na sua situação contingente, sem chegar a dar a estes um fundamento adequado.
Sua posição em relação à retórica é nova e original. Se não existe verdade absoluta e tudo é falso, a palavra adquire então autonomia própria, quase ilimitada, porque desligada dos vínculos do ser. Em sua independincia onto-veritativa, torna-se (ou pode tornar-se) disponível para tudo. E eis que Górgias torna a palavra portadora de persuasão, crença e sugestão. A retórica é exatamente a arte que desfruta a fundo esse aspecto da palavra, podendo ser definida como a arte de persuadir, que no séc.. V a.C. tinha importância politica, "ser capaz de persuadir os juízes nos tribunais, os conselheiros no Conselho, os membros da assembleia popular e, da mesma forma, qualquer outra reunião que se realize entre cidadãos".
Para Protágoras, que se aproximou de certo agnosticismo, não se poderia afirmar com segurança pela fé se os deuses existiriam ou não, dado que esse assunto seria obscuro e a brevidade da vida impediria se encontrar uma resposta aceitável, dado o Homem ser limitado em seu conhecimento, cabendo-lhe tão somente a necessidade de ordem e de adaptação ao mundo como lhe é disponibilizado
Prodico de Ceos (nascido por volta de 4701460)
tornou-se celebre pela descoberta da técnica da sinonímia, ou seja, da pesquisa dos termos sinônimos e das diferentes nuanças de seus significados. Esta permitia elaborar discursos sutis e convincentes nos debates públicos e nas assembleias.No campo da ètica retomou o utilitarismo de Protagoras, ilustrando-o em uma reinterpretação do mito do "Hercules na encruzilhada", que se tornou muito celebre.ou seja, diante da escolha entre a virtude e o vicio. Nessa reinterpretação, a virtude é apresentada como o meio mais idôneo para alcançar a verdadeira "vantagem" e a verdadeira "utilidade"
Também Prodico foi mestre na arte de discursar, e Socrates chegou a recordá-lo jocosamente como "seu mestre".
Segundo Prodico, os deuses são a hipostatização (isto é, a absolutização) do útil e do vantajoso:
"Em virtude da vantagem que dai derivava, os antigos consideraram como deuses o sol, a lua, as fontes e, em geral, todas as forças que influem sobre nossa vida, corno, por exemplo, os egipcios fizeram em relaqiio ao Nilo."
Alguns Sofistas, abusando da tecnica de refutação, sem ter qualquer ideal a realizar, perderam-se na pesquisa de jogos de conceitos e na formulação de dilemas insoluveis, do tipo dos raciocinios que ainda hoje chamamos de sofismas. Tais Sofistas são chamados de "Eristicos", homens empenhados na briga de palavras. Eristica, a arte da controvérsia com palavras que tem por fim a controvérsia em si mesma.
- Os Eristicos cogitaram uma serie de problemas, que eram formulados de modo a prever respostas tais que fossem refutáveis em qualquer caso;
- dilemas que, mesmo sendo resolvidos, tanto em sentido afirmativo como negativo, levavam a respostas sempre contraditórias;
- hábeis jogos de conceito construídos com termos que, em virtude de sua polivalência semântica, levavam o ouvinte sempre a uma posição de xeque-mate.
Derivam suas armas do niilismo e da retórica gorgiana, quando não da contraposição entre natureza e lei.
Trasímaco da Calcedônia, nas ultimas décadas do sic. V a.C., chegou até mesmo a afirmar que "o justo é a vantagem do mais forte".
Cálicles chegou a sustentar que é por natureza justo que o forte domine o fraco, subjugando-o inteiramente.
Esses são os resultados deteriorados da Sofistica; a outra face, mais autentica e positiva, seri revelada por Sócrates.
4-Sofistas "Naturalistas
A corrente naturalista da Sofistica contrapõe a lei de natureza, que rege todos os homens, a lei positiva (ou seja, aquela feita pelo homem), que ao invés os divide. Hipias e Antifonte foram os dois maiores representantes dessse grupo.Chegaram a formular uma forma de "cosmopolitismo" e "igualitarismo" entre os homens.
Hípias
forma de conhecimento enciclopédico e por ter ensinado a arte da memoria (mnemotécnica). Entre as matérias de ensino ele dava amplo espaço a matemática e is ciências da natureza, pois pensava que o conhecimento da natureza fosse indispensável para a boa conduta na vida, a qual deve seguir justamente as leis da natureza, mais que as leis humanas.
A natureza une os homens, enquanto a lei frequentemente os divide. Portanto, desvaloriza-se a lei quando e a medida que se opõe a natureza. Nasce assim a distinção entre um direito ou uma lei de natureza e um direito positivo, posto pelos homens.
0 primeiro é eternamente válido, o segundo é contingente. Desse modo lançam-se as premissas que levario a uma total dessacralização das leis humanas, que serio consideradas fruto de arbítrio.
Em particular, salienta como, sobre a base da natureza (da lei de natureza), não tem sentido as discriminações das leis positivas que dividem os cidadãos de urna cidade dos cidadãos de outra, ou que dividem os cidadãos dentro da mesma cidade. Nascia, assim, um ideal cosmopolita e igualitario, que era novissimo para os gregos.
Antifonte
Antifonte radicaliza a antitese entre "natureza" e "lei", afirmando com termos eleaticos que a "natureza" é a "verdade" e a "lei" positiva é a "opinião", e que, portanto, uma está quase sempre em antítese com a outra. Chega a dizer, por conseguinte, que se deve seguir a lei de natureza e, quando isso puder ser feito impunemente, transgredir a lei dos homens.
Tambim as concepções igualitárias e cosmopolitas ja presentes em Hipias são radicalizadas por e chega a afirmar até a paridade de todos os homens, sem distinção de suas origens, "uma vez que por natureza somos todos absolutamente iguais, tanto gregos, como barbaros".
O "iluminismo" sofistico, portanto, dissolveu não so os velhos preconceitos de casta da aristocracia e o tradicional fechamento da pólis, mas também o mais radical preconceito comum a todos os gregos a respeito da propria superioridade sobre outros povos:
- cada cidadio de qualquer cidade é igual ao de outra,
- cada homem de qualquer classe é igual ao de outra,
- cada homem de qualquer pais é igual ao de outro, porque por natureza qualquer homem e' igual a qualquer outro homem.






