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sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Estoicismo - Análise racional e cristã- Hino de Cleanto e Árato comentado


Zenon de Citium


Resumo:
O estoicismo leva o nome do lugar onde seu fundador,Zeno de Citium (Chipre), costumava dar palestras - o Stoa Poikile (colunata pintada).

 Zeno, que floresceu no início do século III AC , mostrou em suas próprias doutrinas a influência das atitudes gregas anteriores,. Ele era aparentemente bem versado no pensamento platônico , pois havia estudado na  Academia de Platão com Xenócrates de Calcedônia e com Polemon de Atenas, chefes sucessivos da Academia. 

Doutrinas do fundador:
  •  dividiu a filosofia em três partes: lógica ,física , e ética . 
  •  a lógica como um instrumento e não como um fim em si mesmo;
  • a felicidade humana como produto da vida segundo a natureza;
  •  a teoria física fornece os meios pelos quais as ações corretas devem ser determinadas; 
  • a percepção como base de certos conhecimentos; 
  • o sábio como modelo de excelência humana;
  • as formas platônicas — as entidades abstratas das quais "participam" coisas do mesmo gênero — como sendo irreais; 
  • conhecimento verdadeiro como sempre acompanhado de assentimento;
  •  a substancia fundamental de todas as coisas existentes como sendo um fogo divino, cujos princípios universais são (1) passivo (matéria) e (2) ativo (razão inerente à matéria); 
  • crença em uma conflagração e renovação mundial; 
  • crença na corporeidade de todas as coisas;
  •  crença na causalidade predestinada que liga necessariamente todas as coisas;
  •  cosmopolitismo , ou visão cultural que transcende lealdades mais estreitas; e a obrigação, ou dever, de escolher apenas os atos que estão de acordo com a natureza, sendo indiferentes todos os outros atos.
  • crença no panteísmo e negação da transcendência
 

A fundação da Estoá- Filosofia do Pórtico




No fim do século IV a.C., a pouco mais de um lustro da fundação do "Jardim", nascia em Atenas outra escola, destinada a tornar-se a mais famosa da época helenística. Seu fundador foi um jovem de raça semítica, Zenão, nascido em Cítio, na ilha de Chipre, por volta de 333/332 a.C. e que se transferiu para Atenas em 312/311 a. C., atraído pela filosofia. 

 Zenão teve primeiro relações com Crates, o Cínico, e com Estflpone Megárico. Ouviu também Senócrates e Polênion. Releu os antigos físicos e fez seus principalmente alguns conceitos de Heráclito, como veremos. Mas o acontecimento que mais o valoriza talvez tenha sido a fundação do" Jardim". 

Como Epicuro, ele renegava a metafisica e toda forma de transcendência. Como Epicuro, concebia a filosofia no sentido de arte de viver", ignorada pelas outras escolas ou então só imperfeitamente realizada por elas. Mas, embora compartilhasse o conceito epicureu de filosofia, bem como o seu modo de propor os problemas, Zenão não aceitava sua solução para esses problemas, tornando-se um feroz adversário dos dogmas do "Jardim". [epicurismo]

Repugnavam-lhe profundamente as duas ideias básicas do sistema, quer dizer, a redução do mundo e do homem a mero agrupamento de átomos e a identificação do bem do homem com o prazer, bem como as suas conseqüências e corolários. Não é de surpreender, portanto, que encontremos em Zenão e nos seus seguidores a clara derrubada de uma série de teses epicuristas. Todavia, não se deve esquecer que as duas escolas tinham os mesmos objetivos e a mesma fé materialista e que, portanto, trata-se de duas filosofias que se movem no mesmo plano de negação da transcendência e não de duas filosofias que se movem em planos opostos.


Como Zenão não era cidadão ateniense, não tinha direito de adquirir um prédio; por isso, ministrava suas aulas num pórtico, que fora pintado pelo pintor Polinhoto. Em grego, "pórtico "diz-se
stoá. Por essa razão, a nova escola teve o nome de "Estoá" ou "pórtico" e seus seguidores foram chamados "os da Estoá", "os do Pórtico" ou simplesmente "estóicos".


No Pórtico de Zenão, diversamente do Jardim de Epicuro, admitia-se a discussão crítica em torno dos dogmas dos fundadores da escola, fazendo com que tais dogmas ficassem sujeitos a aprofundamento,
revisões e reformulação. Em conseqüência, enquanto a filosofia de Epicuro não sofria modificações relevantes, sendo na prática, somente ou preponderantemente repetida e glosada e permanecendo assim substancialmente imutável, a filosofia de Zenão sofreu inovações até notáveis, apresentando uma evolução bastante considerável.

Três períodos na história da Estoá: 

1) O período da "Antiga Estoá", que vai de fins do século IV a todo o século m a.C., no qual a filosofia do Pórtico foi pouco a pouco desenvolvida e sistematizada na obra da trfade da escola: o próprio Zenão, Cleanto de Assoa (que dirigiu a escola de 262 a 232 a.C., aproximadamente) e, principalmente, Crísipo de Solis (que dirigiu a escola de 232 a.C. até o último lustro do século Ill a.C.). Foi principalmente este último, talvez de origem semítica, que, com mais de setecentos livros (infelizmente perdidos), fixou de modo definitivo a doutrina do primeiro estágio da escola. 

2) O período dito da "Média Estoá", que se desenvolve entre o li e o I século a.C. e que se caracteriza por infiltrações ecléticas na doutrina original. 

3) O período da Estoá romana ou da "Nova Estoá", que se situa na era cristã, no qual a doutrina faz-se essencialmente meditação moral e assume fortes tons religiosos, em conformidade com o espírito e as aspirações dos novos tempos. 

O pensamento dos primeiros representantes da velha Estoá é dificilmente diferençável, porque todos os textos se perderam e, além disso, aqueles que recuperavam as doutrinas estóicas através de testemunhos indiretos atinham-se às inumeráveis obras de Crísipo, que, elaboradas com dialética e habilidade refinadas obscureceram toda a produção dos outros pensadores da Estoá até fazê-la quase desaparecer. Além disso, foi Crísipo quem derrotou as tendências heterodoxas da escola, que se haviam verificado com Arístones de Quios e com Érilo de Cartago, desencadeando verdadeiros cismas. Por isso, a exposição da doutrina da velha Estoá é sobretudo uma exposição da doutrina na formulação que recebeu de Crísipo. 

Também são escassos os testemunhos precisos sobre os pensadores da Média Estoá Panécio e Possidônio, mas os dois pensadores são nitidamente diferenciáveis. Já no que se refere ao estoicismo romano, possuímos obras completas, numerosas e ricas.


A lógica da Estoá antiga
Tanto Zenão quanto a Estoá aceitam a tripartição da filosofia estabelecida pela Academia (que fôra substancialmente acolhida por Epicuro, como já vimos), inclusive acentuando-a e não se cansando de forjar novas imagens para ilustrar do modo mais eficaz a relação existente entre as três partes. A filosofia em seu conjunto é comparada por eles a um pomar, no qual a lógica corresponde ao muro circundante, que delimita o âmbito do pomar e que cumpre ao mesmo tempo o papel de baluarte de defesa; as árvores representam a fisica, porque são como que a estrutura fundamental, ou seja, aquilo sem o que não existiria o pomar; finalmente, os frutos, que são aquilo a que todo o plantio visa representam a ética. 'Assim como os epicuristas, os estóicos atribuíam primariamente à lógica a tarefa de fornecer um critério de verdade. E como os epicuristas, indicavam a base do conhecimento como a sensação, que é uma impressão provocada pelos objetos sobre os nossos órgãos sensoriais, a qual se transmite à alma e nela se imprime, gerando a representação.

Porém, segundo os estóicos, a representação veritativa [da verdade] não implica só um "sentir", mas postula ademais um "assentir", um consentir ou aprovar proveniente do logos que está em nossa alma. A impressão não depende de nós, mas da ação que os objetos exercitam sobre os nossos sentidos, mas estamos livres para tomar posição diante das impressões e representações que se formulam em nós, dando-lhes o assentimento (synkatáthesis) do nosso logos ou recusando dar-lhes nosso assentimento. Só quando existe o assentimento é que temos a "apreensão" (katálepsis). E a representação que recebeu nosso assentimento é "representação compreensiva ou catalética", constituindo o único critério ou garantia de verdade.
A espontaneidade do assentimento, proclamada pelos estóicos, é de longe o ponto mais delicado de compreender, mas também o mais importante. Na verdade, essa "liberdade do assentimento" é fortemente ambígua, afinando até quase desaparecer logo que se busca provar sua consistência. Os estóicos pensaram durante muito tempo que o logos tinha, com relação à sensação, uma autonomia ou função reguladora do tipo daquela que encontramos nas modernas gnosiologias, como também pensavam que a representação catalética é uma espécie de síntese ou um tipo de medição que o espírito opera sobre os dados sensoriais. A liberdade de assentimento não é, em última análise, senão o reconhecer e o dizer "sim" à evidência objetiva e o recusar e dizer "não" à não evidência.

