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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Os pré-socráticos- Análise Racional e Cristã















A influência do Orfismo na filosofia-

O termo orfismo vem do poeta Orfeu.

"O Orfismo é particularmente importante porque, como os estudiosos modernos reconheceram, introduz na civilização grega novo esquema de crenças e nova interpretação da existência humana."Efetivamente, enquanto a concepção grega tradicional, a partir de Homero, considerava o homem como mortal, pondo na morte o fim total de sua existência, o Orfismo proclama a imortalidade da alma e concebe o homem conforme o esquema dualista que contrapõe o corpo e alma. (História da filosofia. Giovanni Reale. 1. São Paulo: Paulus, 2007, p. 8-9)

 O núcleo das crenças órficas pode ser resumido:
a) No homem hospeda-se um princípio divino, uma alma que caiu em um corpo por causa de uma culpa originária.
 b) Essa alma não apenas preexiste ao corpo, mas também não morre com o corpo, pois está destinado a reencarnar-se em corpos sucessivos, a fim de expiar aquela culpa originária.
c) Apenas como ritos e praticas órficas se põe fim ao ciclo das reencarnações e , assim, liberta a alma do corpo.
d) Para quem se purificou (Os iniciados nos mistérios órficos) há recompensas no além.


"Alegra-te, tu que sofreste a paixão: antes, não a havias sofrido. De homem, nasceste Deus"; 
"Feliz e bem-aventurado, serás Deus ao invés de mortal"; 
"De homem nasceras Deus, pois derivas do divino". Isso significa que o destino ultimo do homem é o de "voltar a estar junto aos deuses"... 
Uma coisa deve-se ter presente: sem o Orfismo não se explicaria Pitágoras, nem Heráclito, nem Empédocles e, sobretudo, não se explicaria uma parte essencial do pensamento de Platão e, depois, toda a tradição que deriva de Platão; ou seja, não se explicaria grande parte da filosofia antiga..." (História da filosofia. Giovanni Reale. 1. São Paulo: Paulus, 2007, p. 9)


FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
Os primeiros filósofos viveram por volta do século VI a.C. e, mais tarde, foram classificados como pré-socráticos (a divisão da filosofia grega se centraliza na figura de Sócrates) e agrupados em diversas escolas. Por exemplo, escola jônica (Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, Empédocles), escola itálica (Pitágoras), escola eleática (Xenófanes, Parmênides, Zenão); escola atomista (Leucipo e Demócrito).

"Os últimos pré-seocráticos não são anteriores a Socrates, mas contemporâneos seus, na sgunda metade do séc. Mas sào incorporados ao grupo que o antecede pelo tema e pelo caráter de sua especulação. Toda a primeira etapa da filosofia trata da natureza (phisis. Aristóteses chama esses filósofos de (fisiologoi) físico; fazem uma física com método filosófico. "(História da Filosofia. Julían Marias. São Paulo:Martins Fontes, 2005, p. 14)

A filosofia pré-socrática se caracteriza pela preocupação com a natureza do mundo exterior. O nascimento da filosofia na Grécia é marcado pela passagem da cosmogonia para a cosmologia.A filosofia nasceu como física e os primeiros filósofos eram chamados de físicos, a ordem natural phyis. Este termo abrangia tanto a acepção de "fonte originária" quanto a de "processo de surgimento e de desenvolvimento", correspondendo perfeitamente ao termo "gênese".

 A cosmogonia, típica do pensamento mítico, é descritiva e explica como do caos surge o cosmos, a partir da geração dos deuses, identificados às forças da natureza. Na cosmologia, as explicações rompem com a religiosidade, passaram a buscar a arché (principio), princípio teórico, enquanto fundamento de todas as coisas. Os primeiros filósofos (talvez o próprio Tales) denominaram esse principio com o termo physis, que indica natureza, não no sentido moderno do termo, mas no sentido originário de realidade primeira e fundamental

Os filósofos procuravam a substância principal ou dominante, chamada archê, a partir da qual todas as coisas são feitas ou existem. Era a busca da essência ou substância suprema das coisas, a busca daquilo de
que, afinal, o mundo real é feito. Daí a diversidade de escolas filosóficas, dando origem a fundamentações conceituais (e portanto abstratas) muito diferentes entre si.

0 "principio" (arché), portanto:
 a) a fonte e a origem de todas as coisas;
b) a foz ou termo último de todas as coisas;
c) o sustentáculo permanente de todas as coisas (a "substância", podemos dizer, usando um termo posterior, suado por Aristóteles).
Em suma, o "principio" pode ser definido como aquilo do qual provém, aquilo no qual se concluem e aquilo pelo qual existem e subsistem todas as coisas.

Os filósofos pré-socráticos podem ser organizados em quatro grupos distintos, dependendo da opinião de cada um sobre a natureza da realidade fundamental. Para conhecermos essas quatro categorias podemos fazer algumas perguntas:
1) A realidade fundamental é física (corpórea) ou não-física (incorpórea)? 
2) A realidade fundamental é una (monismo) ou múltipla (pluralismo)? 

1) monismo corpóreo, (Tales. Anaxímenes Heráclito)
2) monismo incorpóreo (Anaximandro)
 3) pluralismo corpóreo (Empédocles, Anaxágoras, Demócrito e Leucipo)
 4) pluralismo incorpóreo.

 Escolas pré-socráticas:
 Escola jônica: Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito
 Escola itálica: Pitágoras
 Escola eleática: Xenófanes, Parmênides, Zenão
 Escola Atomista: Leucipo e Demócrito

Escola Jônica ou Milesiana: Esta escola era composta, em sua maioria, por físicos, e seu interesse centra-se em compreender de que a matéria ou “arché” é composta na Natureza. Substituem as explicações antropomórficas dos mitos por elementos naturais, onde seus principais representantes foram: Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Pitágoras, Heráclito, Parmênides, Zenão, Demócrito e Anaxágoras;

Escola Pitagórica ou Itálica: Diferenciou-se de todas as demais escolas por seu caráter religioso.
 Principais representantes: Pitágoras de Samos e Filolau de Crotona; • Escola Eleata: Esta escola era de caráter exclusivamente filosófico; as anteriores foram físicas ou religiosas. Principais representantes: Parmênides, Heráclides (Heráclito) e Zenão de Eléia; 

Escola da Pluralidade: Reagiram contra as ideias de Herácrito e Parmênides. Foi uma corrente materialista e mecanicista para a qual a única realidade existente seria os corpos em movimento. Seriam conhecidos por introduzirem a ideia de que as coisas são compostas por elementos (partes) que se misturam. Seus principais representantes foram Empédocles e Anaxágoras de Clausomêna; 

Escola do Atomismo: Doutrina filosófica que considera toda a realidade como matéria constituída por uma combinação fortuita de partículas indivisíveis denominadas átomos. O atomismo surge na antiga Grécia com Leucipo e Demócrito. Os atomistas postularam a existência de uma infinidade de partículas separadas, espalhadas pelo espaço vazio infinito. Esta teoria atômica (átomo vem de “atomon” = indivisível) foi desenvolvida mais tarde por Demócrito, para quem o mundo seria feito de duas partes, o pleno e o vazio. O pleno é dividido em pequenas partículas chamadas átomos, indivisíveis, infinitos, eternos, absolutamente simples; são todos iguais em qualidade, diferem em forma, ordem e posição. Qualquer substância é feita desses átomos, cujas possíveis combinações são infinitas. Os objetos só existiriam enquanto os átomos que os constituem se mantiverem juntos. As mudanças da realidade se explicam pela contínua agregação e desagregação de átomos, que são indestrutíveis. 



Fontes da filosofia pré-socrática:
O pouco que  conhecemos da filosofia dos pré-socráticos nos chegou, principalmente, a partir de textos de autores clássicos os quais citam trechos das obras que se perderam ou fazem alguma referência clara ao conteúdo de tais obras. Atualmente, temos dois tipos de fonte em que podemos nos basear para reconstruirmos como foi o pensamento dos primeiros filósofos: os fragmentos e a doxografia.

Fragmento é uma parte de um texto que foi preservada, apesar de a obra completa ter-se perdido. Muitas vezes são frases transcritas em obras de outros autores antigos.
Doxografia são comentários, avaliações e explicações que outros autores antigos fi zeram sobre as idéias defendidas por esses filósofos cujos textos se perderam. Às vezes são resumos que filósofos ou historiadores antigos das idéias defendidas por algum outro pensador.



Tales de Mileto (fim do VII - primeira metade do séc. VI a.C.)(CERCA DE 625/4-558 A.C.)




Não se conhecem fragmentos seus. Sua doutrina só nos foi transmitida pelos doxógrafos, como por exemplo, Aristóteles:
"A. MAIOR PARTE DOS primeiros filósofos considerava como os únicos princípios de todas as coisas os que são da natureza da matéria. Aquilo de que todos os seres são constituídos, e de que primeiro são gerados e em que por fim se dissolvem, enquanto a substância subsiste mudando-se apenas as afecções, tal é, para eles, o elemento (stokheion), tal é o princípio dos seres; e por isso julgam que nada se gera nem se destrói, como se tal natureza subsistisse sempre... Pois deve haver uma natureza qualquer, ou mais do que uma, donde as outras coisas se engendram, mas continuando ela a mesma. Quanto ao número e à natureza destes princípios, nem todos dizem o mesmo. Tales, o fundador de tal filosofia, diz ser água  (é por este motivo também que ele declarou que a terra está sobre água)..."  ARISTÓTELES, Metafísica, I, 
Foi considerado um dos sete sábios da Grécia; era astrônomo, engenheiro,  político e financista. Foi o criador, do ponto de vista conceitual , do problema concernente ao "princípio" (arché), ou seja, a origem de todas as coisas. O "princípio" e, propriamente, aquilo de que derivam e em que se resolvem todas as coisas, e aquilo que permanece imóvel. Sendo assim, pela primeira vez na história se indaga sobre a origem do mundo, sem se recorrer a mitos, perguntando de fato em que consiste a natureza.

 Esta realidade originária foi denominada pelos primeiros filósofos de physis, ou seja, "natureza", no sentido antigo e originário do termo, que indica a realidade no seu fundamento. "Físicos", por conseguinte, foram chamados todos os primeiros filósofos que desenvolveram esta problemática iniciada por Tales. Para reduzir a realidade a um único elemento, a água, Tales observou algumas coisas. A vida, o movimento e a existência:
  • Tales percebeu que todas as coisas que ele observou nesse mundo apresentam-se em tamanhos, formas e cores incontáveis, e que todos se mostram em um de três estados possíveis: líquido, gasoso ou sólido. Tales procurou um que se apresentasse nos três estados. Assim escolheu a água, que existe em forma líquida, gasosa e sólida.
  • Tales notou que as coisas vivas dependem da água e não podem viver muito tempo sem ela. 
  • Tales encarou o problema do movimento: como se explica a origem do movimento diante da nossa noção da lei da inércia. Observando a correnteza dos rios e o movimento constante das marés, ele viu a água como candidata ideal.
Portanto, ele afirmava que tudo é água. Tudo é composto de água, e a água serve como a unidade, a arché, de todas as coisas.  Uma das razões por que Tales é considerado o pai da filosofia ocidental é que ele se distanciou da mitologia e poesia tradicionais.

Giovanni Reale faz a seguinte observação:
Mas não se deve acreditar que a água de Tales seja o elemento fisico-químico que hoje bebemos. A água de Tales deve ser pensada de modo totalizante, ou seja, como a physis liquida originaria da qual tudo deriva e da qual a água bebemos é apenas uma de suas tantas manifestações. Tales era um "naturalista" no sentido antigo do termo e não um "materialista" no sentido moderno e contemporâneo. Com efeito, sua "água" coincidia com o divino. Desse modo, introduz-se novo conceito de Deus: trata-se de uma concepção na qual predomina a razão, e destina-se, enquanto tal, a eliminar logo todos os deuses do politeísmo fantástico-poético dos gregos
 Ao afirmar posteriormente que "tudo está cheio de deuses", Tales queria dizer que tudo é permeado pelo principio originário. E como o principio originário é vida, tudo é vivo e tudo tem alma (panpsiquismo). O exemplo do imã que atrai o ferro era apresentado por ele como prova da animação universal das coisas (a força do imã é manifestação de sua alma, ou seja, precisamente, de sua vida).
Com Tales, o logos humano rumou com segurança pelo caminho da conquista da realidade em seu todo (a questão do principio de todas as coisas) e em algumas de suas partes (as que constituem o objeto das "ciências particulares", como hoje as chamamos) 
 (História da filosofia 1. Giovanni Reale. São Paulo: Paulus, 2007, p.19)

"Segundo a interpretação que dará Aristóteles séculos mais tarde, teria tido início com Tales a explicação do universo através da "causa material". Historiadores modernos, porém, rejeitam essa interpretação, que "aristoteliza" Tales, atribuindo-lhe preocupação de cunho metafísico. Assim, há quem afirme (Paul Tannery) que Tales foi importante apenas como introdutor na Grécia de noções da matemática oriental, que ele mesmo desenvolveu e aperfeiçoou, e de mitos cosmogônicos, particularmente egípcios, que laicizou, dando-lhe sustentação racional. Noutra interpretação (Olof  Gigon), "o surgir da água" significaria um processo geológico, sem acepção metafísica: tudo estaria originariamente encoberto pela água; sua evaporação permitiu que as coisas aparecessem. Por outro lado, alguns intérpretes consideram que outra sentença atribuída a Tales — "tudo está cheio de deuses" — representa não um retorno a concepções míticas, mas simplesmente a ideia de que o universo é dotado de animação, de que a matéria é viva (hilozoísmo)." (Os pensadores pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 16)
Contribuições:
  • Tales resolveu problemas de engenharia desviando o curso de um rio. 
  • Elaborou um sistema para medir a altura das pirâmides do Egito baseado no movimento das suas sombras. 
  • Desenvolveu técnicas de navegação seguindo as estrelas
  • Criou um instrumento para medir distâncias marítimas. 
  • Previu um eclipse solar ocorrido em 28 de maio de 585 a.C.  
  • Tales, portanto, fundamenta suas asserções sobre o raciocínio puro, sobre o logos; apresenta uma forma de conhecimento motivado com argumentações racionais precisas. 
Análise Cristã:
Tales com sua filosofia elemina os deuses do politeísmo, além das outras contribuições já citadas. Segundo Simplicio ele era ateu.




Anaximandro de Mileto (fim do VII - segunda metade do séc. Vl)

Anaximander, represented with a sundial, mosaic, 3rd century ad; in the Rhineland Museum, Trier, Ger.

Foi discípulo de Tales e criticou a solução do problema proposta por ele, salientando sua incompletude pela falta de explicação das razões e do modo pelo qual as coisas se originam derivam do princípio proposto.
Rejeitou a teoria de que a realidade pode ser reduzida a um elemento específico. Escreveu um tratado "sobre a Natureza"

Em seu livro - Física, o pensador Simplício nos relata:
  "Dentre os que afirmam que há um só princípio, móvel e ilimitado, Anaximandro, filho de Praxíades, de Mileto, sucessor e discípulo de Tales, disse que o a-peiron (ilimitado) era o princípio e o elemento das coisas existentes. Foi o primeiro a introduzir o termo princípio. Diz que este não é a água nem algum dos chamados elementos, mas alguma natureza diferente, ilimitada, e dela nascem os céus e os mundos neles contidos (…) É manifesto que, observando a transformação recíproca dos quatro elementos, não achou apropriado fixar um destes como substrato, mas algo diferente, fora estes. Não atribui então a geração ao elemento em mudança, mas à separação dos contrários por causa do eterno movimento."