A verdadeira convicção dos estóicos é que, na realidade, quando estamos efetivamente diante do objeto, produz-se em nós uma impressão e uma representação dotadas de tal força e evidência
que naturalmente somos levados ao assentimento e, assim, à representação compreensiva; e que, pois, ao contrário, quando temos representação compreensiva, isto é, quando damos o assentimento
a uma representação, encontramo-nos seguramente diante de um objeto real. Portanto, o pressuposto de uma plena correspondência entre presença real do objeto e representação evidente que leva ao assentimento, na realidade acaba por ser predominante, nesta concepção do critério da verdade. Assim, não seria dificil para os céticos descobrirem nesse ponto de doutrina estóica uma floresta de contradições e mostrar que nenhuma representação, enquanto tal, apresenta-se com conotações tais que
mereça ou não, o nosso assentimento, sem possibilidade de equívoco.


Em substância, para os estóicos, a verdade própria da representação catalética é devida ao fato de que esta é uma ação e uma modificação material e "corpórea" que as coisas produzem sobre nossa alma, provocando uma resposta igualmente material e "corpórea" por parte da nossa alma. Por razões que esclarecemos melhor adiante, a própria verdade, segundo os estóicos, é algo de material, "é um corpo".

Contudo, os estóicos admitiram que nós passamos da representação catalética à intelecção e ao conceito. Admitiam, ademais, "noções ou prolepses inatas na natureza humana". E, em conseqüência,
foram constrangidos a dar conta da natureza dos universais. O ser, para os estóicos, é sempre e somente "corpo" e, ademais, individual; contudo, o universo não pode ser corpo, é um incorpóreo,
não no sentido positivo platônico, mas no sentido negativo de "realidade empobrecida de ser'', uma espécie de ser ligado somente à atividade do pensamento.
Os estóicos afastaram-se notavelmente de Aristóteles, apoiando-se na proposição como elemento-base da lógica (lógica proposicional) e privilegiando os silogismos hipotéticos e disjuntivos, sobre os quais Aristóteles não havia teorizado. Mas esta parte da lógica estóica, hoje grandemente revalorizada, permanece à margem do sistema. A "representação catalética" continuou sendo o verdadeiro ponto de referência para a Estoá, em virtude das razões expostas.


A física da Estoá antiga
A física da Estoá antiga é uma forma (talvez a primeira forma) de materialismo monista e panteísta.

a) O ser, dizem os estóicos, é só aquilo que tem a capacidade de agir e sofrer. Mas este é apenas o corpo: "ser e corpo são idênticos" é, portanto, a sua conclusão. Corpóreos são também as virtudes e corpóreos os vícios, o bem e a verdade.

b) Esse materialismo, embora tome a forma do mecanicismo pluralista atomista, como nos epicuristas, configura-se, num sentido hilemórfico, como hilozoísta e monista. Os estóicos falam, na verdade, de dois princípios do universo, um "passivo" e um "ativo", mas identificam o primeiro com a
matéria e o segundo com a forma (ou melhor, com o princípio enformante) e sustentam que um é inseparável do outro. A forma, além disso, segundo eles, é a Razão divina, o Logos, Deus. Eis dois
significativos testemunhos antigos: "Segundo os estóicos, os princípios do universo são dois, o ativo e o passivo. O princípio passivo é a substância sem qualidade, a matéria; o princípio ativo é a razão
na matéria, isto é, Deus. E Deus, que é eterno, é demiurgo criador de todas as coisas no processo da matéria"; "Os discípulos de Zenão concordam em sustentar que Deus penetra em toda a realidade e
que ora é inteligência, ora alma, ora natureza[ ... ]."


Compreende-se bem, deste modo, que os estóicos pudessem identificar o seu Deus-physis-logos com o "fogo artífice", com o heraclídeo "raio que tudo governa" ou ainda com o pneuma, que é "sopro ardente", ou seja, ar dotado de calor. O fogo, com efeito, é o princípio, que tudo transforma e tudo penetra; o calor é o princípio sine qua non (imprescindível) de todo nascimento, crescimento e,
em geral, de toda forma de vida.

Para o estoicismo a penetração de Deus (que é corpóreo) através da matéria e de toda a realidade (que também é corpórea) é possível em virtude do dogma da "mescla total dos corpos". Recusando a teoria dos átomos dos epicuristas, os estóicos admitem a divisibilidade dos corpos ao infinito e, assim, a possibilidade de que as partes dos corpos possam unir-se intimamente entre si, qe modo que dois corpos possam, perfeitamente, fundir-se num só.
E evidente que essa tese comporta a afirmação da "penetrabilidade dos corpos", aliás coincide com ela. Por mais aporética que seja, essa tese, em todo caso, é requerida pela forma de materialismo
monista adotado pela Estoá.
O monismo da Estoá pode ser compreendido ainda melhor se considerarmos a doutrina das assim chamadas "razões seminais". O mundo e as coisas do mundo nascem da única matéria-substrato
qualificado, através do logos imanente que, em si, é uno, mas capaz de diferenciar-se nas infinitas coisas. O logos é como o sêmem de todas as coisas, é como um sêmem que contém muitos sêmens (os
logoi spermatokói), que os latinos traduziriam com a expressão rationes seminales (razões seminais). Uma fonte antiga diz: "Os estóicos afirmam que Deus é inteligente, fogo artífice, que metodicamente
procede à geração do cosmo e que inclui em si todas as razões seminais, segundo as quais as coisas são geradas segundo o fado. Deus é [ ... ] a razão seminal do cosmo."
As Idéias ou Formas platônicas e as formas aristotélicas são assim assumidas no único Logos, que se manifesta em infinitos sêmens criativos, forças ou potências germinativas que operam no
interior da matéria, imanentes à estrutura da matéria a ponto de serem inteiramente inseparáveis dela. O universo inteiro é assim como que um único grande organismo, no qual o todo e as partes
se harmonizam e "simpatizam", ou seja, sentem em correspondência uma com a outra e em correspondência com o todo (doutrina da "simpatia" universal).

c) Dado que o princípio ativo, que é Deus, é inseparável da matéria e como não existe matéria sem forma, Deus está em tudo e Deus é tudo. Deus coincide com o cosmos. Dizem as fontes antigas:
"Zenão indica o cosmos inteiro e o céu como substância de Deus."
Ou ainda: "Chamam de Deus o cosmo inteiro e as suas partes". O ser de Deus é uno com o ser do mundo, a ponto de tudo (o mundo e as suas partes) ser Deus. Essa é a primeira concepção explícita
e temática da Antigüidade (a dos pré-socráticos era.somente. uma forma de panteísmo implícito e inconsciente; só depois da distinção dos planos da realidade em Platão e da negação crítica desta
distinção é que se torna possível um panteísmo consciente de SI mesmo).

Com base no que foi aqui precisado, é possível compreender plenamente a curiosa posição que os estóicos assumiram em relação ao "incorpóreo". A redução do ser ao corpo comporta, como conseqüência necessária, a redução do in-corpóreo (daquilo que é privado de corpo) a algo que é privado de ser. O incorpóreo, faltando-lhe exatamente a corporeidade, carece das conotações que são distintivas do ser, ou seja, não pode agir nem sofre,:;: Assim os estóicos, além dos conceitos universais, consideram mcorporeos" também o ''lugar", o "tempo" e o "infinito", exatamente porque são coisas incapazes de agir e sofrer (e, por acréscimo, as duas últimas são também infinitas).

Esta concepção do "incorpóreo" suscita numerosas aporias, das quais, pelo menos em parte, os propnos estóicos tiveram consciência. De fato, espontaneamente surge a pergunta: se o "incorpóreo" não tem ser porque não é corpo?· então é não-ser,é nada? Para fugir dessa dificuldade, alguns estoicos foram obrigados a negar que o ser seja o gênero supremo e que seja atribuível a todas as coisas, bem como a afirmar que o gênero mais amplo de todos é o "algo".
É claro que tal doutrina, subvertendo o próprio estatuto da ontologia clássica, devia fatalmente cair num cipoal de contradições, o que explica a perplexidade dos próprios estóicos.