Se o principio deve poder tornar-se todas as coisas que são diversas tanto por qualidade como por quantidade, deve em si  ser privado de determinações qualitativas e quantitativas, deve ser infinito espacialmente e indefinido qualitativamente, esses dois conceitos em grego se expressam com uma palavra apeiron.  Apeiron significa aquilo que está privado de limites, tanto externos (ou seja, aquilo que é espacialmente e, portanto, quantitativamente infinito), como internos (ou seja, aquilo que é qualitativamente indeterminado). Precisamente por ser quantitativa e qualitativamente i-limitado, o principio-apeiron pode dar origem a todas as coisas, delimitando-se de vários modos. Todas as coisas geram-se a partir dele, nele consistem e nele existem.

Desta forma Anaximandro procurou a realidade em algo mais fundamental, que se ergue ou transcende o campo desse mundo, um lugar não físico de onde vêm todas as coisas. E esse lugar que ele chamou apeiron (indefinido ou infinito)ou limites indeterminados. Segundo ele todos os céus e tudo neles contido vem do apeiron, a fonte de geração de todas as coisas. Portanto ele admite um  só princípio imóvel e infinito (monismo incorpóreo)

Anaximandro, porém, põe a questão, e responde que a causa da origem das coisas é urna espécie de "injustiça" (adikia), enquanto a causa da corrupção e da morte e urna espécie de "expiação" de tal injustiça. Provavelmente Anaximandro pensava no fato de que o mundo é constituído por uma série de contrários, que tendem a predominar injustamente um sobre o outro (calor e frio, seco e úmido etc.). A injustiça consistiria precisamente nessa predominância  de um sobre o outro (houve portanto uma provável influência órfica) .
“De onde as coisas se originaram, passam elas a uma outra coisa, como é ordenado, pois efetuam a reparação e a compensação mútua por suas injustiças conforme a ordem do tempo”.

Ele dizia que existe uma necessidade de todas as coisas voltarem para o apeiron imortal e incorruptivel, em que os contrários não se predominam uns sobre os outros, isso pelo tempo.

O deuses  gregos morriam ao contrário do princípio divino de Anaximandro,.. assim "de um só golpe é derrubada a base sobre a qual se erguiam as teogonias, as genealogias dos deuses como entendidas no sentido que as  queria a mitologia tradicional dos gregos" (História da Filosofia. Giovanni Reali.  Vol 1. São Paulo: Paulus, 2014, p. 32)

Assim como o principio é infinito, também os mundos são infinitos em sucessão como em coexistência:
a- nosso mundo nada mais é que um dos inumeráveis mundos em tudo semelhantes aos que os precederam e aos que os seguirão (pois cada mundo tem nascimento, vida e morte).
b- este mundo coexiste ao mesmo tempo com urna série infinita de outros mundos (e todos eles nascem e morrem de modo análogo).

 Ele explica a origem do Universo e introduz a evolução das espécies
De um movimento, que é eterno, geraram-se os primeiros dois contrários fundamentais: o frio e o calor. Originalmente de natureza liquida, o frio teria sido em parte transformado pelo fogo-calor, que formava a esfera periférica, no ar. A esfera do fogo ter-se-ia dividido em três, originando a esfera do sol, a esfera da lua e a esfera dos astros. O elemento liquido ter-se-ia recolhido nas cavidades da terra, constituindo os mares.

Imaginada como tendo forma cilíndrica, a terra "permanece suspensa sem ser sustentada por nada, mas continua firme por causa da igual distância de todas as partes", ou seja, por uma espécie de equilíbrio de forças. Sob a ação do sol, devem ter nascido do elemento liquido os primeiros animais, de estrutura elementar, dos quais, pouco a pouco, ter-se-iam desenvolvido os animais mais complexos.

Análise Cristã:
Anaximandro desenvolveu várias idéias que foram comprovadas pela astrofísica moderna, eliminou os deuses,mas hoje os ateus se valem da teoria do multiverso para tentar eliminar a necessidade do Deus único criador  como explicação para a Sintonia Fina do Universo, que tem características semelhantes ao apeiron (incriado, imortal, infinito, imaterial, eterno, etc..), mas em oposto, um ser Pessoal. (veja nos links)

Anaxímenes  de Mileto(séc. VI a.C.),

Discípulo de Anaximandro, insatisfeito com a ideia vaga de um lugar misterioso "sem limites", sintetizou alguns dos interesses de Tales com os de Anaximandro. Anaxímenes buscou algo que fosse ao mesmo tempo específico e espalhado por toda parte . Escreveu um livro "Sobre a Natureza". Escolheu o  ar como arche, infinito, difuso por toda parte, em perene movimento, que para ele sustenta e governa o universo, e gera todas as coisas, transformando-se mediante a condensação, esfria-se e se torna em água e depois terra, ao se distender (ou seja, rarefazendo-se) e  ao dilatar, esquenta e torna-se fogo.

Não há somente uma designação de uma substãncia primordial, mas a eplicação de como por meio dela se produz todas as coisas. O ar rarefeito é fogo,; mas condensado em vários graus torna-se nuvens, água, terra, rochas, etc.
  O ar tem muitas das vantagens da água: tem estados diferentes de rarefação e condensação, é essencial à vida, e parece ter o poder de mover a si mesmo, quando o vento sopra.
Segundo Reale, ele tem um raciocínio mais rigoroso e mais lógico do pensamento da Escola de Mileto, porque, com o processo de "condensação" e "rarefação", ele introduz a causa dinâmica da qual Tales ainda não havia falado e que Anaximandro determinara apenas inspirando-se em concepções órficas. Anaximenes fornece, portanto, uma causa em perfeita harmonia com o "principio".
"Exatamente como a nossa alma (ou seja, o principio que dá a vida), que o ar, se sustenta e se governa, assim também o sopro e o ar abarcam o cosmo inteiro." 


Bertrand Russel discorda:

"Anaxímenes foi mais admirado, na antiguidade, do que Anaximandro, embora hoje ocorra o contrário em quase todo o mundo civilizado. Exerceu ele grande influência sobre Pitágoras, bem como sobre as especulações filosóficas posteriores. Os pitagóricos descobriram que a terra é esférica, mas os atomistas aderiram à opinião de Anaxímenes, de que ela tem a forma de  um disco." (História da Filosofia Ocidental)

Análise Cristã:
Anaxímenes, assim como seus antecessores elimina os deuses do politeísmo, designa não só uma substancia  primeira, embora seja material, mas explica como a partir dela se origina todas as outras coisas, e  isto foi de suma importancia para o desenvolvimento do pensamento posterior.




Pitágoras (séc V a.C)
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 Pitágoras migrou de Samos para o sul da Itália, onde desenvolveu sua teoria dos números.
Para ele e seus seguidores o limite e o Ilimitado são princípios, ao mesmo tempo, das coisas e dos números, uma vez que foram levados a afirmar que 'as coisas são números'. Isso advém do fato de terem descoberto uma regularidade matemática em todas as coisas!
Os pitagóricos se espalharam pela Itália e depois para a Grécia propriamente dita. Formaram uma liga ou seita. Sofreram profunda influencia órfica especialmente na crença da transmigração das almas e corpo como prisão e por causa disso visavam em tudo ser seguidores de Deus e ter comunhão com a divindade.

Os pitagóricos tinham a música em alta consideração por causa do seu valor terapêutico para a alma. Para eles, a música "acalma o animal selvagem". Eles desenvolveram a matemática da harmonia, constatando que os sons podem ser divididos em grupos numéricos ou proporções matemáticas dos quatro primeiros números (oitava=2:1; quinta=3:2, quarta=4:3). Raciocinava ele que se a harmonia musical resulta da imposição do limite (proporções numéricas) na continuidade indefinida do som, talvez o Universo todo se explique pela imposição do limite do limitado; e como o que faz a harmonia é o número, é o número que constitui todas as coisas.Pois todas as outras coisas eram exprimíveis pelos números. Por isso eles chamavam o mundo de kosmos (ordem). Com os Pitagóricos o mundo deixou de ser dominado por obscuras e indecifráveis força, tornando-se numero, que expressa ordem, racionalidade e verdade.

Sustentavam  que todas as coisas derivam dos números, mas que os números não são o primum absoluto, mas eles mesmos derivam de outros elementos.  Os números são gerados por um elemento indeterminado e um elemento determinante, os números manifestam certa prevalência de um ou outro desses dois elementos: nos números pares predomina o indeterminado (e, portanto, os números pares são menos perfeitos para os Pitagóricos), ao passo que nos impares prevalece o elemento limitante (e, por isso, sio mais perfeitos). O ímpar é "masculino" 'quadrados" e o par é "feminino" e retangular. Não existia o número zero, e o um era par-ímpar. O numero perfeito foi identificado com o 10, que visualmente era representado como um triângulo perfeito.

O número 7 era considerado "regente e senhor de todas as coisas, deus, uno, eterno, sólido, imóvel, igual a si mesmo e diferente de todos os outros números." O sete não era gerado, e nem gerava, era imóvel

Ele tinha um interesse espiritual e religioso em matemática, pelo qual atribuía significado místico aos números.  No estudo da matemática, o que é formal (que tem que ver com forma ou essência) se torna mais importante do que o material, e o que é intelectual ou espiritual é mais importante do que o físico. Para Pitágoras e seus seguidores, a matemática é algo pertinente à alma, por isso se valia dela (matemática) para promover a libertação da alma do ciclo de reencarnações. Ele, segundo Porfírio, foi o primeiro a trazer a idéia de reencarnação para a Grécia, acreditando em reencarnações até em animais. Esse desinteresse pelo corpo e pelo sensível e sua ênfase na alma, no espiritual e no inteligível influenciou em muito a filosofia de Platão.

Para esse grupo, a medicina também era sujeita à matemática, Eles viam a saúde do corpo em termos de equilíbrio ou harmonia entre opostos como frio e quente e entre as funções químicas do corpo, tendo-se tornado precursores do atual interesse biomédico pelo equilíbrio hormonal.

Os pitagóricos aplicaram a matemática à astronomia, buscando a "harmonia das esferas" no esforço de descobrir e prever o movimento dos corpos celestes. Isso não era um mero exercício especulativo; os povos antigos dependiam das estrelas não apenas para a navegação, mas, o que é até mais importante,
para medir o tempo (calendários) para que pudessem plantar e colher na melhor época.

 "Para nos o numero e uma abstração mental e, portanto, ente da razão; para o antigo modo de pensar (até Aristoteles), porém, o número era coisa real e até mesmo a mais real das coisas - e precisamente enquanto tal é que veio a ser considerado o "principio" constitutivo das coisas. Assim, para eles o numero não era um aspecto que nos mentalmente abstraímos das coisas. mas sim a própria realidade, a physis das próprias coisas." (História da filosofia. Giovanni Reale. 1. São Paulo: Paulus, 2007, p. 27)

Pitágoras parece ter sido o primeiro filósofo a sustentar a doutrina da metempsicose, ou seja, a doutrina segundo a qual a alma, devido a uma culpa originária, e obrigada a reencarnar-se em sucessivas existências corpóreas ´(humanos ou animais) para expiar aquela culpa, esta doutrina, como já dito, provém dos órficos.

Sua influencia sobre os outros pensadores, segundo Bertrand Russel:
A matemática é, creio eu, a fonte principal da crença na verdade exata e eterna, bem como num mundo supersensível e inteligente. A geometria trata de círculos exatos, mas nenhum objeto sensível é exatamente circular; por mais cuidadosos que sejamos no uso de nosso compasso, haverá sempre certas imperfeições e irregularidades. Isto sugere a idéia de que todo raciocínio exato compreende objetos ideais, em contraposição a objetos sensíveis; é natural ir-se além e arguir que o pensamento é mais nobre do que os sentidos, e os objetos do pensamento mais reais do que aqueles que percebemos através dos sentidos. As doutrinas místicas quanto as relações do tempo com a eternidade são também fortalecidas pela matemática pura, porque se os objetos, tais como os números, são reais, são eles eternos, e não colocados no tempo. Tais objetos eternos podem ser concebidos como pensamentos de Deus. Daí a doutrina de Platão, de que Deus é um geômetra, e a crença de Sir James Jeans, de que Ele ama a aritmética. A religião racionalista, em contraposição à religião apocalíptica, foi sempre, de Pitágoras em diante e, principalmente, desde Platão, completamente dominada pelas matemáticas e pelo método matemático. A combinação das matemáticas e da teologia, que começou com Pitágoras, caracterizou a filosofia religiosa na Grécia, na Idade Média, e, nos tempos modernos, até Kant. O orfismo, antes de Pitágoras, era análogo às religiões asiáticas de mistérios. Mas em Platão, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, Descartes, Spinoza e Leibniz, há uma fusão íntima de religião e raciocínio, de aspiração moral a par de admiração lógica pelo que é eterno, que vem de Pitágoras, e distingue a teologia intelectualizada da Europa do misticismo mais direto da Ásia. Foi somente em época bastante recente que se tornou possível dizer-se claramente onde Pitágoras incorria em erro. Não conheço nenhum outro homem que haja exercido como ele tanta influência na esfera do pensamento. Digo-o porque aquilo que nos parece platonismo é, quando analisado, essencialmente pitagorismo. Toda a concepção do mundo eterno, revelada ao intelecto, mas não aos sentidos, deriva dele. Se não fosse por ele, os cristãos não teriam considerado Cristo como sendo o Verbo: se não fosse por ele, os teólogos não teriam procurado provas lógicas da existência de Deus e da imortalidade. Mas, em Pitágoras, tudo isso permanece ainda explícito. Como isso se tornou explícito, veremos mais adiante." (História da Filosofia Ocidental- Bertrand Russell)

 Os Números não seriam algo abstrato, mas real, seriam espaciais: triangulares, quadrados, e outros. 

Análise Cristã:
Embora tenha contribuído para a matemática e a metafísica, Pitágoras incorreu em erros como a metempsicose, ascetismo religioso e outros, derivados do orfismo, (ver Xenófanes) e desprezo à observação (método científico).