Naturalmente, nesse contexto perdia todo sentido o quadro aristotélico das categorias, que são as supremas "divisões" ou os supremos "gêneros" do ser. Os estóicos reduziram as categorias a duas categorias fundamentais, às quais acrescentaram outras duas que, contudo, estão num plano muito diferente. As duas categorias fundamentais são: a substância, entendida como substrato material, e a qualidade, entendida como qualidade que, em união inseparável com o substrato, determina a essência das coisas singulares. As outras duas categorias são constituídas pelos modos e pelos modos relativos. Mas os estóicos não se pronunciaram claramente sobre o estatuto ontológico destas duas últimas.
Contra o mecanicismo dos epicuristas, os estóicos defendem a ferro e fogo uma rigorosa concepção finalística. Com efeito, se todas as coisas sem exceção são produzidas pelo princípio divino imanente, que é Logos, inteligência e razão, tudo é rigorosa e profundamente racional, tudo é como a razão quer que seja e, como ela não pode deixar de querer que seja, tudo é como deve ser e como é bom que seja; então, o conjunto de todas as coisas é perfeito; não existe obstáculo ontológico à obra do Artíficie imanente, dado que a própria matéria é o veículo de Deus; assim, tudo o que existe tem um significado preciso e é feito do melhor dos modos possíveis; o todo, em si, é perfeito; as coisas singulares, embora sendo imperfeitas, consideradas em si mesmas, têm a sua perfeição no esboço do todo.

Estreitamente ligada a esta concepção encontra-se a noção de "Providência" (Pronoia). A Providência estóica, afirma-se, nada tem a ver com a Providência de um Deus pessoal. É o finalismo universal que faz com que cada coisa (mesmo a,menor das coisas) seja feita como é bom e como é melhor que seja. E uma Providência imanente e não transcendente, que coincide como Artífice imanente, com a Alma do mundo.
Desse modo, a Providência imanente dos Estóicos, vista por outra perspectiva, revela-se como "Fado" e como "Destino"(Heimarméne), ou seja, como inelutável Necessidade

Os estóicos entendiam esse Fado como a série irreversível das causas, como a "ordem natural e necessária de todas as coisa", como a indissolúvel trama que liga todos os seres, como o logos segundo o qual as coisas acontecidas aconteceram: "aquelas que acontecem, acontecem; e aquelas que acontecerão, acontecerão." E, posto que tudo depende do logos imanente, tudo é necessário (assim como tudo é providencial, do modo como vimos), mesmo o acontecimento mais insignificante.
Estamos diante de uma antípoda da visão epicurista, que, com a "declinação dos átomos", ao contrário, havia colocado todas as coisas ao sabor do acaso e do fortuito.


Mas, no contexto desse fatalismo, como se salva a liberdade do homem? A verdadeira liberdade do sábio consiste em conformar a própria vontade à do Destino, consiste em querer, com o Fado,
aquilo que o Fado quer. Isso é "liberdade", enquanto aceitação racional do Fado, que é racionalidade: com efeito, o Destino é o Logos; por isso, querer os quereres do Destino é querer os quereres
do Logos. Liberdade, pois, é pôr a vida em total sintonia com o Logos. Por isso Cleanto escrevia:
Guia-me, ó Júpiter, e tu, Destino, ao fim,
qualquer que este seja, que vos praza assinalar-me.
Seguirei imediatamente, pois se me atraso,
por ser vil, mesmo assim deverei alcançar-vos.
Eis uma bela passagem, referida por fonte antiga, que exemplifica muito bem o conceito expresso acima: "Os estóicos também afirmaram com certeza que todas as coisas ocorrem por fado, servindo-se do seguinte exemplo: um cão que está amarrado a um carro, se quiser segui-lo é puxado e o segue, fazendo necessa riamente aquilo que também faz por sua vontade; se, ao contrário,
não quiser segui-lo, será obrigado, de toda forma, a fazê-lo. A mesma coisa na verdade ocorre com os homens. Mesmo se não quiserem seguir [o Destino], serão em todo caso obrigados a chegar ao que foi estabelecido pelo fado." Sêneca o diria, traduzindo um verso de Cleanto com a sentença lapidar: "Ducunt volentem fata, nolentem trahunt" ("O destino conduz aquele que quer, quanto quem não quer").

Mas há ainda um ponto essencial a ser ilustrado no que se refere à cosmologia dos estóicos. Como os  pré-socráticos, os estóicos propuseram um mundo gerado e, em conseqüência, corruptível
(aquilo que nasce deve, num certo momento, morrer). De resto, era a própria experiência que lhes dizia que, como existe um fogo que cria, existe também um fogo ou um aspecto do fogo que queima,
incinera e destrói. No entanto, era impensável que as coisas singulares do mundo fossem sujeitas à corrupção mas não o mundo que é constituído por elas. Assim, a conclusão era obrigatória: o fogo
alternadamente cria e destrói; em conseqüência, no fatídico final dos tempos haverá a "conflagração universal", uma combustão geral do cosmos (ekpjrosis ), que será ao mesmo tempo a purificação
do universo, passando a haver somente fogo. À destruição do mundo se seguirá um "renascimento" (palingénesis), pelo qual "tudo renascerá de novo exatamente como antes" (apocatástase):
então renascerá o cosmos, esse mesmo cosmos que continuará pela eternidade a ser destruído e depois reproduzido, não só na estrutura geral, mas também nos acontecimentos particulares (numa espécie
de eterno retorno), e renascerá cada homem sobre a terra, cuja vida será como foi na sua vida anterior, até nas mínimas particularidades.

De resto, idêntico é o Logos-fogo, idêntico é o sêmem, idênticas são as razões seminais, idênticas são as leis em sua explicação, idênticas são as concatenações das causas segundo as quais as razões seminais se desenvolvem em geral e em particular.
Como vimos, o homem ocupa uma posição predominante no âmbito do mundo. Esse privilégio, em última análise, deriva do fato de que, mais do que qualquer outro ser, o homem participa doLogos
divino. 

Com efeito, o homem é constituído de corpo e alma, a qual é um fragmento da Alma Cósmica; é, pois, um fragmento de Deus, já que a Alma Universal, como sabemos, é Deus. Naturalmente, a alma é corpórea, ou seja, fogo ou pneuma.
A alma permeia o organismo físico interno, vivificando-o; o fato de este ser material não é impedimento para isso, já que, como sabemos, os estóicos admitem a penetrabilidade dos corpos. Exatamente
por permear todo o organismo humano e presidir às suas funções essenciais, a alma é dividida em oito partes pelos estóicos: uma, central, chamada "hegemônica", isto é, a parte que dirige, 
coincidindo essencialmente com a razão; cinco partes constituindo os cinco sentidos; a parte que preside à formação; finalmente, a que preside a geração.

Além das oito "partes", os estóicos distinguiram, numa mesma parte! diferentes "funções": assim, a parte hegemônica ou parte principal da alma tem em si a capacidade de perceber assentir apetecer e raciocinar. ' '
A alma sobrevive à morte do corpo, pelo menos por um certo período; segundo alguns estóicos, as almas dos sábios sobrevivem até a próxima conflagração.

Críticas:
Os estoicos desprezaram as teorias da física da época e abraçaram o panteísmo, negando a existência de um ser Criador Transcendente. Abraçou a crença no destino. Suas ideias de recriação do cosmos e recriação dos seres tendo as mesmas vivencias da vida anterior reflete este destino inexorável.



 A ética da Estoá antiga
A parte mais significativa e mais viva da filosofia do Pórtico, contudo, não é sua original e audaz física, mas sim a ética: com efeito, foi com a sua mensagem ética que os estóicos, durante meio milênio, souberam dizer aos homens uma palavra verdadeiramente eficaz, que foi sentida como particularmente iluminadora acerca do sentido da vida. Para os estóicos, como para os epicuristas, o escopo do viver é a obtenção da felicidade. E a felicidade se persegue vivendo "segundo a natureza".