Eis aqui algumas das regras da ordem de Pitágoras:
 1. Abster-se de favas.
2. Não apanhar o que caiu.
3. Não tocar em galo branco.
4. Não partir o pão.
5. Não passar por cima de uma viga.
6. Não atiçar o fogo com ferro.
7. Não comer de uma broa de pão inteira.
8. Não apanhar uma grinalda.
9. Não sentar sobre uma medida de um quarto.
10. Não comer coração.
11. Não andar pelas estradas.
12. Não deixar que as andorinhas se aninhem no telhado da própria casa.
13. Quando se tira a panela do fogo, não deixar a sua marca nas cinzas, mas remexê-las.
14. Não olhar no espelho ao lado de uma luz.
15. Ao levantar da cama, enrolar as cobertas e alisar a marca deixada pelo corpo...
A geometria, em particular, é uma invenção grega, sem a qual seria impossível a ciência moderna. Mas, com relação às matemáticas, evidencia-se a unilateralidade do gênio grego; raciocinava dedutivamente partindo do que parecia ser evidente por si mesmo, e não dedutivamente partindo do que tinha sido observado. Seus êxitos surpreendentes no emprego deste método induziram a erro não somente o mundo antigo, mas, também, a maior parte do mundo moderno. Foi só muito lentamente que o método científico, que procura chegar aos princípios indutivamente, mediante a observação de determinados fatos, substituiu a crença helênica na dedução partindo de axiomas luminosos extraídos da mente do filósofo. Por esta razão, entre outras, é um erro tratar-se os gregos com reverência supersticiosa. O método científico, embora tenham sido eles os que primeiro o vislumbraram, é, em seu todo, alheio ao seu espírito, e a tentativa de glorificar os gregos diminuindo o progresso intelectual dos últimos quatro séculos, tem um efeito paralisador sobre o pensamento moderno. (História da Filosofia Ocidental- Bertrand Russell)
Este desprezo ao método científico, muitas vezes tem levado alguns pensadores a desprezar o resultado das observações da astrofísica moderna, e suas implicações lógico-filosóficas, especialmente em relação a descoberta da natureza interdependente do tempo-espaço-matéria, e sua origem. Necessariamente a causa o espaço, tempo , matéria leva a uma causa de origem supra-sensivel, imaterial, atemporal  http://lordisnotdead.blogspot.com/2015/04/prova-pelo-surgimento-do-universo.html




Xenófanes de Colófon (560-478 a.C)
Xenofanes nasceu na cidade jônica de Colófon (Ásia Menor), de onde foi forçado a emigrar para a Itália por conta dos medos-persas em 546 a.C..  Era andarilho sem morada fixa  dos 25 até a idade de noventa e dois anos, e não foi o fundador da escola de Eléia, como se afirmava.

Sua filosofia é de caráter teológico e cosmológico, ao passo que os eleatas,  fundaram a problemática ontológica. Assim Xenófanes é hoje considerado pensador independente, tendo apenas algumas afinidades muito genéricas com os eleatas, mas certamente sem ligação com a fundação da Escola de Eléia.


No que se refere à sua filosofia, Xenófanes determinou primeiro o ser absoluto como o um: "O todo é um". Designou isto também Deus; afirmou que Deus está implantado em todas as coisas, que ele é supra-sensível, imutável, sem começo, meio e fim, imóvel. Em alguns de seus versos diz Xenófanes:

 "Um Deus é o maior entre os deuses e os homens, e não é comparável aos mortais, nem quanto à figura nem quanto ao espírito",


Criticou o antropomorfismo, ou seja, em atribuir aos deuses formas exteriores, caracteristicas psicológicas e paixões iguais ou análogas as que são próprias dos homens, apenas quantitativamente mais notáveis, mas não qualitativamente diferentes.  Agudamente, Xenófanes objeta que se os animais tivessem mãos e pudessem fazer imagens de deuses, os fariam em forma de animal, assim como os Etiopes faziam seus deuses negros e de nariz achatado, e os Tracios, que tem olhos azuis e cabelos ruivos, representam seus deuses com tais características. Critica também a atribuição do mal aos deuses. Assim, atacou os deuses tradicionais e seus poetas. 
“Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo o que é vergonhoso e infortunado entre os mortais: roubos, adultérios e falsidades … Os mortais julgam que os deuses são gerados como eles próprios, usam roupas e tem voz e formas como as deles … Se os bois, cavalos e leões tivessem mãos, e produzissem obras de arte como os homens, os cavalos pintariam os seus deuses com formas de cavalo, os bois com formas de boi, formando os seus corpos à imagem dos da sua própria espécie. Os etíopes fazem os seus deusesnegros e de nariz chato; os deuses dos trácios tem olhos azuis e cabelos ruivos.” Ele acreditava num Deus único, diferente dos homens em forma e pensamento, que “sem esforço movia todas as coisas pela força de sua mente”. Xenófanes zombava da doutrina pitagórica da transmigração. “Afirmam que, certa vez, ele (Pitágoras) estava passando por um lugar onde alguém maltratava um cão. “Pára, não lhe batas! É a alma de um amigo! Reconheci-o logo que lhe ouvi a voz!” Xenófanes achava que era impossível certificar-se a gente da verdade em questões de teologia. “A verdade absoluta é que não existe homem algum que saiba, ou que venha a saber, a respeito dos deuses e de todas as coisas de que falo. Sim, mesmo que, por acaso, alguém diga algo profundamente acertado, ainda assim não o saberá; não existe nada em coisa alguma, a não ser suposições.”  (História da Filosofia Ocidental- Bertrand Russell)


Xenofanes também demitiza as virias explicaçoes míticas dos fenômenos naturais que, como sabemos, atribuíam-se a deuses. Por exemplo, a deusa Iris (o arco-iris) é demitizada e identificada racionalmente com "uma nuvem, purpúrea, violácea, verde de se ver" ou o raio era atribuído aos deuses.
Ele mesmo tinha uma visão panteísta, na qual Deus era o cosmos e ridicularizava a doutrina da transmigração das almas defendida por Tales. Ele dizia que todas as coisas vinham da terra e da água.

"Aos deuses, Homero s Hesíodo atribuem tudo aquilo que para os homens é desonra e vergonha: roubar, cometer adultério, enganar-se mutuamente". Xenofanss, Fr 11 D~els-Kranz

"Um só Deus, sumo entre os deuses e os homens, nem por figura nem por pensamento semelhante aos homens". Xenofanes, Fr 23 Diels-Kronz.

"Tudo vê, tudo pensa, tudo ouve". Xenófanes. fr. 24 Diels-Kranz.

"Sem fadiga, com a força da mente faz tudo vibrar". Xenofanes, fr. 25 Diels-Kranz.

"Permaneça sempre no mesmo lugar sem de qualquer modo se mover, nem Ihe fica bem andar ora em um lugar ora em outro." Xenofones, fr. 26 Diels-Kranz
"Um deus é o supremo entre os deuses e os homens; nem em sua forma, nem em seu pensamento é igual aos mortais"
 "Este um total dizia Xenófanes que era o deus, o qual ele mostra que é um por ser o mais poderoso de todos; pois se há muitos seres, diz ele, é necessário que de modo igual o poder seja de todos; mas, de todos, o mais forte e o melhor é deus". SIMPLÍCIO, Física, 22,12 ss. (DK 21 A 31).

Análise Cristã:
Embora tenha sido um crítico do politeísmo, Xenófanes caiu na irracionalidade do panteísmo. Confundir o material com o imaterial, o contingente com o necessário é cair em contradições lógicas



Heráclito viveu entre os séculos VI e V a.C., em Éfeso, na Jônia (atual Turquia)

 É às vezes chamado "o pai do existencialismo moderno" por causa do seu ataque ao que é essencial. Ele herda dos filósofos milésios (de Mileto)o conceito de dinamismo universal. Seu pensamento é resumido pela frase em grego panta rhei"todas as coisas fluem". De acordo com Heráclito, tudo está fluindo sempre e em todo lugar, isso significa que todas as coisas encontram-se no estado de vir a ser, em oposição ao estado de ser. Escreveu um livro "Sobre a Natureza".
Portanto, para ele, todas as coisas mudam sem cessar, e o que temos diante de nós em dado momento é diferente do que foi há pouco e do que será depois: "Nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio", pois na segunda vez não - somos os mesmos, e também o rio mudou.  Se você coloca um pé no rio, na hora em que você puser seu outro pé, o rio já terá fluído adiante. Ele já terá mudado. Suas margens, numa erosão imperceptível, terão mudado, e você mesmo terá mudado — se de nenhuma outra forma, pelo menos no fato de ter ficado alguns segundos mais velho. Mesmo assim, a água que está mudando é algo. A realidade não é uma diversidade pura; há uma unidade permanente.

Por isso Heráclito via o fogo como o elemento básico das coisas, pois está sempre fluindo. O fogo tem de ser constantemente alimentado, mas ele também sempre está emitindo algo: fumaça, calor ou cinza. Ele está sempre "em atividade", em constante transformação. O mundo é o eterno fogo que se transforma. A única coisa que permanece inalterável e estável é o logos (a lei)

Para Heráclito, o processo de mudança não é caótico, mas orquestrado pelo LOGOS, a razão universal. Para ele, o logos é a lei universal imanente em todas as coisas. Um fragmento particularmente significativo sela a nova posição de Heraclito:

 "0 Uno, o único sábio, quer e não quer ser chamado Zeus." Não quer ser chamado Zeus se por Zeus se entende o deus de formas humanas próprio dos gregos; quer ser chamado Zeus se por esse nome se entende o Deus e o ser supremo.
Se não ouvirem simplesmente a mim, mas se tiverem auscultado (obedecendo-lhe, na obediência) o λογος [ouk emou allá tou lógou akousántas], então é um saber (que consiste em) dizer igual o que diz o λογος [homologein sophón estin]: tudo é um [Hèn Pánta]. 4 4. (Heráclito de Éfeso. Frag. 50.) 
 Sem inteligência, o homem tende a ficar atordoado com o logos" em todas as coisas. (Frag. 87)
Aqui vemos as raízes filosóficas do conceito do logos do qual o apóstolo João se apropriou para definir a pessoa pré-existente e eterna da divindade que se encarnou. Contudo, é um erro grave simplesmente equiparar ou identificar o uso que João faz do logos com o da filosofia grega, porque João deu ao termo um conteúdo das categorias hebraicas de pensamento. Ao mesmo tempo, é um erro igualmente sério separar  completamente do pensamento grego o uso que João faz do termo.

Heráclito estava à procura de um princípio do telos, de uma teleologia ou propósito que desse ordem e harmonia às coisas em movimento, que desse unidade à diversidade. 

Ao examinar a presença de movimento em todas as coisas, Heráclito procurou explicar a realidade da disputa, que ele localizou no conflito (polemos) dos opostos. Assim como o fogo age pelo conflito dos opostos, em que nada se perde, apenas muda de forma, todos os conflitos no fim são resolvidos no fogo que paira sobre tudo, ou no logos das coisas. Destes contrários nasce uma harmonia.

O devir ao qual tudo esta destinado caracteriza-se por continua passagem de um contrario ao outro: as coisas frias se aquecem, as quentes se resfriam, as úmidas secam, as secas tornam-se úmidas, o jovem envelhece, o vivo morre, mas daquilo que está morto renasce outra vida jovem, e assim por diante. Ha, portanto, guerra perpétua entre os contrários que se aproximam.

Para Heráclito o ser é o múltiplo. Não no sentido apenas de que existe a multiplicidade das coisas, mas de que o ser é múltiplo por estar constituído de oposições internas. O que mantém o fluxo do movimento não é o simples aparecer de novos seres, mas a luta dos contrários, pois "a guerra é pai de todos, rei de todos". E é da luta que nasce a harmonia, como síntese dos contrários. Pode-se dizer que Heráclito teve a intuição da lógica dialética, a ser elaborada por Hegel e depois Marx, no século XIX.

A Verdade consiste em captar, para além dos sentidos, a inteligência que governa todas as coisas, portanto, deve-se ter cuidado com os sentidos e com as opiniões dos homens.

Ele escrevia de forma enigmática para afastar os curiosos:

O conflito (polemos) é pai de todas as coisas
e rei de todas as coisas; a uns põe como
deuses, a outros corno homens, torno uns escravos
e outros livres.

0 que é oposição se concilia e das coisas
diferentes nasce a mais bela harmonia, e tudo
é gerado por via de contraste..

Eles [os que são ignorantes] não compreendem
que aquilo que é diferente concorda consigo
mesmo: harmonia de contrários, como a harmonia
do arco e da lira. (Fr. 51)

A doença torna doce a saúde, a fome torna
doce a saciedade e a fadiga torna doce o
repouso.

Não conheceriam sequer o nome da justiça
 se não existisse a ofensa.

0 caminho para cima e o caminho para
baixo são o único e mesmo caminho.
Deus é dia-noite, é inverno-verão, é guerra-paz, e saciedade-fome, e muda como o fogo quando se mistura aos perfumes e toma nome do aroma de cada um deles (fr. 67)
 Existe  uma  sabedoria: reconhecer a inteligência (gnomen) que governa todas as coisas através de todas as coisas.
E fogo de  Deus é a inteligência que sustenta e governa toas as coisas. 
  "Não se pode descer duas vezes no mesmo rio e não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado, pois, por causa da impetuosidade e da velocidade da mudança, ela se dispersa e se reúne, vem e vai (...) Nos descemos e não descemos pelo mesmo rio, nos próprios somos e não somos."
 “O cosmos, o mesmo para todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez, mas sempre foi, é e será fogo sempre vivo, acendendo segundo a medida e segundo a medida se apagando” (fragmento 30)
 Frag. 104: “Um, o saber: compreender que o pensamento (nous), em qualquer tempo, dirige tudo através de tudo”.
Frag. 108: “De todos aqueles de quem escutei as palavras, nenhum consegue esclarecer que o sábio (sophon) é algo separado de todos”.
  fragmento 5: “É em vão que se purificam, aspergindo-se com sangue, como se alguém, que tivesse pisado na lama, quisesse lavar-se com lama; e fazem suas preces às imagens como se alguém pudesse falar com as paredes”.
A metafísica de Heráclito é suficientemente dinâmica para satisfazer ao mais inquieto dos modernos:
Este mundo, que é o mesmo para todos, não foi feito nem pelos deuses nem pelos homens; mas sempre foi, é e será um Fogo eterno, com unidades que se acendem e unidades que se apagam”.
As transformações do Fogo são, antes de tudo, os mares; e o mar é metade terra, metade turbilhão”.Em tal mundo, era de esperar-se uma transformação perpétua, e era nessa transformação perpétua que Heráclito acreditava.
Tinha, porém, outra doutrina, à qual se entregava mais do que à fluxo perpétuo: era a teoria da mistura de coisas opostas.
“Os homens não sabem — diz ele — de que maneira o que não concorda está de acordo consigo mesmo. É uma harmonia de tensões opostas, como a do arco e a lira”. Sua crença na luta está ligada a esta teoria, pois, na luta, os opostos se combinam para produzir um movimento que é harmonia. Há unidade no mundo, mas é uma unidade resultante de diversidade.
“As coisas pares são coisas inteiras e não inteiras, o unido e o separado, o harmonioso e o discordante. O uno é feito de todas as coisas, e todas as coisas provêm do uno”.
Fala, às vezes, como se a unidade fosse mais fundamental do que a diversidade:
“O bem e o mal são uma única coisa”.“Para Deus, todas as coisas são justas, boas e corretas, mas os homens consideram certas coisas erradas e outras certas”.“Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, saciedade e fome; mas Ele adota várias formas, como o fogo, que, quando é misturado a especiarias, é chamado segundo o sabor de cada uma delas”.
Não obstante, não haveria unidade, se não existissem antagonismos que combinar: “É o oposto que é bom para nós”.
Esta doutrina contém o gérmen da filosofia de Hegel, que procede mediante uma síntese de contrários.
A metafísica de Heráclito, como a de Anaximandro, é dominada por uma concepção de justiça cósmica, que impede que a luta de opostos termine com a vitória completa de uma das partes.
“Todas as coisas podem transformar-se em Fogo, e o Fogo em todas as coisas, o mesmo que a mercadoria em ouro e o ouro em mercadoria”.“O Fogo vive a morte do ar, e o ar vive a morte do Fogo; a água vive a morte da terra, a terra a da água”.“O sol não ultrapassará a sua medida; se o fizer, as Eríneas, servas da Justiça, o perseguirão”.“Devemos saber que a guerra é comum a tudo, e que a luta é justiça”.
Heráclito fala repetidamente de “Deus”, distinguindo-o de “os deuses”.
“O homem não possui sabedoria, mas Deus a possui … Deus chama ao homem criança, como o homem chama ao menino … O homem mais sábio é um macaco comparado a Deus, assim como o macaco mais belo é feio comparado ao homem”.Não há dúvida de que Deus é a encarnação da justiça cósmica. História da Filosofia (Bertrand Russel)