Se observarmos o ser vivente, em geral constatamos que ele se caracteriza pela constante tendência de conservar a si mesmo, de "apropriar-se" do próprio ser e de tudo quanto é capaz de conservá-lo, de evitar aquilo que lhe é contrário e de "conciliar-se" consigo mesmo e com as coisas que são conformes à própria essência. Essa característica fundamental dos seres é indicada pelos estóicos com o termo "oikeíosis" ( = apropriação, atração. =conciliatio). 

Da oikeíosis é que deve ser deduzido o princípio da ética. Nas plantas e vegetais em geral, essa tendência é inconsciente; nos animais, é consignada a um preciso instinto ou impulso primigênio; já no homem esse impulso é especificado e sujeito à intervenção da razão. Viver "conforme à natureza" significa, pois, viver realizando plenamente essa apropriação ou conciliação do próprio ser e daquilo que o conserva e ativa. Em particular, posto que o homem não é simplesmente ser vivente mas é ser racional, o viver segundo a natureza será um viver "conciliando-se" com o próprio ser racional, conservando-o e atualizando-o plenamente.

O fundamento da ética epicurista, desse modo, é marcado por tais conceitos de oikeíosis e do instinto originário: com efeito considerados à sua luz, prazer e dor tornam-se novos parâmetros' não um prius (prioridade) mas um posterius (elemento secundário), isto é, algo que vem depois e em conseqüência, quando a natureza já buscou e encontrou aquilo que a conserva e realiza. E, posto que o instinto de conservação e a tendência ao incremento do ser são primeiros e originários, então "bem" é aquilo que conserva e incrementa o nosso ser e, ao contrário, "mal" é aquilo que o danifica e o diminui. Ao primeiro instinto está pois estruturalmente ligada a tendência a avaliar no sentido de que todas as coisas são reguladas pelo instinto primeiro: à medida que se mostrem benévolas ou malévolas, as coisas serão consideradas "bem" ou "mal". O bem é portanto vantajoso e útil; mal é o nocivo. Mas atenção: como os estóicos insistem em diferenciar o homem de todas as outras coisas, mostrando que ele está determinado não só pela sua natureza puramente animal, mas sobretudo pela natureza racional, isto é, pelo privilegiado manifestar-se do logos nele, então o princípio da valorização acima estabelecido assume duas diferentes valências, à medida que é referido à physis racional: uma é a que promove a conservação e o incremento da vida animal; outra é a que promove a conservação e incremento da vida da razão e do logos.

Pois bem, segundo os estóicos, o bem moral é exatamente aquilo que incrementa o logos e o mal é aquilo que lhe causa dano. O verdadeiro bem, para o homem, é somente a virtude; o verdadeiro
mal é só o vício.

Como considerar então aquilo que é útil ao corpo e à nossa natureza biológica? E como denominaremos o contrário disso? A tendência de fundo do estoicismo é aquela de negar a todos estas coisas o qualificativo de "bem" e de "mal", exatamente porque, como se viu, bem e mal são somente aquilo que é útil e aquilo que é nocivo ao logos, portanto, só o bem e o mal moral.

 Por isso, todas as coisas que são relativas ao corpo, quer sejam nocivas, quer não, são consideradas "indiferentes" (adiáphora) ou, mais exatamente, "moralmente indiferentes". Entre as coisas moralmente indiferentes são conseqüentemente colocadas quer as coisas física e biologicamente positivas, como vida, saúde, beleza, riqueza etc., quer as fisica e biologicamente negativas, como morte, doença, brutalidade, pobreza, ser escravo ou imperador etc. Esta nítida separação, operada entre os bens e os males, por um lado, e os indiferentes, por outro, é indubitavelmente um dos traços mais característicos da ética estóica, que já na Antigüidade foi objeto de enorme estupor e de vivazes concordâncias e dissentimentos, suscitando múltiplas discussões entre os adversários e às vezes entre os próprios seguidores da filosofia do Pórtico. 

Com efeito, com esta radical cisão, os estóicos podiam colocar o homem ao abrigo dos males da época em que viviam: todos os males derivados do desmoronamento da antiga pólis e todos os perigos, inseguranças e adversidades provenientes das convulsões políticas e sociais que se seguiram a tal desmoronamento vinham simplesmente negados como males e confinados entre os "indiferentes". Esse era um modo bastante audaz de dar uma nova segurança ao homem, ensinando-lhe que bens e males derivam sempre e só do interior do próprio eu e não do exterior e convencendo-o, assim, de que a felicidade podia ser perfeitamente conseguida de modo absolutamente independente dos eventos externos e que se podia ser feliz até em meio aos tormentos fisicos, como também dizia Epicuro.

A lei geral da oikeíosis implicava que, dado que é um instinto de todos os seres o de conservar-se a si mesmo e dado que esse próprio instinto é fonte de valorizações, se devia reconhecer como positivo tudo o que o conserva e incrementa, mesmo ao simples nível fisico e biológico. Assim, não só para os animais, mas também para os homens, se devia reconhecer como positivo tudo o que está
em conformidade com a natureza fisica e que garante, conserva e incrementa a vida, como, por exemplo, a saúde, a força, o vigor do corpo e dos membros e assim por diante. Os estóicos chamaram esse positivo segundo a natureza de "valor" ou "estima", enquanto o oposto negativo chamaram de "falta de valor" ou "falta de estima". Portanto, os "intermediários" que estão entre os bens e males deixam de ser de todo "indiferentes", ou melhor, embora permanecendo moralmente indiferentes, tornam-se, do ponto de vista fisico, "valores" e "desvalores".
Daí decorre, em conseqüência; que, da parte da nossa natureza animal, os primeiros serão objeto de "preferência"; os segundos, ao contrário, serão objeto de "aversão". E nasce assim uma segunda distinção, estreitamente dependente da primeira: os indiferentes "preferidos" e os indiferentes "não preferidos" ou "recusados".
Essas distinções correspondiam não só a uma exigência de atenuar realisticamente a excessivamente nítida dicotomia entre "bens e males" e "indiferentes", por si só paradoxal, mas encontravam
nos pressupostos do sistema uma justificação até mesmo maior do que a referida dicotomia, pelas razões já ilustradas. Por isso, é compreensível que a tentativa de Ariston e de Hérilo de defender a absoluta adiaphoria ou "indiferença" das coisas que não são nem bens nem males tenha encontrado tão nítida oposição em Crísipo, que defendeu a posição de Zenão e a consagrou definitivamente.
As ações humanas cumpridas em tudo e por tudo segundo o logos chamam-se "ações moralmente perfeitas"; as contrárias são "ações viciosas ou erros morais". Mas, entre as primeiras e as segundas, há todo um feixe de ações relacionadas com os "indiferentes". Quando essas ações forem cumpridas "conforme à natureza", vale dizer, de modo racionalmente correto, terão uma plena justificação moral, chamando-se assim "ações convenientes" ou "deveres". A maior parte dos homens, que é incapaz de ações "moralmente perfeitas" (porque, para cumpri-las, é necessário adquirir a ciência perfeita do filósofo, já que a virtude, como aperfeiçoamento de racionalidade humana, só pode ser ciência, como queria Sócrates), é, no entanto, capaz de "ações convenientes", ou seja, é capaz de absorver "deveres". 

O que as leis mandam (as quais, para os estóicos, longe de serem convenções, são expressões
da Lei eterna que provém do Logos eterno) são "deveres" que, no sábio, graças à perfeita disposição do seu espírito, tomam-se verdadeiras e exatas ações morais perfeitas, enquanto que, no homem comum, permanecem só ao nível das "ações convenientes". Esse conceito de kathékon é substancialmente uma criação estóica. Os romanos, que o traduziram pelo termo "officium", com sua sensibilidade prático-jurídica, contribuíram para talhar mais nitidamente os contamos desta noção moral que nós, modernos, chamamos de "dever". Obviamente, antes dos estóicos, pode-se encontrar entre os gregos o correspondente daquilo que o Pórtico chama de kathékon, expresso de vários modos, mas nunca reduzido unitariamente a problema e não formulado com precisão consciente. Max Pohlenz pensa que Zenão pode ter extraído do patrimônio espiritual semítico o conceito de "mandamento", tão familiar aos hebreus, criando então o conceito de kathékon pelo enxerto do conceito de mandamento no conceito grego de physis. Isso é verossímil. Mas o certo é que Zenão e a Estoá, com a elaboração do conceito de kathékon, deram à história espiritual do Ocidente uma contribuição de grande relevo: com efeito, embora modulado de várias maneiras, o conceito de "dever" se manteve como uma verdadeira categoria do pensamento moral ocidental. 

Senso Cosmopolita

Mas os estóicos também apresentaram novidades no que diz respeito à interpretação do viver social.
O homem é impulsionado pela natureza a conservar o próprio ser e amar a si mesmo. Mas esse instinto primordial não está orientado somente para a conservação do indivíduo: o homem estende imediatamente a oikeíosis aos seus filhos e aos seus parentes e mediatamente a todos os seus semelhantes. Em suma: é a natureza que, como impõe o amar a si mesmo, impõe também amar aos que geramos e aqueles que os geraram; e é a natureza que impulsiona o indivíduo a unir-se aos outros e também a ser útil aos outros.
De ser que vive encerrado em sua individualidade, como queria Epicuro, o homem toma-se "animal comunitário". E a nova fórmula demonstra que não se trata de uma simples retomada do pensamento aristotélico, que definia o homem como "animal político": o homem, mais ainda do que ser feito para associar-se numa Pólis, é feito para consorciar-se com todos os homens. Nessa base, os estóicos só podiam ser fautores de um ideal fortemente cosmopolita.
Com base em seu conceito de physis e de logos, os estóicos, mais do que os outros filósofos, também souberam colocar em crise antigos mitos da nobreza de sangue e da superioridade da raça, bem como a instituição da escravidão: a nobreza é chamada cinicamente de "escória e raspa da igualdade"; todos os povos são declarados capazes de alcançar a virtude; o homem é proclamado estruturalmente livre: com efeito, "nenhum homem é, por natureza, escravo". Os novos conceitos de nobreza, de liberdade e de escravidão ligam-se à sabedoria e à ignorância: o verdadeiro homem livre é o sábio, o verdadeiro escravo é o tolo. Dessa forma, os pressupostos da política aristotélica são completamente infringidos: pelo menos ao nível do pensamento, o logos reestabeleceu a igualdade fundamental entre os homens.

Apatia

Um último ponto a considerar: a célebre doutrina da "apatia". As paixões, das quais depende a infelicidade do homem, são, para os estóicos, erros da razão ou, de qualquer modo, conseqüências
deles. Enquanto tais, ou seja, enquanto erros do logos, é claro que não tem sentido, para os estóicos, "moderar" ou "circunscrever" as paixões: como já dizia Zenão, elas devem ser destruídas, extirpadas
e erradicadas totalmente. Cuidando do seu logos e fazendo-o ser o mais possível reto, o sábio não deixará sequer nascerem as paixões em seu coração ou as aniquilará ao nascerem. Essa é a célebre
"apatia" estóica, isto é, o tolhimento e a ausência de toda paixão, que é sempre e só perturbação do espírito. A felicidade, pois, é apatia e impassibilidade. A apatia que envolve o estóico é extrema, acabando por se tomar verdadeiramente enregelante e até inumana. Com efeito, considerando que piedade, compaixão e misericórdia são paixões, o estóico deve extirpá-las de si, como se lê neste testemunho: "A misericórdia é parte dos defeitos e vícios da alma: misericordioso é o homem estulto e leviano.(. .. ) O sábio não se comove em favor de quem quer que seja; não condena ninguém por uma culpa cometida. Não é próprio do homem forte deixar-se vencer pelas imprecações e afastar-se da justa severidade."

A ajuda que o estóico dá aos outros homens só poderá, assim, ser asséptica, longe de qualquer "simpatia" humana, exatamente como o frio lagos está distante do calor do sentimento. Assim, o
sábio deve se mover entre os seus semelhantes em atitude de total distanciamento, seja quando fizer política, seja quando se casar, seja quando cuidar dos filhos, seja quando fizer amizades, acabando
por tomar-se estranho à própria vida: com efeito, o estóico não é um entusiasta da vida, nem um amante dela, como o epicurista.
E, enquanto Epicuro apreciava até os últimos instantes da vida e os gozava, feliz embora entre os tormentos do mal,. Zenão numa atitude paradigmática, após uma queda na qual divisou um sinal
do Destino atirava-se, quase feliz por termmar a vida, aos braços da morte, gritando: "Venho, por que me chamas.?"


Crítica:


O ideal estoico é inatingível, uma ilusão pois visa erradicar as paixões e alcançar a impassibilidade (apatheia), a ataraxia  que é o apaziguamento das agitações da alma (que advém das paixões) ou a fuga delas.


O estoicismo dizia que os sentimentos e os afetos, que eles reduzem às “paixões”, não são naturais. Zenão definia a paixão, considerada em si mesma, como “o movimento da alma irracional e contrária à natureza ou ainda uma impulsão excessiva”. Ou ainda: “o distúrbio, que ele chama de pathos, é um movimento da alma que se afasta da razão direita e que é contrário à natureza”  Cícero. Tusculanas, IV, VI.

Somente uma alma sem paixão pode fazer os homens perfeitamente felizes, ao passo que uma alma agitada, arrastada para longe de uma razão completa e segura, perde não apenas o acordo consigo mesma, mas também a saúde.  A felicidade só pode vir de uma vida em conformidade com o logos, uma vida sem paixões, sem agitações da alma, devendo decorrer segundo o curso dos acontecimentos, o Destino. Neste radicalismo prescreviam o sexo somente para procriação, o que é contrário a natureza pois a fertilidade da mulher é um período curto e o prazer sexual é um dos mais intensos, além disso a Bíblia não diz que o sexo deve ser feito só com finalidade reprodutora. 
 http://averacidadedafecrista.blogspot.com/2018/05/teologia-da-sexualidade.html





O médio estoicismo: Panécio e Possidônio
Panécio

Panécio (nascido em Rodes em cerca de 185 a.C. e morto no início do século I a.C.) tornou-se chefe da Estoá em 129 a.C. Teve o mérito de reconduzir a escola ao antigo esplendor, embora ao preço de alguns compromissos ecletizantes. 
Modificou alguns pontos da psicologia e recuperou alguns aspectos da física (abandonou a ideia da conflagração cósmica e abraçou a ideia da eternidade do mundo). Mas, principalmente, mitigou a aspereza da ética sustentando que a virtude não é suficiente para a felicidade, sendo preciso ainda boa saúde, meios econômicos necessários e força. Valorizou os "deveres", dedicando a eles toda a sua atenção. Por fim, repudiou a apatia. A importância de Panécio está principalmente na valorização dos "deveres". A sua obra Sobre os deveres influenciou muito Cícero, que reteve de Panécio o conceito de "officium", transmitindo-o ao Ocidente como uma conquista definitiva do pensamento moral.

Crítica:
A ideia de eternidade do mundo contraria a lógica e todas as descobertas da Astronomia contemporânea

Possidônio
Possidônio (nascido em Apanca entre 140 e 130 a.C. e morto após 51 a.C.) prosseguiu na nova linha que o mestre Panécio imprimira à Estoá. Mas não lhe sucedeu como professor preferindo abrir uma escola em Rodes. Compartilhava da ideia fundamental do mestre segundo a qual a verdade não está
necessariamente encerrada só nos dogmas do Pórtico, podendo portanto advir oportunas contribuições de outras escolas. Assim, Possidônio abriu o Pórtico às influências platônicas e aristotélicas, não hesitando em corrigir Crísipo com Platão, embora mantendo substancialmente firme a visão da Estoá.
Mais do que pelas tentativas de correção dos dogmas da Estoá (das quais, por outro lado, estamos escassamente informados, pois só possuímos fragmentos delas), 

Possidônio se distinguiu pelos seus formidáveis conhecimentos científicos. Provavelmente, o seu maior mérito consiste, como destacaram pesquisas recentes, em ter procurado atualizar a doutrina estóica em relação ao progresso que as ciências alcançaram depois da fundação do Pórtico. E certo que pela vastidão dos conhecimentos e variedades do saber, Possidônio foi a mente mais universal que a Grécia teve depois de Aristóteles. E seus contemporâneos bem se deram conta da excepcionalidade da personagem, tanto que muitos iam a Rodes escutálo, não só provindos da Grécia, mas também de Roma; chegaram a visitá-lo até personalidades como Cícero e o grande Pompeu. Esta passagem de Cícero, melhor que nenhuma outra, dá uma  ideia da estatura de Possidônio: "Também eu vi Possidônio muitas vezes pessoalmente, mas quero narrar aquilo que Pompeu contava sobre ele. Pompeu voltava da Síria. Chegando a Rodes, quis ouvir Possidônio. Disseram-lhe que este estava muito doente - tivera uma violenta crise de artrite-, mas Pompeu quis ver de qualquer jeito o grande filósofo. Quando chegou até ele, saudou-o, elogiou-o e disse-lhe que lamentava não poder ouvi-lo. Então Possidômio respondeu: Não, não: não permitirei nunca que, por culpa de uma dor física um homem como você tenha vindo até aqui para nada. E assim Possidônio deitado na cama, como narra Pompeu, discutiu com profundidade e eloqüência exatamente a tese de que não há nenhum bem fora do bem moral. E, nos momentos em que a dor era mais intensa, repetia: Não apareça, dor! Estou doente, sim, mas nunca admitirei que seja um mal." A antiga doutrma do Pórtico, segundo a qual a dor física não é um "verdadeiro" mal, encontra neste testemunho uma esplêndida confirmação.