O Filósofo Julian Marias comenta algumas semelhanças entre Parmênides e Heráclito:
 O pensamento de Heráclito, digamos, põe o foco no fugaz, no passageiro, no móvel, no que muda, na discórdia, na guerra, na pluralidade das coisas, no que flui... tudo isso, evidentemente, aparece como - e é - o reverso de Parmênides. Sim, mas não só isso, há outros conceitos no próprio Heráclito que, afinal, são parmenidianos. Há algo que é permanente e que é único, que é o que ele chama to sophon. A palavra sophos, como sabem, quer dizer sábio. Haverá uma etapa, posterior, no pensamento grego, que vai ser justamente o ideal do sábio: o sophos (o filósofo é aquele que ama a sabedoria, que busca a sabedoria; Platão dirá que nem o ignorante nem o sábio filosofam - porque um não tem consciência de que não sabe e o outro já o sabe; o filósofo é um "termo médio", é aquele que sente falta do saber e o procura). Heráclito não fala do sábio (masculino), fala de to sophon, o sábio (neutro), é um neutro e diz que é único, permanente, imutável... ou seja, atribui a to sophon os atributos do ente de Parmênides. Isto é sumamente curioso...."
Outro conceito que aparece com a unidade - e em princípio com a permanência - é o nous - um dos quatro ou cinco conceitos capitais do pensamento grego. Nous é a visão, mas com um caráter não puramente sensorial (isso é particularmente importante e também aparecerá na conferência sobre Aristóteles). Ou seja, há uma visão biológica, fisiológica, e também há uma visão intelectual - e é o sentido dominante no conceito de nous (em Anaxágoras o nous terá até umas conexões que podem ser teológicas).

Como vêem, essa contraposição entre Parmênides e Heráclito parece que tem um caráter absoluto, eu diria demasiadamente absoluto; no entanto, em última instância (sempre penso que o contrário se parece muito àquilo do que é contrário...) a atitude de Heráclito tem muito de parmenidiano ao avesso: é o reverso de Parmênides, mas conserva toda uma série de elementos, toda uma série de ingredientes do pensamento de Parmênides...
           Em última análise há, de certo modo, algo de comum, algo profundamente comum entre Parmênides e Heráclito. O que acontece é que eles vêem a realidade precisamente a partir de duas perspectivas diferentes: o real está aí, está presente; Parmênides o vê por uma perspectiva e Heráclito insiste primariamente na outra: mas, naturalmente, essa realidade aparece em ambos, sob diferentes perspectivas: para Parmênides, o essencial é a unidade, a imobilidade, a perpetuidade, a consistência absoluta (evidentemente que há mudança, que há pluralidade etc. que não afeta o ente, essa consistência fundamental: será doxa, não  será aletheia, será a via dos mortais...). Heráclito - outro estilo intelectual - insistirá enormemente na mudança, na pluralidade... é a perspectiva inversa, mas ao olhar a realidade, surgem os elementos de unidade, de permanência: to sophon, o nouso comum, koinon.. Conferência do curso “Los estilos de la Filosofía”, Madrid, 1999/2000.

 Fala mal de todos os seus predecessores eminentes, com uma única exceção. “Homero devia ser tirado das listas e chicoteado”. “De todos os discursos que ouvi, não há nenhum que compreenda que a sabedoria é alheia a todos”. “O conhecimento de muitas coisas não significa entendimento, pois, se assim fosse, teria ensinado a Hesíodo e a Pitágoras, a Xenófanes e a Hecateo”. “Pitágoras … considerava como sua própria sabedoria o que não era senão um conhecimento de muitas coisas e uma arte para o embuste”. A única exceção em suas sentenças condenatórias é Teutamo, que é por ele considerado como “mais importante que o resto”. Quando procuramos a razão de tal elogio, verificamos que Teutamo afirmou
que “os homens, em sua maioria, são maus”. (História da Filosofia Ocidental- Bertrand Russell)

Heráclito e a religião:

A atitude de Heráclito para com as religiões de sua época, pelo menos quanto ao que se refere à religião báquica, é grandemente hostil, mas não é a hostilidade de um racionalista científico. Tem a sua própria religião e, em parte, interpreta a teologia corrente, a fim de adaptá-la à sua doutrina, em parte a rejeita com bastante desdém. Foi chamado báquico (por Cornford), e considerado como um intérprete dos mistérios (por Pfleiderer). Não creio que os fragmentos correspondentes a este tema justifiquem esta opinião. Diz ele, por exemplo: “Os mistérios praticados entre os homens não são mistérios sagrados”. Isto sugere que ele tinha em mente mistérios que não eram “não sagrados”, mas que seriam muito diferentes daqueles que existiam. Se não houvesse desdenhado tanto o vulgar a ponto de empreender uma propaganda, teria sido um reformador religioso.
São os seguintes os trechos existentes de Heráclito que se referem à sua atitude diante da teologia da sua época:
As almas cheiram mal no Hades.
As mortes maiores obtêm partes maiores (Os que morrem destas mortes se transformam em deuses).
Sonâmbulos, mágicos, sacerdotes de Baco, e sacerdotisas do tonel de vinho, traficantes em mistérios.
Os mistérios praticados entre os homens não são mistérios sagrados.
E rezam a essas imagens, como se alguém falasse com a casa de um homem, sem saber o que são deuses ou heróis.
Porque se não fosse por Dionísio, para quem fazem uma procissão e cantam vergonhosos hinos fálicos, estariam agindo da maneira mais desavergonhada. Mas o Hades é o mesmo que Dionísio, em cuja honra enlouquecem e celebram a festa do tonel de vinho.
Purificam-se em vão, maculando-se de sangue, como se alguém que caminhasse na lama lavasse os pés na própria lama.
Qualquer homem que o visse agir assim, considerá-lo-ia louco”.
“O Senhor, que possui o oráculo de Delfos, não profere nem oculta o que pretende dizer, mas o revela por um sinal. E a Sibila, que com lábios delirantes profere coisas tristes, sem adornos e sem perfume, abrange mais de mil anos com a sua voz, graças ao deus que há nela....
 “Este mundo, que é o mesmo para todos, não foi feito nem pelos deuses nem pelos homens; mas sempre foi, é e será um Fogo eterno, com unidades que se acendem e unidades que se apagam”.
(História da Filosofia Ocidental- Bertrand Russell)
HERÁCLITO – FRAGMENTOS (SOBRE A NATUREZA)

Trad. de José Cavalcante de Souza SOBRE A NATUREZA (DK 22 b 1-126) “Digitalizado E Editado Por Alex Oliveira”

1. SEXTO EMPÍRICO, Contra os Matemáticos, VII,132.
Deste logos1 sendo sempre2 os homens se tornam descompassados3 quer
antes de ouvir quer tão logo tenham ouvido; pois, tornando-se todas (as coisas)
segundo esse logos, a inexperientes se assemelham embora experimentando-se em
palavras e ações tais quais eu discorro segundo (a) natureza distinguindo cada
(coisa) e explicando como se comporta. Aos outros homens escapa4 quanto fazem
despertos, tal como esquecem quanto fazem dormindo.

 

2. IDEM, ibidem, VII, 233.
Por isso é preciso seguir o-que-é-com,5 (isto é, o comum; pois o comum é o- que-é-com). Mas, o logos sendo o-que-é-com, vivem os homens como se tivessem
uma inteligência particular.

 

3. AÉCIO, II, 21, 4.
(Sobre a grandeza do sol) sua largura é a de um pé humano.

4. ALBERTO MAGNO, De Vegetatione, VI, 401.
Heráclito disse que se felicidade estivesse nos prazeres do corpo, diríamos
felizes os bois, quando encontram ervilha para comer.

1 Logos é o nome correspondente ao verbo légein = recolher, dizer. É "palavra", "discurso", "linguagem", "razão". Cf. fragmentos 2, 31, 39, 45, 50, 72, 108, 115. 
2 Fica mantida a falta de pontuação, criticada por Aristóteles (Retórica, III, 5) e "corrigida" em geral pelas traduções. V. p,
77, n. 2. 
3 No grego axynetoi, literalmente "que-não-se-lançam-com", i. e., "que não compreendem". Cf. fragmento 34 e aqueles
em que aparece a noção de "comum", de "o-que-é-com". 
4 No grego lanthánei, do mesmo tema de léthe (= esquecimento), que forma a-létheia (lit. não-esquecimento)
= verdade. Cf. fragmento 16. 
5 No grego xynós, sinônimo de koinós = comum, é uma forma a se aproximar de axynetoi (ver nota 3). Cf. fragmentos 79, 113 e 114.
OS PENSADORES
 
5. ARISTÓCRITO, Teosofia, 68; ORÍGENES, Contra Celso, VII, 62.
Purificam-se manchando~se com outro sangue, como se alguém, entrando
na lama, em lama se lavasse. E louco pareceria, se algum homem o notasse agindo
assim, E também a estas estátuas eles dirigem suas preces, como alguém que falasse
a casas, de nada sabendo o que são deuses e heróis,
6. ARISTÓTELES, Meteorologia, II, 2. 355 a 13.
O sol não apenas, como Heráclito diz, é novo cada dia, mas sempre novo,
continuamente.
7. IDEM, Da Sensação, 5. 443 a 23.
Se todos os seres em fumaça se tornassem, o nariz distinguiria.
8. IDEM, Ética a Nicômaco, VIII, 2. 1155 b 4.
Heráclito (dizendo que) o contrário é convergente e dos divergentes nasce a
mais bela harmonia, e tudo segundo a discórdia.
9. IDEM, ibidem, X, 5. 1176 a 7.
Diverso é o prazer do cavalo, do cão, do homem, tal como Heráclito diz que asnos prefeririam palha a ouro.
10. IDEM, Do Mundo, 5. 396 b 7.
Conjunções o todo e o não todo, o convergente e o divergente, o consoante
e o dissoante, e de todas as coisas um e de um todas as coisas.
11. IDEM, ibidem, 6. 401 a 8.
Pois tudo que rasteja é preservado a golpe, como diz Heráclito.
12. ARIO DÍDIMO, em EUSÉBIO, Preparação Evangélica, XV, 20.
Aos que entram nos mesmos rios outras águas afluem; almas exalam do
úmido.
13. CLEMENTE DE ALEXANDRIA, Tapeçarias, I, 2.
Porcos em lama se comprazem, mais do que em água limpa.
14. IDEM, Exortação, 22.
A quem profetiza Heráclito de Éfeso? Aos noctívagos, aos magos,
OS PRÉ-SOCRÁTICOS
aos bacantes, às mênades, aos iniciados; a estes ameaça com o depois da morte, a estes
profetiza o fogo; pois os considerados mistérios entre os homens impiamente se
celebram.
15. IDEM, ibidem, 34.
Se não fosse a Dioniso que fizessem a procissão e cantassem o hino, (então)
às partes vergonhosas desavergonhadamente se cumpriu um rito; mas é o mesmo Hades1 e Dioniso, a quem deliram e festejam nas Lenéias.
16. IDEM, Pedagogo, II, 99.
Do que jamais mergulha como alguém escaparia?2 17. IDEM, Tapeçarias, II, 8.
Muitos não percebem tais coisas, todos os que as encontram, nem quando
ensinados conhecem, mas a si próprios lhes parece (que as conhecem e percebem).
18. IDEM, ibidem, II, 17.
Se não esperar o inesperado não se descobrirá, sendo indesco- brível e
inacessível.
19. IDEM, ibidem, II, 24.
Homens que não sabem ouvir nem falar.
20. IDEM, ibidem, III, 14.
Nascidos querem viver e deter suas partes,3 ou antes repousar, e atrás de si
deixam filhos a se tornaram partes.
21. IDEM, ibidem, III, 21.
Morte é tudo que vemos despertos, e tudo que vemos dormindo é sono.
22. IDEM, ibidem, IV, 4.
Pois ouro os que procuram cavam muita terra e o encontram pouco.
1 O deus dos mortos. A forma grega Aides sugeria aproximações etimológicas com aidó= eu canto, com as formas do tema de eidérni - saber, e com os adjetivos aidés = invisível e aídelos = que torna invisível. Por outro lado,, o que no grego
corresponde a "às partes vergonhosas desavergonhadamente" é aidoíoisin anaidéstata. Todas estas aüterações compõem
com as palavras e as frases o sentido do texto. 2 Cf. nota 4. da pág. 87
3 No grego, móros, que, além deste sentido original, significa "parte ruim, desgraça, morte”. No fragmento joga o duplo
sentido. C£ fragmento 25

23. IDEM, ibidem, IV, 10.
Nome de Justiça não teriam sabido, se não fossem estas (coisas).
24. IDEM, ibidem, IV, 16.
Os que Ares mata honram-nos deuses e homens.
25. IDEM, ibidem, IV, 50.
Mortes maiores maiores sortes1 recebem.
26. IDEM, ibidem, IV, 143.
O homem de noite uma luz acende para si, morto, extinta a vista, mas vivo
ele acende do morto quando dorme, extinta a vista, e quando desperto se acende
do que dorme.
27. IDEM, ibidem, IV, 146.
O que para os homens permanece quando morrem (são coisas) que não
esperam nem lhes parece (que permaneçam).
28. IDEM, ibidem, V, 9.
Pois é o que se estima que o mais estimado conhece e guarda; e contudo
certamente a Justiça captará os artesãos e testemunhas de falsidades.
29. IDEM, ibidem, V, 60.
Pois uma só coisa escolhem os melhores contra todas as outras, um rumor
de glória eterna contra as (coisas) mortais; mas a maioria está empanturrada como
animais.
30. IDEM, ibidem, V, 105.
Este mundo,2 o mesmo de todos os (seres), nenhum deus, nenhum homem
o fez, mas era, é e será um fogo sempre vivo, acendendo-se em medidas e
apagando-se em medidas.
31. IDEM, ibidem, V, 105.
Direções do fogo: primeiro mar, e do mar metade terra, metade incandescência... Terra dilui-se em mar e se mede no mesmo logos, tal qual era antes de se tornar terra.