 Prova da Existência de Deus de Cleantes

Sexto Empírico AM 9.88-91 Pearson C 51; SVF 1.529a; BS 12.15

°° // {{ Cleantes assim raciocinava: se existe uma natureza superior à natureza, deveria haver uma natureza excelente; se existe uma alma superior à alma, deveria haver uma alma excelente. E se do mesmo modo existe um animal superior, deveria haver um animal poderosíssimo. Pois esses raciocínios não procedem por natureza ao infinito. Portanto, assim como a natureza não pode aumentar, pelo critério de superioridade, até o infinito, nem o pode a alma, tampouco o animal.

 §89 Entretanto de fato um animal é superior a outro, por exemplo o cavalo à tartaruga, e o touro ao asno e o leão ao touro. O ser humano se eleva e predomina sobre quase todos os animais terrestres seja pelas disposições corporais seja pelos anímicas. Nesse sentido seria o animal mais poderoso e o melhor.

§90 Todavia o ser humano não pode ser o mais poderoso em sentido absoluto, por exemplo constantemente porque todo o tempo é frequente no vício, e se não todo, a maior parte dele (pois também se alguma vez conquistaria a virtude , seria tardiamente , e a conquista próximo ao ocaso da vida). Ele é perecível e débil, precisando de mil auxílios, tais como de comida e de roupas e dos demais cuidados corporais, essa espécie de tirano amargo que nos é imposto e cobrando dia após dia seu tributo, e se não o provemos sob forma de banhos e ungüentos e vestimentas e alimentos, é ameaçado pelas doenças e pela morte. Desse modo o ser humano não é perfeito, é imperfeito e distando muito da perfeição.

§91 O animal perfeito e excelente seria superior ao homem e abundaria em todas as virtudes e não albergando nenhum dos vícios. Mas isso não diferirá de deus. Há, portanto, deus.}}\\°° 

Crítica:

Essa prova da existência de deus elimina os deuses do politeísmo que são dependentes de muitas coisas e não são perfeitos. Se de fato essa prova foi escrita por Cleantes ele deveria se referir a deus como a parte RACIONAL do universo, a menos que negasse o panteísmo testemunhado de todas as fontes que o cita.  

Vejamos abaixo:

Origem da crença nos deuses segundo Cleantes citado por Cícero

Cicero. ND 3.16.1-7 Pearson C 52b; SVF 1.528b; Watanabe f 49(a²) 




ʬ pois Cleantes, como dizias, considera que as noções de deuses eram formadas na mente dos homens de quatro maneiras. Uma maneira é – a respeito dela falei bastante – pelo reconhecimento a partir do pressentimento das coisas futuras. Outra a partir dos temores causados pelas tempestades e outras intempéries. Terceira a partir dos benefícios e da abundância de recursos que constatamos. Quarta a partir da ordem dos astros e da constância do céu. ʬ \\ °°



Deus citado por Diógenes Lucrécio segundo Cleantes

 DL 7.135.9-136.1 SVF 1.102b; 2.580; LS 46B; BS 15.3; ad SVF Cleanthis physicam et theologiam (9)

// // [[ {{ São um o deus, a inteligência, o destino e Zeus; e com muitas outras denominações é denominado. §136 No começo ele existe por si mesmo; ele fez toda a substância transformar-se em água, passando pelo ar. E assim como na geração dos seres vivos a semente é esparsa em um meio úmido, do mesmo modo deus, que é a razão seminal do universo, deixando para trás no úmido, é agente que adapta a matéria a seus desígnios em prol da etapa seguinte da criação. Então ele gerou primeiramente os quatro elementos, fogo, água, ar e terra. ]] Zenão os discute em seu “Sobre o Todo” \\, assim como Crisipo no primeiro livro de sua “Física” e como Arquedemo em seu “Sobre os elementos”. Um elemento é o item primeiro a partir do qual cada coisa vem a ser, e o último em que cada uma se resolve.

§137 A junção dos quatro elementos constitui a substância não qualificada, a matéria. O fogo é o quente, a água, o úmido, o ar é o frio, a terra, o seco. Com efeito essa mesma parte, ou seja o seco, também está no ar. O fogo está, portanto, no local mais elevado, o qual é chamado “éter” também, no qual a primeira esfera das estrelas fixas foi gerada. Em seguida vem a esfera dos planetas. Depois está a camada de ar, então a água, e sob todas elas sedimentada a terra, que está no centro.. \\ }}


Deus/panteísmo citado por Cícero segundo Cleantes

Cic. ND 1.36.6-41.9 Pearson C 14b, 15a,16b, 17, 46; SVF 1.530, 1.531b, 1.532b, 1.534a; LS 54B; Watanabe f 51A; BS 17.1

… {{ porém em outro lugar (Zenão diz que o éter é deus: se é que se pode compreender um deus sem sensação, que nunca se apresenta a nós nem com preces, com súplicas ou votos. No entanto, em outros livros ele acredita que uma certa razão, que permeia toda a natureza, é tocada por uma força divina. Ele mesmo atribui a mesma coisa aos astros, depois aos anos, meses, às estações dos anos. Na verdade, quando interpreta a Teogonia , ou seja, a “origem dos deuses” , de Hesíodo, rejeita totalmente os conhecimentos usuais e concebidas dos deuses. Pois ele não admite no grupo dos deuses nem Júpiter, nem Juno, nem Vesta, nem qualquer dos que são denominados assim, senão que ensina serem esses nomes atribuíveis a coisas inanimadas e carentes de linguagem em  §37 virtude de seu significado. O pensamento de seu discípulo Aríston não se vê longe de um enorme equívoco, pois ele estima que não se pode inteligir a forma de deus e nem admite haver sensação nos deuses e duvida absolutamente se deus é animado ou não. °° // ʬCleantes, porém, que foi discípulo de Zenão, pensa o mesmo que esse que acabei de nomear (Aríston). Então diz que o universo mesmo é deus, °° °°// depois atribui esse nome à mente e à alma de toda a natureza, \\ºº °°// em seguida julga ser deus indubitável o ardor mais elevado e alto, por toda parte difundido e extremo, abrangendo e abraçando todas as coisas, a que se denomina 'éter'; \\°° °° de mesmo modo como que delirando em seus livros, os quais escreveu contra o prazer, então inventa uma forma e aspecto dos deuses, então atribui a absoluta divindidade aos astros, °° // por fim acredita não haver nada mais divino do que a razão.\\ \\ °° °° E assim se faz com que desapareça por completo aquele deus, a quem conhecemos com a mente e queremos que corresponda na alma a uma noção tal qual um vestígio.ʬ 

§38 E Perseu, por sua vez outro ouvinte de Zenão, (diz que) são considerados deuses aqueles graças a quem alguma grande utilidade para o aprimoramento da vida é descoberta, e que as próprias coisas úteis e salutares são chamadas com nomes divinos, de modo a não dizer nem que elas são descobertas divinas, senão que são elas mesmas divinas. Mas o que haveria de mais absurdo do que conceder honras divinas a coisas sórdidas e deformadas ou fazer corresponder a deuses os homens já desaparecidos pela morte, cujo culto típico se consumaria em um