1 No grego os correspondentes a "mortes" e "sortes" são respectivamente móroi e moirai, ambos do tema de meiromai =
reparto. 
2 No grego kósmos, literalmente arranjo, ordem.
32. IDEM, ibidem, V, 116.
Uma só (coisa) o sábio1 não quer e quer ser recolhido2 no nome de Zeus.
33. IDEM, ibidem, V, 116.
Lei (é) também persuadir-se à vontade de um só.

34. IDEM, ibidem, 1/, 116.
Ouvindo descompassados3 assemelham-se a surdos; o ditado lhes
concerne: presentes estão ausentes.
35. IDEM, ibidem, V, 141.
Pois é preciso que de muitas coisas sejam inquiridores os homens amantes
da sabedoria.
36. IDEM, ibidem, VI, 16.
Para almas é morte tornar-se água, e para água é morte tornar-se terra, e de
terra nasce água, e de água alma.
37. COLUMELA, VIII, 4.
Porcos banham-se em lama e aves domésticas em poeira ou em
cinza.
38. DIÓGENES LAÉRCIO, I, 23.
(Tales) parece segundo alguns ter sido o primeiro a estudar os astros. A seu
respeito atestam Herãclito e Demócrito.

 39. IDEM, I, 88.

Em Priene nasceu Bias, filho de Teutames, cujo logos é maior que o dos
outros.
1 Não se trata do gênero masculino (homem sábio), mas do gênero neutro (coisa sábia). Por outro lado, não se trata da noção abstrata "sabedoria". Cf. fragmentos 41, 108. 
2 No grego légesthai, a forma passiva de légein. 

 40. IDEM, IX, 1.
Muita instrução não ensina a ter inteligência; pois teria ensinado Hesíodo e
Pitágoras, Xenófanes e Hecateu.
41. IDEM, IX, 1.
Pois uma só é a (coisa) sábia, possuir o conhecimento que tudo dirige
através de tudo.
42. IDEM, /X, 1.
Homero merecia ser expulso dos certames e açoitado, e Arquíloco
igualmente.
43. IDEM, ZX, 2.
A insolência é preciso extinguir, mais que o incêndio.
44. IDEM, ZX, 2.
É preciso que lute o povo pela lei, tal como pelas muralhas.
45. IDEM, ZX, 7.
Limites de alma não os encontrarias, todo caminho percorrendo; tão
profundo logos ela tem.
46. IDEM, ZX, 7.
A presunção ele dizia que é a doença sagrada e que a visão engana.
47. IDEM, ZX, 73.
Não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas.
48. Etymologicum Genuinum, s.v. bíos.
Do arco1 o nome é vida e a obra é morte.
49. GALENO, De Dignoscendis Pulsibus, VIII, 733.
Um para mim vale mil, se for o melhor.
49a. HERÁCLITO, Alegorias, 24.
Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos.
1 No grego biós, forma homônima de bíos = vida

50. HIPÓLITO, Refutação, IX, 9.
Não de mim, mas do logos tendo ouvido é sábio homologar1 tudo é um.
51. IDEM, ibidem, IX, 9.
Não compreendem como o divergente consigo mesmo concorda; harmonia
de tensões contrárias, como de arco e lira.
52. IDEM, ibidem, IX, 9.
Tempo2 é criança brincando, jogando; de criança o reinado.
53. IDEM, ibidem, IX, 9.
O combate é de todas as coisas pai, de todas rei, e uns ele revelou deuses,
outros, homens; de uns fez escravos, de outros livres.
54. IDEM, ibidem, IX, 9.
Harmonia invisível à visível superior.
55. IDEM, ibidem, IX, 9.
As (coisas) de que (há) visão, audição, aprendizagem, só estas prefiro.
56. IDEM, ibidem, IX, 9.
Estão iludidos os homens quanto ao conhecimento das coisas visíveis, mais
ou menos como Homero, que foi mais sábio que todos os helenos. Pois
enganaram-no meninos que matando piolhos lhe disseram: o que vimos e
pegamos é o que largamos, e o que não vimos nem pegamos é o que trazemos conosco. 

57. IDEM, ibidem, IX, 10.
Mestre da maioria é Hesíodo; pois este reconhecem que sabe mais coisas,
ele que não conhecia dia e noite; pois é uma só (coisa).
58. IDEM, ibidem, IX, 10.
Os médicos, quando cortam, queimam e de todo torturam os pacientes, ainda reclamam um salário que não merecem, por efetuarem o mesmo
que as doenças.
1 Observar a relação logos-homologar. O componente "homo-" significa "junto".
 2 No grego Aiôn, um nome próprio, de uma entidade alegórica, filho de Cronos e "Filira". Por outro lado, há dois
sentidos de aiôn como nome comum: o primeiro é o de "tempo sem idade, eternidade", que posteriormente se associou ao aevum latino: o segundo é o de "medula espinhal, substância vital, esperma, suor". A entidade alegórica pode consistir nos dois sentidos.
 
59. IDEM, ibidem, IX, 10.
A rota do parafuso do pisão, reta e curva, é uma e a mesma.
60. IDEM, ibidem, IX, 10.
A rota para cima e para baixo é uma e a mesma.
61. IDEM, ibidem, IX, 10.
Mar, água mais pura e mais impura, para os peixes potável e saudável, para
os homens impotável e mortal.
62. IDEM, ibidem, IX, 10.
Imortais mortais, mortais imortais, vivendo a morte daqueles, morrendo a
vida daqueles.
63. IDEM, ibidem, IX, 10.
Diante do ali-presente erguem-se e tornam-se guardiães em vigília de vivos
e mortos.
64. IDEM, ibidem, IX, 10.
De todas (as coisas) o raio fulgurante dirige o curso.
65. IDEM, ibidem, IX, 10.
E o chama (ao fogo) de fartura e indigência.
66. IDEM, ibidem, IX, 10.
Pois todas (as coisas) o fogo sobrevindo discernirá e empolgará.
67. IDEM, ibidem, IX, 10.
O deus é dia noite, inverno verão, guerra paz, saciedade fome; mas se alterna
como fogo, quando se mistura a incensos, e se denomina segundo o gosto de cada.
68. IÂMBLICO, Dos Mistérios, I, 21.
E por isso Heráclito com razão os chamou (a alguns ritos) de remédios, como se fossem
para curar os males e afastar as almas das desgraças da geração.

69. IDEM, ibidem, V, 15.
De sacrifícios há duas espécies: uns oferecidos por homens inteiramente
purificados, qual poderia ocorrer raramente em um indivíduo, como diz Herdclito,
ou em alguns poucos, fáceis de contar; e outros são materiais.

70. IDEM, Da Alma [ESTOBEU, Éclogas, ZJ, 1,16].
Jogos de crianças Heraclito considerou as opiniões humanas.

71. MARCO AURÉLIO, IV, 46.
É preciso lembrar-se também do que esquece por onde passa o caminho.
72. IDEM, IV, 46.
Do logos com que mais constantemente convivem, deste divergem; e (as
coisas) que encontram cada dia, estas lhes aparecem estranhas.
73. IDEM, IV, 46.
Não se deve agir nem falar como os que dormem.
75. IDEM, IV, 46.
Os que dormem, creio que chama Heráclito de obreiros e colaboradores das (coisas)
que no mundo vêm a ser.
76. MÁXIMO DE TIRO, Philosophoúmena, XII, 4.
Vive fogo a morte de terra, ar vive a morte de fogo, água vive a morte de ar,
terra a de água. — Plutarco, De E apud Delphos, 18. Morte de fogo gênese para ar,
morte de ar gênese para água. — Marco Aurélio, IV, 46. Lembrar-se sempre do dito de
Heraclito, que morte de terra é tornar-se água, morte de água é tornar-se ar, de ar
fogo, e vice-versa. 

77. NUMÊNIO, fragmento 35.
Donde também Heráclito dizer que para as almas é prazer ou morte tornarem- se úmidas. Prazer seria para elas a queda na geração. Em outra passagem ele diz que
vivemos nós a morte delas e vivem elas a nossa
morte.


 78. ORÍGENES, Contra Celso, VI, 12.
O modo1 humano não comporta sentenças, mas o divino comporta.
79. IDEM, ibidem.
O homem como uma criança ouve o divino, tal como a criança o homem.
80. IDEM, ibidem, VI, 42.
É preciso saber que o combate é o-que-é-com,2 e justiça (é) discórdia, e que
todas (as coisas) vêm a ser segundo discórdia e necessidade.
81. FILODEMO, Retórica, I, c. 57.
Ancestral dos charlatães (Pitágoras).
82. PLATÃO, Hípias Maior, 289 a. O mais belo símio é feio, a se confrontar com o gênero humano.
83. IDEM, ibidem, 289 b.
O mais sábio dos homens em face de deus se manifestará como um símio, em sabedoria, beleza e tudo mais.
84a. PLOTINO, Enéadas, IV, 8, 1.
Transmudando repousa (o fogo etéreo no corpo humano).
84b. IDEM, ibidem.
Fadiga é pelos mesmos (princípios) penar e ser governado.
85. PLUTARCO, Coriolano, 22.
Lutar contra o coração é difícil; pois o que ele quer compra-se a preço de
alma.
86. IDEM, ibidem, 38.
A maior parte das (coisas) divinas, segundo Heráclito, por desconfiança esquivam- se de modo a não se conhecerem.
1 No grego éthos, que passou a significar "caráter", mas originalmente é "assento, morada". Cf. fragmento 119. 
2 Cf. nota 5 
87. IDEM, Do que se deve ouvir, 7 p. 41 A. 
Um homem tolo gosta de se empolgar a cada palavra.
88. IDEM, Consolação a Apolênio, 10 p. 106 E.
O mesmo é em (nós?) vivo e morto, desperto e dormindo, novo e velho; pois
estes, tombados além, são aqueles e aqueles de novo, tombados além, são estes.
89. IDEM, Da superstição, 3 p. 166 C.
Heráclito diz que para os despertos um mundo único e comum é, mas os que
estão no leito cada um se revira para o seu próprio.
90. IDEM, De E apud Delphos, 8 p. 388 E.
Por fogo se trocam todas (as coisas) e fogo por todas, tal como por ouro
mercadorias e por mercadorias ouro.
91. IDEM, ibidem, 18 p. 392 B.
Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo, segundo Heráclito, nem
substância mortal tocar duas vezes na mesma condição; mas pela intensidade e rapidez da
mudança dispersa e de novo reúne (ou melhor, nem mesmo de novo nem depois, mas ao
mesmo tempo) compõe-se e desiste, aproxima-se e afasta-se. 

92. IDEM, Dos Oráculos da Pitonisa, 6 p. 397 A.
E a Sibila com delirante boca sem risos, sem belezas, sem perfumes
ressoando mil anos ultrapassa com a voz, pelo deus nela.
93. IDEM, ibidem, 21 p. 404 D.
O senhor, de quem é o oráculo em Delfos, nem diz nem oculta, mas dá sinais.
94. IDEM, Do Exílio, 11 p. 604 A. 
Pois Hélios não transpassará as medidas; senão as Erínias,1 servas da Justiça,
descobrirão.
1 Divindades infernais, que vingam os mortos, velando por uma justa distribuição de partes. Ver notas 1 e 2  A divindade Hélios é o Sol. — 9 7 ~™

 95. IDEM, Banquete, III, pr. 1. p. 644 F.
Pois ignorância é melhor ocultar. Mas é trabalhoso no desaperto e com vinho. 

96. IDEM, ibidem, IV. 4, 3. p. 669 A.
Pois cadáveres, mais do que estercos, são para se jogar fora.
97. IDEM, An Seni Res Publica gerenda sit, 7 p. 787 C.
Pois cães ladram contra os que eles não conhecem.
98. IDEM, Da Face da Lua, 28 p, 943 E.
As almas farejam no (invisível) Hades.
99. IDEM, Aquane an Ignis sit utilior, 7 p. 957 A.
Não fosse o sol, com os outros astros seria noite.
100. IDEM, Questões Platônicas, 8,4 p. 1 007 D.
Destes (os períodos anuais) o sol sendo preposto e vigia, define, dirige, revela e expõe à
luz as transmutações e horas, as quais traz em todas (as coisas), segundo Heráclito.
101. IDEM, Contra Colotes, 20. 1 118 C.
Procurei-me a mim mesmo.
101a. POLÍBIO, Histórias, XII, 27.
Pois os olhos são testemunhas mais exatas que os ouvidos.
102. PORFÍRIO, Questões Homéricas, Ilíada, IV, 4.
Para o deus são belas todas as coisas e boas e justas, mas homens umas
tomam (como) injustas, outras (como) justas.
103. IDEM, ibidem, XIV, 200.
Pois comum (é) princípio e fim em periferia de círculo.
104. PROCLO, Comentário ao Alcibíades I, p. 525, 21.
Pois que inteligência ou compreensão é a deles? Em cantores de rua
acreditam e por mestre têm a massa, não sabendo que "a maioria é ruim, e poucos
são bons".

105. Escólios Homéricos, AT XVIII, 251.
Dessa passagem Heráclito afirma que astrólogo foi Homero, assim como
daquela em que o poeta diz "do destino, eu afirmo, jamais homem algum escapou".
106. SÊNECA, Epístolas, XII, 7.
Com razão Heráclito censurou Hesíodo por fazer uns dias bons e outros
maus, dizendo que ignorava como a natureza de cada dia é uma e a mesma.
107. SEXTO EMPÍRICO, Contra os Matemáticos, VII, 126.
Más testemunhas para os homens são olhos e ouvidos, se almas bárbaras
eles têm.
108. ESTOBEU, Florilégio, I, 174.
De quantos ouvi as lições1 nenhum chega a esse ponto de conhecer que a
(coisa) sábia é separada de todas.
109. = 95.
110. IDEM, ibidem, 1,176.
Para homens suceder tudo que querem não (é) melhor.
111. IDEM, ibidem, I, 177.
Doença faz de saúde (algo) agradável e bom, fome de saciedade, fadiga de
repouso.
112. IDEM, ibidem, I, 178.
Pensar sensatamente (é) virtude máxima e sabedoria é dizer (coisas)
verídicas e fazer segundo (a) natureza, escutando.
113. IDEM, ibidem, I, 179.
Comum é a todos o pensar.
114. IDEM, ibidem, I, 179.
(Os) que falam com inteligência2 é necessário que se fortaleçam com o comum de todos, tal como a lei a cidade, e muito mais fortemente: pois alimentam-se todas as leis humanas de uma só, a divina: pois, domina tão longe quanto quer, e é suficiente para todas (as coisas) e ainda sobra.
1 No grego lógous. Ver nota 1 
 2 No grego nóôi. A expressão xyn nóôi (= com inteligência) se aproxima foneticamente do adjetivo xunoí - o-que-e-com, comum". Cf. nota 5 
 
115. IDEM, ibidem, 180 a.
De alma é (um) logos que a si próprio se aumenta.
116. IDEM, ibidem, V, 6.
A todos os homens é compartilhado o conhecer-se a si mesmos e pensar
sensatamente.
117. IDEM, ibidem, V, 7.
Um homem quando se embriaga é levado por criança impúbere,
cambaleante, não sabendo por onde vai, porque úmida tem a alma.
118. IDEM, ibidem, V, 8.
Brilho seco (é a) alma mais sábia e melhor. Ou antes, segundo a leitura de
Stephanus: Alma seca (é) a mais sábia e melhor.
119. IDEM, ibidem, IV, 40, 23.
Herdclito dizia que o ético no homem (é) o demônio (e o demônio é o ético).1 120. ESTRABÃO, I, 6, p. 3.
Limites de aurora e crepúsculo (são) a Ursa e em face da Ursa a baliza do
fulgurante Zeus.
121. IDEM, XIV, 25, p. 642; DIÓGENES LAÉRCIO, IX, 2.
Merecia que os efésios adultos se enforcassem e aos não-adultos
abandonassem a cidade, eles que a Hermodoro, o melhor homem deles e o de mais
valor, expulsaram dizendo: que entre nós ninguém seja
0 mais valoroso, senão que se vá alhures e com outros.
122. Suda, s.v. "ankhibátein" e
namphisbãtein".
Aproximação, segundo Heráclito.
1 A reversão de sentido, sugerida pelo que indiquei entre parênteses, é permitida, se não exigida, pela estruturação da frase grega, que não determina pela posição o sujeito e o predicativo. O que está em primeiro lugar pode ser predicativo e o que está em segundo pode ser sujeito.

123. TEMÍSTIO, Oratio V, p. 69.
Natureza ama esconder-se. 124. TEOFRASTO, Metafísica, 15 p. 7 a 10.
(Como?) coisas varridas e ao acaso confundidas (é?) o mais belo mundo.
125. IDEM, De Vertigine, 9.
Também o "cyceon"1 se decompõe, se não for agitado.
125a. TZETZES, Comentário ao "Plutão" de Aristófanes, 88.
Que não vos abandone a riqueza, efésios, a fim de que seja provada a vossa
ruindade.
126. IDEM, Escãios para Exegese da llíada.
As (coisas) frias esquentam, quente esfria, úmido seca, seco umedece.
1 Uma espécie de mingau de aveia.


Análise Cristã:
A natureza temporal, mutável de todas as coisas materiais foi comprovada pela Ciência (lei de Lavousier e Leis da Termodinâmica), essa mutabilidade e contingencia da matéria-energia (tempo-empaço-matéria) tem como causa eficiente , uma causa supra-temporal, imaterial, eterna. Heráclito lança as bases para os futuros argumentos a posteriori da existência de Deus. De fato o mundo é mutável e não foi criado pelos deuses, tudo flui, mas isto requer algo imutável como causa.


Parmênides de Eléia (55 a.C- 470 a.C.) 




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Contemporâneo mais jovem de Heráclito viveu em Eléia, cidade do sul da Magna Grécia (atual Itália) e é o principal expoente da chamada escola eleática e seu fundador.
Criticou a filosofia heraclitiana do "tudo flui" pela imobilidade do ser. Para Parmênides é absurdo e  impensável considerar que uma coisa pode ser e não ser ao mesmo tempo. A contradição opõe o principio segundo o qual "o ser é" e o "não ser não é", chamado posteriormente de princípio da identidade., um dos princípios da lógica.
O ser, assim entendido em sentido integral e univoco, não pode nascer (porque, de outra forma, derivaria de um não-ser, o que que é impossível), não pode perecer (porque, de outra forma, acabaria em um não-ser, que não existe), não tem um passado e um futuro, mas é sempre, é imóvel, é todo igual, é corno uma esfera perfeita, portanto, um todo-uno.

“Não podes saber o que não é — isso é impossível — nem o manifestar; porque é a mesma coisa que pode ser pensada e existir”.
“Como pode, então, o que é vir a ser no futuro? Ou como poderia vir a ser? Se vem a ser, então não é; tão pouco o é, se vai ser no futuro. Assim, o tornar-se desaparece, e o passar não se percebe.
“A coisa que pode ser pensada, e aquilo pelo qual existe o pensamento, é o mesmo; porque não podes encontrar uma idéia sem algo que é, e a respeito do qual ela se manifesta”

 Poema sobre o natureza, fr. 8. :

1.O ser gerado e imperecível Resta apenas um discurso sobre a via: que "existe". Sobre esta via ha sinais indicadores bastante numerosos: que o ser é não-gerado e imperecível, com efeito, é um inteiro no seu conjunto, imóvel e sem fim. Nem era uma vez, nem será, porque é agora junto todo inteiro, uno, continuo. Qual origem, com efeito, dele procuraras? Como e a partir da onde teria crescido? Do não-ser não te permito nem dize-lo nem pensa-lo, porque não é possível nerm dizer nem pensar que não existe. Que necessidade o teria forçado a nascer, depois ou antes, se derivasse do nada? Por isso e necessário que exista por inteiro, ou que não exista por nada. E nem a partir do ser concederes a força de uma certeza que nasça alguma coisa que esteja ao lado dele. Por esta razão nem o nascer nem o perecer a Justiça concedeu a ele, libertando-o das cadeias. mas firmemente o retém. A decisão sobre tais coisas esta nisto: "existe" ou "não existe". Portanto, decidiu-se, corno é necessário, que uma via se deve deixar, enquanto é impensável e inexprimivel, porque não da verdade é a via, ao passo que a outra é, e é verdadeira. E corno o ser poderia existir no futuro? E corno poderia ter nascido? Com efeito, se nasceu, não existe; e ele nem existe, caso devesse existir no futuro. Portanto, o nascimento se apaga a a morte permanece ignorada. 
2. O ser é indivisivel e todo igual E nem é divisivel, porque é todo inteiro igual; nem existe de alguma parte algo a mais que possa impedi-lo de ser unido, nem existe algo de menos, mas é todo inteiro pleno de ser. Por isso é todo inteiro continuo: o ser, com efeito, se liga ao ser. 
 3. Mas imóvel nos limites de grandes ligaçõesMas imóvel, é sem um principio e sem um fim, pois nascimento e morte Foram expulsos para longe e uma verdadeira certeza os rejeita.  E permanecendo idêntico e no idêntico, em si mesmo jaz, e deste modo ai permanece. Firme Com efeito, necessidade inflexível o mantém nas Iigações do limite, que o encerra por todo lado, pois foi estabelecido que o ser não fique sem realização. com efeito, ele de nada carece, caso contrário, de tudo careceria .
4. Coincidência do ser e pensamentoO mesmo é o pensar se aquilo é por causa do qual existe o pensamento. porque sem o ser no qual é expresso, nada encontrarás a pensar . Com efeito, nada mas exista ou existirá fora do ser, pois a Sorte o vinculou a ser um inteiro e imóvel. Por isso serão nomes todas as coisas que os mortais estabeleceram, convictos de que fossem verdadeiras nascer e perecer, ser e não-ser, trocar de lugar e mudar luminosa cor .
5. O ser e a figura da esfera .Além disso, por haver um limite extremo, ele é realizado por toda parte, semelhante a massa de bem redonda esfera, apartlr do centro igual em toda parte com Esfero, nem de algum modo maior nem de algum modo menor é necessário que seja, de uma parte ou da outra. Nem, com efeito, existe um não-ser que possa impedí-lo de chegar ao liual, nem é possivel que o ser seja do ser mas de uma parte e menos do outra, porque é um todo inviolável. Com efeito, igual em toda parte, de modo igual está em seus confins

Parmênides conclui, a partir do princípio estabelecido, que o ser é único, imutável, sem princípio e sem fim (eterno), incriado, indestrutível e imóvel. 
Ele dizia que esse o ser´é esférico, limitado e homogêneo. Limitado por ter um limite extremo, como uma esfera, em equilíbrio a partir de seu centro em todas as direções e portanto homogêneo.

Para Parmênides, tudo o que existe de modo absoluto, não pode mudar ("tudo o que é, é"). Não pode ser e não ser ao mesmo tempo e da mesma maneira. Se está se tornando, não pode estar sendo. Se não está sendo, não é nada. Tem de ser absolutamente, ou não ser.

Isso levanta a pergunta filosófica fundamental: por que existe algo em vez do nada? Se existe mesmo alguma coisa, então tem de haver o ser, porque sem ser nada pode ser. Deduziu também o princípio ex nihilo, nihil fit ("nada vem do nada"). Parmênides considerou corretamente absurda a ideia de que alguma coisa pode vir do nada ou de que o nada pode dar origem a algo. Realmente, se houve um tempo em que não havia nada, então não haveria nada agora.

Como è impossível perceber a existência do movimento no mundo, Parmênides, propôs que  o movimento existe apenas no mundo sensível, e a percepção levada a efeito pelos sentidos é ilusória. Só o mundo inteligível é verdadeiro, pois está submetido ao principio que hoje chamamos de identidade e de não -contradição. Uma das conseqüências dessa teoria é a identidade entre o ser e o pensar. Ou seja, as coisas que existem fora de mim são idênticas ao meu pensamento, e o que eu não conseguir pensar não pode ser na realidade.
A mudança, para Parmênides, é ilusão. O próprio conceito de mudança é inimaginável; ou seja, não conseguimos pensá-lo.
Não podemos pensar na mudança porque não há nada para pensar. Se alguma coisa está mudando, na verdade ela não é. Pensar na mudança nos obrigaria a pensar em algo em termos do que não é, o que é impossível.
Para Parmênides, além de algo não poder vir do nada, algo também não pode vir do ser. Algo que surge do ser já é. Aqui vemos como qualquer conceito de autocriação é tolice, pois requer que algo seja antes de ter sido, e isso desafia toda lógica.
A lei da não-contradição declara que algo não pode ser o que não é e não ser o que é ao mesmo tempo e no mesmo sentido.
Contudo, é importante observar que Parmênides aparentemente não estava atacando apenas a noção absurda da autocriação, mas também qualquer ideia de criação, o que, por implicação, inclui a noção cristã de criação. 

Parmênides argumentou que: 
1) Ou tudo é “um” ou é “muitos”.
2) Se há “muitos” seres, eles devem ser diferentes.
3) Se são diferentes, devem ser diferentes por existir ou por não existir.
4) Não podem ser diferentes por não existir, já que não existir é nada (e isso significaria que não são diferentes).
5) E também não podem ser diferentes por existirem, já que existir é o que todos têm em comum.
Não podem ser diferentes no sentido em que são iguais.
6) Logo, só pode haver um ser (monismo). Tudo em um, e um em tudo. Nada mais realmente existe.


Existem quatro respostas básicas a Parmênides. 
1) O atomismo afirmou que essas coisas (átomos) diferem pela inexistência (vazio) absoluta. 
2) O platonismo argumentou que as coisas (formas) diferem pela inexistência relativa (qualidade de outro), determinação pela negação. 
3) Aquino afirmou mais tarde que a existência é um complexo de ação e potência, as coisas diferem pelo tipo de ser que são. 
4) Aristóteles acreditava que apenas coisas materiais eram compostas de forma (ato) e matéria (potência). Formas puras, como os deuses, são simples. 

Resposta de Aquino à Parmênides:
Aquino acreditava que todos os seres finitos são compostos. Apenas Deus é um Ser absolutamente simples, e só pode haver um Ser (Deus) assim. No entanto, pode haver outros tipos de existência, ou seja, seres compostos. Os seres são diferentes na própria existência porque pode haver tipos diferentes de seres.Ele demonstrou que as coisas podem diferir quanto à existência, já que são tipos diferentes de existência. O Ser infinito difere do ser finito, e o Ser Necessário difere do ser contingente. Um ser de Realidade pura difere de outro que tem realidade e potencialidade.
 Deus, por exemplo, é um tipo infinito de ser. Todas as criaturas são tipos finitos de seres. Deus é Realidade Pura; todas as criaturas são compostas de realidade e potencialidade. Logo, seres finitos diferem de Deus porque têm potencialidade limitadora; ele não tem. 
Coisas finitas podem ser diferentes umas das outras pelo fato de sua potencialidade ser completamente realizada (como nos anjos) ou progressivamente realizada (como nos seres humanos). Mas em todas as criaturas sua essência é realmente diferente da existência. O único ser que a essência e a existência são idênticas é Deus. Aquino não foi o primeiro a fazer essa distinção, mas foi o primeiro a fazer uso tão extenso dela.
"Tal ser necessariamente será único e singular, já que a multiplicação de algo só é possível quando há uma diferença. Mas em Deus não há diferença. Conclui-se necessariamente que em todas as outras coisas, exceto nessa existência única, a existência deve ser uma coisa, e a essência, outra. Isso respondeu ao dilema proposto pelo monismo. As coisas diferem quanto à existência porque são tipos diferentes de seres.
Parmênides estava errado porque supôs que “ser” sempre é compreendido univocamente (da mesma maneira). Aquino considerava esse ser análogo. Isso significa que cada ser pode ser compreendido de maneiras semelhantes, mas diferentes. Todos os seres que existem são iguais pelo fato de serem todos reais. Seres finitos diferem do único Ser infinito porque têm potencialidades diferentes para se tornar outras coisas ou para deixar de existir. E têm atualizações diferentes desses potenciais individuais." (Enciclopedia de Apologética. Norman Geisler. São Paulo: Vida.)

Resposta Cristã:
A afirmação de que quando pensamos, pensamos em algo; quando empregamos um nome, tem de ser o nome de algo, pois pensar é pensar em algo, não se pode pensar no nada.Portanto, o pensamento e a linguagem requerem objetos externos é falso. Podemos pensar em coisas que não existem como cavalos alados ou centauros, são apenas frutos da imaginação.Os pensamentos se referem a algo real ou imaginário. Quanto à questão do ser, ele pode ser uno ou composto, pois tem tipos diferentes de existência, Deus é necessário e uno, as outras coisas reais são compostas ou contingentes, como bem explicou Tomas de Aquino.




Zenão de Eléía   fim do séc. VI e o principio e V a.C.

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ZENÃO FLORESCEU cerca de 464/461 a.C. Nasceu em Eléia (Itália). Ao contrário de Heráclito, interveio na política, dando leis à sua pátria. Tendo conspirado contra a tirania e o tirano (Nearco?), acabou preso, torturado e, por não revelar o nome dos comparsas, perdeu a vida. — Escreveu várias obras em prosa: Discussões, Contra os Físicos, Sobre a Natureza, Explicação Crítica de Empédocles. — Considerado criador da dialética (entendida como argumentação combativa ou erística), Zenão erigiu-se em defensor de seu mestre, Parmênides, contra as críticas dos adversários, principalmente os pitagóricos. Defendeu o ser uno, contínuo e indivisível de Parmênides contra o ser múltiplo, descontínuo e divisível dos pitagóricos.

Os críticos com "bom senso" argumentavam que os cinco sentidos confirmam a realidade exterior das coisas físicas, que são muitas e passam por mudanças. A percepção sensorial prova a realidade das coisas físicas.
Zenão se propôs a provar que os sentidos percebem apenas aparências e não a realidade.