§39 funeral? Pois bem Crisipo, que dentre estóicos é considerado o intérprete dos sonhos mais sagaz, amontoa uma grande turba de deuses desconhecidos, e tão desconhecidos que nem sequer uma conjectura podemos formular, ao mesmo tempo em que nossa mente é capaz de reproduzir pelo pensamento o que quer que ela veja. [[Com efeito, ele afirma estar a força divina na razão e na alma e mente da natureza universal. Ele diz que deus é o próprio mundo e a difusão universal de sua alma. Depois (ele diz) que é seu próprio hêgemonikón, natureza comum e universal das coisas e abrangendo tudo, pois (ele) opera na mente e na razão. Em seguida, (que deus é) o vulto do destino e a necessidade das coisas futuras. Além disso ele vê como ígneo o éter de que falei antes, e também aquelas coisas que por natureza fluem e manam, por exemplo tanto a água, como a terra, como o ar, o Sol, a Lua, as estrelas e o conjunto das coisas no qual todas elas estão contidas, assim como aqueles homens que conseguiram atingir §40 a imortalidade. ]] 

 

Igualmente argumenta que o que os homens chamam de Júpiter é o éter, e que Netuno é o ar que se difunde através do mar, a terra é o que se dirá “Ceres”, com uma razão semelhante ele investiga os nomes dos demais deuses. Igualmente ele diz ser Júpiter a força da lei perpétua e eterna, a qual é como um guia da vida e uma mestra para as ações devidas, a essa ele chama também de “necessidade do destino” e “sempiterna verdade das coisas futuras”. Dessas coisas nenhuma é tal que pareça possuir a força divina

§41 inerentemente. E esse é de fato o assunto no primeiro livro “Sobre a natureza dos deuses”, no segundo, por outro lado, deseja tornar compatíveis os cantos de Orfeu, Museu, Hesíodo e Homero e as doutrinas que ele mesmo apresentara no primeiro livro sobre os deuses imortais, de modo que os poetas mais antigos – que decerto não teriam a menor supeita do que ele tratava – parecessem estóicos. Diógenes da Babilônia, seguindo essa mesma trilha, no livro que escreveu “Sobre Minerva” separa do mito o parto de Júpiter e o nascimento da virgem, transferindo (o assunto) ao estudo da fisiologia. }}

Hino a Zeus de Cleantes

Ó mais glorioso dos imortais, deus de muitos nomes e sempre poderoso,
Zeus, senhor da natureza, que tudo governas com leis,
salve! Pois a todos os mortais é lícito falar-te.

Em ti está a nossa origem; a sorte de ser a imagem de um deus,
só a nós coube, entre tantos seres mortais que vivem e rastejam sobre a terra.
Por isso te entoarei um hino e cantarei sempre o teu poder.

A ti obedece todo este mundo que gira em torno da Terra,
por onde quer que o leves, e de boa mente te é submisso.
Seguras nas invictas mãos, como teu servidor,
o raio incandescente e de dois gumes, sempre vivo.

Sob o seu impulso, caminha toda a obra da natureza:
com ele diriges a tua Palavra universal, que passa através de tudo,
misturando-se com o astro luminoso maior, e também com os menores.

Não se faz sobre a terra obra alguma sem ti, ó deus,
nem sobre o etéreo pólo divino, nem sobre o mar,
excepto os actos dos malvados na sua demência.

Mas tu sabes ajustar mesmo o que é discordante
e ordenar o que é caótico, e ódio em ti é amor.
E assim harmonizaste tudo o que é nobre com o que é vil, numa só unidade,
de modo a originar uma Palavra eterna de tudo,

a que fogem aqueles dos mortais que são inferiores,
insensatos, sempre a almejar a posse do bem,
sem verem nem atenderem à lei universal do deus,
em cuja obediência seriam connosco felizes.

São eles mesmos, insensatos, que se precipitam cada um para seu mal,
uns com uma pressa funesta de alcançar fama,
outros voltados para a ganância desordenada,
outro ainda para a licença e os doces prazeres físicos;

procedem sem pensar, arrastados de um lado para o outro,
apressando-se com vigor para que suceda o contrário dos teus desejos.
Mas ó Zeus remunerador de tudo, senhor das nuvens negras e do raio coruscante,
salva os homens da funesta ignorância,

sacode-a, ó pai, da sua alma, concede-lhes que obtenham
a sabedoria com cujo apoio tudo governas com justiça,
a fim de que, honrados, te correspondamos com honra,

cantando sem cessar as tuas obras, como cumpre
a um mortal, já que, nem para homens nem para deuses,
há maior honra do que celebrar sempre a tua lei universal.

( Hélade, 8ªedicao, Edições Asa, 2003.)



"a atribuição de epítetos ao deus endereçado pelo hino é comum é esperada, isso está de acordo com a doutrina estóica, que de fato considerava que Zeus tivesse muitos nomes, como diversos aspectos seus. Isso é o que o texto de DL 7.147 (= SVF 2.102; Ad SVF Cl.phys.theo10) relata, qualificando os distintos usos que os estóicos faziam do nome de deus. - Cf. Arist. Mund. 401a12,14; Corn.TGC 9.1-11.3. Cleantes de Assos, uma introdução com tradução e notas . Danilo Costa. Versão corrigida São Paulo 2020

Árato

"Arato é um escritor filo-estoico, cuja formação se deu em Atenas no Liceu e no Pórtico.Arato é um poeta em atividade na corte de Antígono, em Pela. Seu poema certamente foi lido na escola. Dionísio trânsfuga imita seu estilo (DL 7.166). Ambos os poemas encerram pontos de doutrina estoica: a tensão entre politeísmo e monoteísmo, resolvida com a noção de que Zeus é a divindade que comanda tudo e tem muitos aspectos234   

Ambos os poemas, de formas diferentes, propõem a confluência em um único deus de todos os atributos e competências cosmológicos. Primeiramente, um deus que está em todas partes Há menção explícita aos sinais enviados por ele aos seres humanos, e há a noção, comum aos dois poemas, de que o homem pertence ao mesmo gênero de Zeus, “Τοῦ γὰρ καὶ γένος εἰμέν.” (Arat. v.5) versus “ἐκ σοῦ γὰρ γενόμεσθα” (SVF 1.537 v.4). Mais do que uma interlocução, tais elementos credenciam Arato como filo-estoico que exprime o conceito de deus da escola, ainda que sem o vocabulário heraclitiano de Cleantes, ...." Cleantes de Assos, uma introdução com tradução e notas . Danilo Costa. Versão corrigida São Paulo 2020


"Por Zeus principiemos , a quem os mortais nunca deixamos inominado .
Providas de Zeus estão todas as vias e todos os humanos rossios, providos também mar e portos ; em todas as horas, Zeus demandamos todos.

Pois somos também sua progênie .

Ele paternal aos homens  dá sinais direitos, para o trabalho alevanta as gentes lembrando-lhes do pão, conta quando o torrão está nas melhores horas para bois e arados, conta quando são as estações direitas tanto para se fincarem mudas quanto para as sementes todas se lançarem à terra.

Ele mesmo, pois, os sinais firmou no céu , separando-os em constelações, e previu para a passagem anual estrelas que para os homens dessem sinais das estações sobremaneira  (Hino a Zeus- Fenômenos- Arato)

 

Comparação do Hino de Cleantes e Árato

"Por Zeus comecemos, que os homens nunca deixamos inominado. Providos de Zeus todos os caminhos e estão todos os foros humanos, e provido é o mar e portos; a todo momento, Zeus demandamos todos. (...) Com efeito, ele firmou os sinais no céu separando constelações, previu para a passagem anual estrelas, e as mais fornidas sinalizassem aos homens as estações, de modo que tudo cresça como de raízes. Por isso a ele sempre ofertamos do princípio ao fim." (Fenômenos, v. 1-4; 10-14 Árato)  Cleantes de Assos, uma introdução com tradução e notas . Danilo Costa. Versão corrigida São Paulo 2020

 Gloriosíssimo entre os imortais, de muitos nomes, onipotente sempre (...) Por isso te comporei um hino e tua potência sempre canto. (...) Nenhuma obra acontece sobre a terra sem ti, nume, /Nem na esfera celestial divina, nem no oceano,(...) Todavia tu tens a ciência de os ímpares arrumar em pares /E ordenar o desordenado, e o não amado para ti é amado/ Pois assim harmonizaste tudo no Uno, (...)/ De modo que a razão una e sempiterna de tudo vem a ser,/ Dela fugindo a abandonam, quantos são os maus entre os mortais, /Malfadados, eles almejam sempre a aquisição de bens, /E não enxergam a lei comum de deus, nem a escutam, /Se a obedecessem, teriam uma vida boa, com inteligência. (Hino a Zeus, v. 1, 6, 15-16, 18-25)... Cleantes de Assos, uma introdução com tradução e notas . Danilo Costa. Versão corrigida São Paulo 2020