Criou o método da refutação dialética da tese oposta a  que se quer sustentar, aquilo que depois se chamara de "demonstração pelo absurdo"

Para mostrar que os sentidos podem facilmente nos iludir, Zenão apresentou quatro argumentos ou paradoxos contra o movimento:

No seu primeiro paradoxo Zenão usou a ilustração da pista de corrida: para dar a volta na pista, um corredor tem de passar por um número infinito de pontos em um número finito de momentos. O corredor teria primeiro de atingir a metade da corrida, depois ir dali até a metade da distância até o fim, em seguida mais uma metade, e mais outra, até o infinito, sem jamais alcançar a linha de chegada. ou em outras palavras: "Um corredor que cobre determina- da distância atravessa um número sucessivo de metades de distância. Para se deslocar de a a b, é preciso passar pelo ponto médio (ml). Mas para passar de a a ml, é preciso passar pelo ponto médio dessa distância (m2). E para passar pelo ponto médio m2, é preciso passar pelo ponto médio (m3). Logo, para nos deslocarmos em qualquer direção, parece que devemos atravessar um número infinito de pontos médios, o que parece impossível.

O segundo paradoxo é relativo à corrida entre Aquiles e uma tartaruga: para dar à tartaruga lenta uma chance, Aquiles lhe dá certa vantagem. Para vencê-la, Aquiles primeiro tem de alcançá-la. Enquanto Aquiles corre até o lugar em que a tartaruga começou a corrida (a sua vantagem), ela já avança. Esse processo continua para sempre, de modo que Aquiles está sempre perseguindo a tartaruga sem jamais alcançá-la.

O terceiro paradoxo é sobre o arqueiro e a flecha: uma seta que voa tem de ocupar sempre um espaço igual ao seu comprimento. Contudo, para poder ocupar um espaço igual ao seu comprimento a flecha naquele momento precisa estar em repouso. Em cada um dos instantes em que o tempo de vôo é visível, a flecha ocupa um espaço idêntico. Mas aquilo que ocupa um espaço idêntico está em repouso; então, se a flecha esta em repouso em cada um dos instantes, deve estar também na totalidade  de todos os instantes. Portanto, o "movimento" da flecha é uma ilusão.

 O quarto paradoxo, "trata de massas iguais que se movem em sentido contrário no estádio ao longo de outras massas iguais, umas a partir do fim do estádio, outras do meio, com velocidades iguais; a conseqüência pretendida é a de que metade do tempo seja igual a seu dobro. O paralogismo consiste em se pensar que uma grandeza igual, com velocidade igual, se movimente num tempo igual, tanto ao longo do que está em movimento como ao longo do que está em repouso. Mas isso é falso. Sejam AA as de massas iguais que estão imóveis; BB, as que partem do meio dos AA e são iguais a essas em número e tamanho; CC, as que partem da extremidade, iguais àquelas em número e tamanho e de mesma velocidade que as dos BB. Conseqüências: o primeiro B está na extremidade ao mesmo tempo que o primeiro C, visto que se movem paralelamente. Doutro lado, os CC percorreram todo o intervalo ao longo de todos os BB, e os BB, metade do intervalo ao longo dos AA; por conseguinte, só metade do tempo; com efeito, para os grupos tomados dois a dois, há igualdade do tempo de passagem diante de cada A. Mas ao mesmo tempo os BB passaram diante de todos os CC; pois o primeiro B e o primeiro C estão, ao mesmo tempo, em extremidades opostas, sendo o tempo para cada um dos BB — diz ele — o mesmo que para os CC, porque os dois passam em tempo igual ao longo dos AA. — Simplício, 1019, 32: Este é o argumento, e o mais conveniente, como diz Eudemo (fragmento 68), pelo fato de o paralogismo ser evidente, pois as (massas) que se movem em sentido contrário umas às outras afastam-se com dupla distância no mesmo tempo em que o que se move ao longo do que está imóvel se afasta pela metade, e será de igual velocidade à daquelas." ARISTÓTELES, Física, VI, 9. 239 b 33 (DK 29 A 28)

Seus argumentos contra a multiplicidade:
Esses argumentos procuravam demonstrar que, para haver multiplicidade, deveria haver muitas unidades. Mas o raciocínio (contra a experiência e os dados fenomênicos) demonstra que tais unidades são impensáveis, porque comportam insuperáveis contradições, sendo portanto absurdas e, por isso, não podem existir.  Outro argumento interessante negava a multiplicidade baseando-se sobre o comportamento contraditório que muitas coisas juntas tem em relação a cada uma delas (ou parte de cada uma). Por exemplo: caindo, muitos grãos fazem barulho, ao passo que um grão só (ou parte dele) não faz. Contudo, se o testemunho da experiência fosse verdadeiro, tais contradições não poderiam subsistir e um grão deveria fazer barulho (na devida proporção), como o fazem muitos grãos.
"Se múltiplas são (as coisas), necessariamente são tantas quantas são, nem mais, nem menos. Mas, se são tantas quantas são, devem ser limitadas (em número).Se são múltiplas, ilimitadas (em número) são as coisas; pois entre elas sempre há outras, e entre estas novamente outras. Assim, ilimitadas (em número) são as coisas". (SIMPLÍCIO,Física, 240,27)
Se o ser não tivesse grandeza, também não poderia existir, mas, se existe, necessariamente cada (parte) tem certa grandeza e espessura, e distância uma da outra. E a respeito da (parte) que está diante dela o mesmo se diz. Pois esta também terá grandeza e uma outra estará diante dela. E o mesmo, então, dizer isso uma vez apenas e dizê-lo sempre. Pois nenhuma parte dele (do ser) será limite extremo, nem estará uma parte sem relação com outra. Assim, se múltiplas são (as coisas), necessariamente são pequenas e grandes; pequenas atal ponto que não têm grandeza, grandes a tal ponto que são infinitas. (Idem 240, 34)

(Diz Zenão que) uma coisa que não tem grandeza e espessura, nem massa, não poderia existir. Pois, se fosse acrescentada a uma outra coisa, em nada aumentaria; pois, se uma grandeza que nada é (a uma outra) se acrescenta, nada pode ganhar em grandeza (esta última). E assim já o acrescentado nada seria. Mas se, subtraída (uma grandeza), a outra em nada diminuir, e, ao contrário, acrescentada (uma), (a outra) não aumentar, é evidente que o acrescentado nada era, nem o subtraído. (Idem, 239, 5).
Refutação do paradoxo:
O paradoxo pressupunha que a soma de uma infinidade de pequenas distâncias deveria ser infinita (ou que o tempo de percurso seria infinito) e aí está o erro. Quando descobriram séries infinitas cujas somas convergem para valores finitos, o paradoxo perdeu a força, pois não é necessário um tempo infinito para realizar a soma de infinitas parcelas. Eudes Antonio da Costa 

UFT/Arraias. eudes@uft.edu.br

 "O problema por trás da Dicotomia, que é o mesmo que o do Aquiles, parece repousar na intuição de que o corredor demora um tempo finito mínimo para percorrer cada intervalo espacial sucessivo. Como há infinitos desses intervalos, o tempo de transcurso seria infinito. Porém, sabemos que essa intuição é errônea: o tempo de percurso por cada intervalo é proporcional ao comprimento do intervalo (supondo velocidade constante). Esse ponto foi apontado por Aristóteles (Física VI, 233a25),... Da mesma maneira que os intervalos espaciais somam 1 na série convergente 1/2+ 1/4 + 1/8 + 1/16... , os intervalos temporais também o fazem. O corredor acaba completando o percurso! PESSOA, Osvaldo. Questão: O espaço e o tempo são contínuos ou discretos? Filosofia da Física (USP - 2017) Cap. II: Paradoxos de Zenão .


 Eis então como Aristóteles util iza o argumento de Zenão para defender sua visão holista da matéria, de que o todo precede as partes. O espaço e o tempo não seriam compostos de um agregado de partes. É verdade que se pode dividir um objeto em partes. Quando um tijolo é dividido, temos uma divisão atual, em ato. Talvez se possa até dividir um tijolo o quanto queiramos ou possamos, mas antes de realizar essas divisões atuais, elas só existem em potência, como potencialidade. O fato de que podemos dividir um tijolo não significa que ele seja feito de partes, pois essa possibilidade de dividi-lo é apenas uma potencialidade, não uma atualização. O todo precede as partes. Com esta conclusão, Aristóteles pôde resolver os paradoxos à sua maneira. Os paradoxos da Dicotomia e de Aquiles não procedem porque, para Aristóteles, o contínuo da pista de corrida é homogêneo. Pode-se dividi-lo sem limites, mas tal divisão não é natural, e ela pode ser feita de diferentes maneiras. A divisão é imposta por nós, ela não existe de fato: o enunciado do problema concretiza de maneira indevida a potencialidade de divisão. Em primeiro lugar, o corredor percorre o todo. É por percorrer o todo que ele percorre as partes, e não o contrário, como os enunciado dos paradoxos parecem indicar. Aristóteles defende que se possa potencialmente dividir o contínuo de maneira ilimitada. Com isso, rejeitam-se os paradoxos do Estádio e da Flecha, que pressupõem um limite para a divisão. Além disso, um ponto, para Aristóteles, não é formado por divisão, de maneira que um ponto não seria parte de uma reta. Para ele, um ponto pode ser concebido como uma fronteira entre duas regiões distintas adjacentes. PESSOA, Osvaldo. Questão: O espaço e o tempo são contínuos ou discretos? Filosofia da Física (USP - 2017) Cap. II: Paradoxos de Zenão .p. 35


Melisso de Samos (sécs. VI-V a.C.)
Desenvolveu e completou o pensamento de Parmênides. Escreveu um livro Sobre a Natureza ou sobre o ser.

Afirmou que o ser deve ser "infinito" (e não finito, como dizia Parminides), porque não tem limites temporais nem espaciais, e também porque, se fosse finito, deveria se limitar com um vazio e, portanto, com um não-ser, o que é impossivel. Enquanto infinito, o ser também é necessariamente uno: "com efeito, se fossem dois, não poderiam ser  ser infinitos, pois um deveria ter seu limite no outro".

Qualificou esse uno infinito como "incoropóreo, não no sentido de que é imaterial, mas no sentido de que é privado de qualquer figura que determine os corpos, ao contrário de seu mestre que dizia que a forma era esférica.
Melisso eliminou  a opinião, como sendo um raciocinio de notavel acuidade especulativa: o hipotético multiplo poderia existir apenas se pudesse ser como o Ser-Uno: "Se os muitos existissem - diz ele expressamente - cada um deles deveria ser como é o Uno."

 Dessa forma, o Eleatismo acaba na afirmação de um Ser eterno, infinito, uno, igual, imutavel, imovel, incorporeo (no sentido preciso) e com a explicita e categórica negação do multiplo - negando, portanto, o direito dos fenômenos a pretensão de um reconhecimento veraz. E claro que apenas um ser privilegiado (Deus) poderia ser como o Eleatismo exige, mas não todo ser.

O grande problema que os Eleatas deixavam para os sucessores era o seguinte: era necessario reconhecer á razião as suas razoes, mas, ao mesmo tempo, deviam ser reconhecidas também as razões da experiência, que testemunha (sob certos aspectos) o contrario.

Análise Cristã:
Ver Análise de Parmênides

Empédocles  de Agrigento (*484/481- + 424-421)



Era natural da colônia de Agrigento, na Sicília, Mágna Grécia. Era figura uma legendária: ele mesmo se atribuía poderes mágicos. Dizem teria suicidado atirando-se na cratera do Etna, para provar que era um deus.  Empédocles era um misto de cientista, de místico, de pitagórico e de órfico. Escreveu dois poemas em jônico: Sobre a Natureza e As Purificações. Sobre si mesmo ele disse:


“Amigos que habitais a grande cidade que contempla o rochedo amarelo de Acragas, próximo da cidadela, empenhada em boas obras, porto de honra para o forasteiro: homens incapazes de mesquinharias, saúdo-vos a todos. Ando entre vós como deus imortal, não mortal agora, honrado entre todos, coroado de fitas e grinaldas de flores. Logo que entro com elas, em minha comitiva, nas cidades florescentes, tanto os homens como as mulheres me rendem culto; seguem-me multidões incontáveis, perguntando-me qual caminho devem tomar; alguns desejam oráculos, enquanto que outros, atormentados há muito, por toda a espécie de enfermidades, desejam ouvir de mim a palavra que cura …, mas por que me detenho eu a falar nestas coisas, como se tivesse grande importância o fato de eu ultrapassar os homens mortais e perecíveis?”
Sua contribuição mais importante à ciência foi a descoberta do ar como substância à parte. Isto foi por ele provado pela observação de que quando um balde ou outro objeto semelhante é colocado na água, com o fundo para cima, a água não entra no balde. Diz ele:
“Quando uma menina, brincando com uma clepsidra de metal brilhante, coloca o orifício do tubo em sua bela mão, submergindo a clepsidra na massa cedente de água prateada, a corrente não penetra em seu interior, mas o volume de ar que se acha dentro, fazendo pressão sobre as perfurações abundantes, a mantém afastada, até que a menina destape a corrente
comprimida; mas então o ar escapa e entra um volume igual de água”.
Esta passagem aparece numa explicação sobre a respiração.
Também descobriu pelo menos um exemplo de força centrífuga; se girar, na extremidade de uma corda, uma xícara com
água, a água não sai. Sabia que as plantas têm sexo, e tinha uma teoria (um tanto ou quanto fantástica, deve-se admitir) a respeito da evolução e sobrevivência dos mais aptos. Originalmente, “inumeráveis tribos de mortais esparramaram-se pelo mundo, dotadas das mais
diversas formas: uma verdadeira maravilha”. Havia cabeças sem pescoços, braços sem ombros, olhos sem testas, membros soltos procurando uma articulação. Essas coisas se uniram arbitrariamente, por puro acaso; havia criaturas desajeitadas, com
inúmeras mãos; criaturas com caras e peitos voltados em direções opostas; criaturas com caras de boi e corpos humanos. Havia hermafroditas que eram, ao mesmo tempo, homens e mulheres, mas estéreis. No fim, certas formas sobreviveram.
Quanto à astronomia: sabia que a lua brilha por refletir a luz, e pensava o mesmo do sol; disse que a luz leva certo tempo para percorrer distâncias, mas tão pouco tempo que não podemos observar; sabia que os eclipses solares são produzidos pela interposição da lua, fato este que parece ter aprendido de Anaxágoras.
Foi o fundador da escola italiana de medicina, e a escola médica que dele se originou exerceu influência tanto sobre Platão como sobre Aristóteles. Segundo Buraet (p. 234), influiu sobre todas as tendências do pensamento científico e filosófico. Tudo isto revela o vigor científico de seu tempo, que não foi igualado nas épocas posteriores da Grécia. 
(História da Filosofia Ocidental- Bertrand Russell)


Sua doutrina pode ser vista como uma primeira síntese filosófica. Substitui a busca dos jônicos de um único princípio das coisas pelos quatro elementos: fogo, terra, água e ar; combina ao mesmo tempo o ser imóvel de Parmênides e o ser em perpétua transformação de Heráclito, salvando ainda a unidade e a pluralidade dos seres particulares

 Ele argumentou que a realidade do movimento (e da mudança, que é uma forma de movimento) é óbvia demais para ser negada. Ele localizou o problema no monismo de Parmênides e lhe contrapôs uma filosofia do pluralismo.

Seu pluralismo era corpóreo, em que a realidade era composta de partículas imutáveis e eternas (ar, fogo, terra e  água). Essas partículas têm "ser" e não mudam. Os objetos compostos dessas partículas, porém, mudam, ao passar por mudanças em sua composição, agregação ou desagregação, operadas pelo Amor (philia) e pelo Ódio (neikos). .A esses quatro elementos básicos denominou raízes: terra, ar, fogo e água.(Isso levou pensadores posteriores a procurar por um quinto elemento, uma "quinta essência" que unisse as quatro, o que deu origem à palavra quintessência.)
"Não há nascimento para nenhuma das coisas mortais; não há fim pela morte funesta; há somente mistura e dissociação dos componentes da mistura. Nascimento é apenas um nome dado a esse fato pelos homens".
Para Empédocles, movimento e mudança eram explicados por forças iguais opostas na natureza, que se atraem e repelem. e as denominou de Amor (philia) e Ódio (neikos), ou harmonia e discórdia. O princípio que governa a harmonia é o amor, que "faz o mundo andar". Quando prevalece o Amor, temos perfeita unidade agregação (o Esfero); quando prevalece o ódio em sentido extremo, temos ao invés o máximo de desagregação (O Caos). Nas fases de relativo predomínio do ódio, gera-se o cosmos.
Da alternância da supremacia ora do Amor, ora do Ódio, surgem as quatro fases que Empédocles descreve em 'Sobre a Natureza' :

  • a primeira, pleno domínio do Amor, determina a existência de uma esfera contínua, mas  mesclada (ao contrário da esfera homogênea de Parmênides) e formado pela completa fusão das raízes; 
  • na segunda, devido à atuação crescente do Ódio, as raízes, já em parte distanciadas, constituem um todo onde se defrontam forças antagônicas e equivalentes; 
  • a terceira fase é a do domínio pleno do Ódio, que estabelece quatro províncias perfeitamente distintas — a da água, a do ar, a da terra e a do fogo;
  •  na quarta fase o Amor vai reconquistando a supremacia que perdera e o conjunto volta a ser uma unidade em tensão (como a concebida por Heráclito). 
"Para ele são divinas as quatro raízes, ou seja, a água, o ar, a terra e o fogo; divinas são as forças da Amizade e da Discórdia; Deus é o esfero; as almas são demônios, almas que ,como o resto, são constituídas  pelos elementos e forças cósmicas... 'alma' e o 'corpo' ...derivam das mesmas raízes" (História da Filosofia - vol 1. São Paulo: Paulus, 2014, p. 61-62)

 Ou seja, "Nascer" e "perecer", como desejava Parmênides, não consistem em "vir do" ou em "ir no" nao-ser, e sim no "agregar-e e "compor-se" e no "desagregar-se" e "decompor-se" dos  quatro elementos originários ("raízes de todas as coisas"), que são ar, água, terra, fogo. Cada um desses elementos é incorruptível, homogêneo, eterno, inalterável, ou seja, tem as características fundamentais do ser eleático. Com a reciproca agregação e desagregação, esses elementos dão lugar a um mundo múltiplo e em devir.

Empédocles sofreu também a influencia órfica e acredita que a alma humana fosse um demônio caído no corpo por  urna culpa originaria, destinado a reencarnar-se mais vezes, até a sua purificação definitiva. Ele mesmo acreditava ser a reencarnação de mulher, arbusto, ave e peixe.

Para ele havia uma determinada adequação entre sensação  e o tamanho dos poros: por isso os órgãos dos diferentes sentidos variam. As coisas são conhecidas por seus semelhantes: o fogo, caso haja em mim o fogo, e da mesma maneira a água e as demais coisas. Ou seja, das coisas e de seus poros saem eflúvios que atingem nossos órgãos dos sentidos, e as partes semelhantes destes órgãos reconhece as partes semelhantes dos eflúvios das coisas. Uma excessão a isso era os olhos, pois neste caso o efluvio partia dos olhos.
 "Com a terra, percebemos a terra; coma a água a água; com o éter o éter divino; como o fofo, o fogo destruidor; com o Amor o Amor; com a Contenda a Contenda dolorosa"

Análise Cristã
A originalidade de Empédocles consiste na doutrina dos quatro elementos, e no emprego dos princípios do Amor e da Luta para explicar a mudança. No mais se tratava de um religioso fanático , com práticas sincréticas. Acreditava ter passado por várias reencarnações homem, arbusto, ave, peixe,etc.Ele disse de si mesmo:
“Existe um oráculo da Necessidade, uma antiga ordem dos deuses, eterna e selada por profundos juramentos, que diz que sempre que um dos demônios, cuja parte está na extensão dos dias, polui, pecadoramente, as suas mãos com sangue, ou empreende uma luta e comete perjúrio, deve caminhar três vezes dez mil anos, partindo da morada dos abençoados e carregando, através do tempo, toda a espécie de formas mortais, trocando um caminho penoso da vida por outro. Pois o poderoso Ar a empurra para o Mar, e o Mar o faz girar de volta para a Terra firme; a Terra lança-o aos raios do Sol ardente, e este o atira de novo aos redemoinhos do Ar. Um o arranca de outro, e todos o rejeitam. Um deles sou eu agora, um desterrado e errante dos deuses, pois ponho a minha confiança numa luta insensata”.

Anaxágoras de Clazimenas [Clazômenas] Ásia Menor (por volta de 500-428 a.C.)- Turquia


Anaxágoras modificou o pluralismo corpóreo. Foi o primeiro filósofo de Atenas. Ele também defendia a ideia de que a mudança não implica passagem do não-ser ao ser e do ser ao não-ser, mas deriva  não do agregar-se e do desagregar-se de  4 elementos, mas de uma infinidade  de realidades originárias eternas.   A essas realidades que se agregam e se desagregam ele deu o nome de sementes (spermata), que depois foram chamadas de homeomerias que constituem o "originario qualitativo" (as sementes de todas as qualidades). As sementes além de ser infinitas em qualidade e em quantidade, cada uma delas pode ser dividida infinitas vezes, sem que, se perca suas propriedades. Em razão disso, ele deu o nome de homeomerias [partes semelhantes, partes qualitativamente iguais]. Isto foi chamado de panspermia (existir em tudo a semente de tudo).

Cada uma dessas sementes eram incriadas, eternas, imutáveis. Todas elas estavam juntas e misturadas, de modo que nenhuma se distinguia. Mas a Inteligência [nous] agiu sobre essa massa e a partir disso surgiu todas as coisas.

 Com o agregar-se dessas sementes, nascem todas as coisas que existem, E em cada urna das coisas que assim se produzem estão presentes, em diversas proporções, todas as homeomerias; as que prevalecem determinam as diferenças específicas. De tal modo, em todas as coisas estão presentes traços de todas as qualidades ("tudo esta em tudo"), e deste modo se explica a razão pela qual as coisas podem se transformar uma na outra. Em outras palavras, em razão da prevalência de uma determinada semente uma coisa diferencia da outra. Ou seja, no ouro que há homeomero de todas as coisas (prata, pedra, água, carne, etc.), mas o que prevalece é o homeômero de ouro.

 Na busca de um princípio racional que organizasse e harmonizasse as sementes (homeomerias)do mundo material, ele desenvolveu seu conceito de nous [mente, inteligência]  a realidade compõe-se não apenas de matéria* mas também de mente. Contudo, Anaxágoras não preencheu seu conceito de nous com a ideia de um criador ou regente pessoal do universo. Seu conceito era mais abstrato, de um poder ou força impessoal, uma Inteligência Cósmica, que é o princípio teleológico (proposital) da realidade. Uma inteligência "ilimitada, independente e não misturada",  isto é, diversa das substancias sobre as quais atua. Todavia a inteligência  não era imaterial

"Todas as coisas tem parte de cada coisa, mas a inteligência é ilimitada, independente e não misturada a alguma coisa,...ela é a mais sutil e pura de todas as coisas, possui conhecimento de tudo  e tem imensa força..A inteligência  deu início a rotação universal...e foi precisamente a rotação que empreendeu o processo de formação..."

*Segundo Julian Marias "o nous é uma matéria mais sutil que as demais, mas não espiritual; a noção de espírito é alheia ao pensamento daquela época"(História da Filosofia. Julían Marias.Martins Fontes, 2005, p. 36)

Sua ideia de percepção é contrária a de Empédocles,  pois as homeomerias não são acessíveis aos sentidos e conhecem-se as coisas por seus contrários Anaxágoras teve grande mérito na ciência. Foi quem primeiro explicou que a lua brilha com luz reflexa, embora haja um fragmento críptico em Parmênides que também sugere que ele o sabia. Anaxágoras deu a teoria correta dos eclipses, e sabia que a lua se acha abaixo do Sol. O Sol e as estrelas, disse ele, são pedras ardentes, mas não sentimos o calor das estrelas porque elas estão muito distantes. O Sol é maior do que o Peloponeso. A Lua tem montanhas e (achava ele) habitantes.(História da Filosofia Ocidental- Bertrand Russell)
Análise Cristã:
Embora tenha contribuído muito nas ciencias, Anaxágoras não atribui a um ser pessoal, Deus, a origem de todas as coisas.

OS ATOMISTAS
Leucipo e Demócrito , fundadores da Escola atomista, constituem a ultima tentativa de resolver a aporia  (dúvida, difuculdade) eleática. O ser que não nasce, não morre e não entra em devir, se não se adapta a realidade sensível, adere porem aos fundamentos da realidade sensível, isto é, aos átomos. Infinitos, indestrutíveis, e imutáveis, mas indivisíveis (ao contrário dos homeomeros). Eles são indefenciados. Sao apenas diferentes na forma ou na figura geométrica

Átomo (= "indivisivel") é uma realidade captável apenas com o intelecto, não tem qualidade, mas  apenas forma geométrica, e e naturalmente dotado de movimento, As coisas sensíveis nascem, morrem e sofrem mutações, apenas em virtude da agregação ou desagregação dos átomos e, portanto, toda a realidade pode ser explicada em sentido mecanicista a partir dos átomos e do vazio.

Os Atomistas explicaram o conhecimento recorrendo a teoria dos eflúvios (semelhante a Empédocles), isto é, admitindo a existência de fluxos de átomos  mais finos (formando imagens sutis [eidola] que, destacando-se das coisas, se imprimem sobre os órgãos dos sentidos. Nesse contato, os átomos semelhantes que estão fora de nos impressionam os átomos semelhantes que estão em nós, formando então uma réplica ou ou cópia da  coisa. fundando de modo semelhante a Empédocles - o conhecimento.
Demócrito fez com que o vazio (que era absoluto não ser) se tornasse espaço, este espaço não era o absoluto não ser (pois o vazio existia), mas um ser relativo. Os átomos movem-se no vazio e tanto um como o outro são infinitos. Os dois eram a causa material das coisas existentes.

Tendo em vista que os átomos são infinitos, infinitos também eram os mundos que deles derivam. Todos nascem e depois se corrompem dando a origem a outros mundos, sem fim, ciclicamente.

A ordem do mundo não é explicada por uma inteligência (ao contrário de Anaxágoras), mas pelo encontro aleatório dos átomos, não existe portanto para eles uma causa inteligente ou final. Ele porém disse que alguns átomos eram especiais como os que constituíam a inteligencia e a alma.

Distingui-se 3 movimentos dos átomos:

  • movimento caótico dos átomos (movimento primígenio)
  • movimento derivado do anterior, no qual leva os átomos semelhantes a se agruparem de diversos modos dando origem a várias coisas
  • moviemento dos átomos que se disprendem das coisas formando os eflúvios(ex: o perfume) que entram em contato com os sentidos. 

Os átomos diferenciam-se entre si pela forma, posição e pela ordem, e cada uma delas pode variar ao infinito. Naturalmente só são perceptíveis pela inteligência, mas não pelos sentidos.
"Em certo sentido, tais "átomos" estão mais próximos do ser eleático do que das quatro "raízes" ou elementos de Empédocles, e das "sementes" ou homeomerias de Anaxágoras, porque são qualitativamente indiferenciados; todos eles são um ser-pleno do mesmo modo, e são diferentes entre si apenas na forma ou figura geométrica e, como tais, mantém ainda a igualdade do ser eleático de si consigo mesmo (absoluta indiferença qualitativa). Os átomos dos abderitas, portanto, são a fragmentação do Ser-Uno eleático em infinitos "seres-unos", que aspiram a manter o maior numero possível de características do Ser-Uno eleático
(História da filosofia. Giovanni Reale. 1. São Paulo: Paulus, 2007,p. 44)

Sendo assim Leucipo e Demócrito eram pluralistas corpóreos.
"É opinião o frio, e opinião o calor, verdade os átomos e o vazio" (Demócrito)

Leucipo  ( metade do sec. V a.C.)

 Nasceu em Mileto e é contemporâneo de Anaxágoras, dos sofistas e de Sócrates. Segundo uns, teve como mestre a Zenão; segundo outros, a Melisso. E freqüentemente associado a Demócrito. Aristóteles considera Leucipo o criador da teoria dos átomos, depois desenvolvida e elaborada por Demócrito. — Atribui-se-lhe a autoria de duas obras: A Grande Ordem do Mundo e Sobre o Espírito. A última, no entanto, pode ter sido apenas uma seção da primeira.
Citações:
1. AQUILES, Introdução, 1, 13 (DK 67 B 1).
A. GRANDE ORDEM DO MUNDO (título de um livro atribuído a Demócrito em Aquiles, Introdução, 2, 13).
Ia. Papiro Hercul. 1788 (DK 67 B Ia).
Átomos (i. e., não-cortáveis), maciços (i. e., unidades), grande vazio, seção, ritmo (i. e., forma), contato, direção, entrelaçamento, turbilhão (termos encontrados num papiro restaurado, em que Demócrito é acusado de plagiar A Grande Ordem do Mundo de Leucipo).

2. AÉCIO, I, 24, 4 (DK 67 B 2).
Diz (Leucipo) no livro Sobre o Espírito: Nenhuma coisa se engendra ao acaso, mas todas (a partir) da razão e por necessidade.

Demócrito de Abdera (colônia jônica da Trácia) (nascido talvez por volta de 460 a.C.

Discípulo e sucessor de Leucipo na direção da escola de Abdera.  Demócrito foi um dos escritores mais fecundos da Antiguidade. Segundo Diógenes Laércio, deixou cerca de noventa obras. Restam-nos fragmentos da Pequena Ordem do Mundo, Da Forma, Do Entendimento e outras (de conteúdo teórico), Do Bom Ânimo, Preceitos etc. (de conteúdo moral). Pelas fontes, não podemos distinguir com suficiente segurança o que se deve a Demócrito e o que a Leucipo. Vurnet pensa que muitas das obras atribuídas a Demócrito formavam como que o corpus da escola. A Grande Ordem do Mundo seria da autoria de Leucipo, enquanto as outras, dos discípulos da escola. È considerado o sistematizador da doutrina atomista.


Bibliografia Consultada:
Os pensadores pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural, 2000
História da filosofia. Giovanni Reale.Vol 1. São Paulo: Paulus, 2007
História da Filosofia. Giovanni Reali.  Vol 1. São Paulo: Paulus, 2014)
Enciclopedia de Apologética. Norman Geisler. São Paulo: Vida.
Curso de Filosofia. Antônio Rezende. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
História da Filosofia. Julían Marias. São Paulo:Martins Fontes, 2005.