Ambos os poemas, de formas diferentes, propõem a confluência em um único deus de todos os atributos e competências cosmológicos. Primeiramente, um deus que está em todas partes Há menção explícita aos sinais enviados por ele aos seres humanos, e há a noção, comum aos dois poemas, de que o homem pertence ao mesmo gênero de Zeus, “Τοῦ γὰρ καὶ γένος εἰμέν.” (Arat. v.5) versus “ἐκ σοῦ γὰρ γενόμεσθα” (SVF 1.537 v.4) Cleantes de Assos, uma introdução com tradução e notas . Danilo Costa. Versão corrigida São Paulo 2020



Thom reconhece dois tipos de oração consistente com o sistema estóico: (1) uma ação de graças pelo benefício divino, e (2) uma oração “para afirmar a submissão da pessoa sábia ao vontade divina”, conforme encontrado na Oração do próprio Cleantes a Zeus e Destino (SVF 1.527). (26) Thom, no entanto, afirma que o resultado final oração do Hino representa um terceiro tipo, que enfatiza o teísta sobre os aspectos panteístas do Hino: “a oração . . . pertence a um terceiro tipo, ou seja, uma oração petitória com um pedido a Deus para ajudar os seres humanos a superar sua falta de insight e a concomitante falha em fazer a moral correta escolhas. Nesse caso, Cleanthes se volta para uma força superior, fora dele mesmo, para ajudar. Há uma sensação de que o deus imanente é idêntico ao cosmos, de uma forma que transcende o racional elemento dentro dos seres humanos, e assim ele é capaz de vir até eles em assistência.    J.C. THOM, Cleanthes’ Hymn to Zeus. Text, Translation, and Commentary. (Studien und Texte zu Antike und Christentum 33), Tübingen: Mohr Siebeck, 2005, 207pp., ISBN 3-16-148660-9.  ALBERT WATANABE - Louisiana State University - awatan@lsu.edu




Essa impressão de Zeus é fortalecida pelo tradicional,  caráter não técnico do Hino. Pouca terminologia técnica é usada que seja demonstrável Estóico. Existem apenas dois termos estóicos, a saber, o 'universal razão' (kosmos logos) no v. 12, e a 'lei universal' (kosmos nomos v6~ov) nos vv. 24 e 39 (as outras ocorrências de logos e nomos nos vv. 2 e 21 não precisam ser interpretado em um sentido estóico). Além disso, há apenas uma frase que é reconhecidamente estóica, ou seja, a qualificação da razão universal no vv. 12- 13 como 'permeando tudo' (dia panton fonta). Isso não significa, claro , que o hino é desprovido de quaisquer outras ideias estóicas, mas poderia ser entendido sem conhecimento especializado do estoicismo. Muito no poema pode de fato ser interpretado em dois níveis diferentes, como material tradicional, ou como uma expressão do pensamento estóico. Vejamos alguns dos mais relevantes exemplos....

 Em termos da lógica de um sistema panteísta estrito, um estóico deveria não precisa rezar: tem acesso direto a Deus dentro de si, já que sua a razão participa do logos divino. Por meio de sua razão, ele participa da divino e não necessita de nada fora de si mesmo, fato que contribui à auto-suficiência do sábio estóico. O fato de que Deus é identificado com o destino, além disso, parece impedir a oração, pois como pode a oração mudar isso? que é predeterminado pela própria estrutura do mundo? Na prática, no entanto, as posições estóicas sobre a oração são muito mais diversas e até contraditórias. Nas palavras de Marcel Simon, 'a oração estóica é um paradoxo, mas uma realidade'.54 Sêneca e Cleantes são algumas vezes citados como representantes de uma uma abordagem 'estrita' e 'mais liberal' da oração,55 mas mesmo Sêneca às vezes é bastante positivo sobre o valor da oração. 56

DOING JUSTICE TO ZEUS: ON TEXTS AND COMMENTARIES. Johan C. Thorn. University of Stellenbosch.


 Oração a Deus e ao destino de Cleantes, citado por Epicteto

 Epict. Ench. 53 Pearson C 91a; SVF 1.527a; LS 62B; Watanabe f 47 (a¹)
ʬEm todas as ocasiões é bom ter à mão estas palavras: °° // [[ Guia-me, ó Zeus, e tu destino também, Aonde quer que eu seja disposto por vós, que seguirei preste; se acaso eu não quiser |5| vindo a ser mau, não menos seguirei. ]] \\ °
Paulo citando a poesia estoica:
Paulo tem diante de si 3 grupos:
  • Os idólatras que eram politeístas
    Os epicureus que acreditavam que os deuses existiam mas não se relacionavam com o mundo, alé disso eram aniquilacionistas e não acreditavam a ressurrreição do corpo. Acreditavam no acaso
    Os estóicos eram panteístas e engavam a transcendência
    Paulo cita uma poesia estoica o que contradiz as crenças politeístas e epicuristas



        Atos 17:16 Enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espírito se revoltava em face da idolatria         dominante na cidade.
Atos 17:17 Por isso, dissertava na sinagoga entre os judeus e os gentios piedosos; também na praça, todos os dias, entre os que se encontravam ali.
18 E alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendiam com ele, havendo quem perguntasse: Que quer dizer esse tagarela? E outros: Parece pregador de estranhos deuses; pois pregava a Jesus e a ressurreição.
19 Então, tomando-o consigo, o levaram ao Areópago, dizendo: Poderemos saber que nova doutrina é essa que ensinas?
20 Posto que nos trazes aos ouvidos coisas estranhas, queremos saber o que vem a ser isso.
21 Pois todos os de Atenas e os estrangeiros residentes de outra coisa não cuidavam senão dizer ou ouvir as últimas novidades.
22  Então, Paulo, levantando-se no meio do Areópago, disse: Senhores atenienses! Em tudo vos vejo acentuadamente religiosos;
23 porque, passando e observando os objetos de vosso culto, encontrei também um altar no qual está inscrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Pois esse que adorais sem conhecer é precisamente aquele que eu vos anuncio.
24 O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas.
25 Nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais;
26 de um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação;
27 para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós;
28 pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele também somos geração.
29 Sendo, pois, geração de Deus, não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro, à prata ou à pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem.
30 Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam;
31 porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos.
32 ¶ Quando ouviram falar de ressurreição de mortos, uns escarneceram, e outros disseram: A respeito disso te ouviremos noutra ocasião.
33 A essa altura, Paulo se retirou do meio deles.
34 Houve, porém, alguns homens que se agregaram a ele e creram; entre eles estava Dionísio, o areopagita, uma mulher chamada Dâmaris e, com eles, outros mais.
1 ¶ Depois disto, deixando Paulo Atenas, partiu para Corinto.

"Os estóicos, assim chamados da Stoa Pæcile em Atenas, onde Zenão de Citium, o fundador da escola, 340–260 aC, conheceu seus alunos e onde seus sucessores debateram , falavam em sua teologia de uma providência governando o mundo, de uma causa primeira e de uma mente governante. Mas seu credo era essencialmente panteísta, embora os versos do Hino de Cleanto (“o documento mais importante da teologia estóica”, Ueberweg) parecessem exalar os sotaques de uma crença mais elevada e nobre. Mas nenhuma frase devocional poderia disfarçar um panteísmo que considerava o mundo como o corpo de Deus, e Deus como a alma do mundo,  e que sustentava que, além da natureza externa, o Deus Supremo não tinha existência, ele era identificado com o destino e a necessidade, enquanto o a história do universo foi uma desdobramento da providência de Deus, mas uma providência que era apenas outro nome para a cadeia de causalidade e consequências, inviolável, eterna.

 

...Ao se dirigir a uma audiência composta em todos os eventos em parte pelos representantes dessas duas grandes escolas filosóficas, pode-se dizer que São Paulo não esqueceu seu próprio treinamento anterior no lar primitivo do estoicismo (ver na p. 235). E assim, ao falar da criação e da providência, da unidade das nações no reconhecimento de tudo o que era verdadeiro mesmo no panteísmo, São Paulo foi descrito como tomando o lado estóico contra os epicuristas, ou pelo menos podemos dizer que ele em seu discurso afirma contra alguns dos erros cardeais dos epicuristas o poder criativo e superintendente de Deus  Expositor's Greek Testament

O texto bíblico combate as doutrinas estoicas ao falar de :

  • Um Deus pessoal
  • Um Deus que criou o Universo e é distinto dele
  • Um Deus que criou o homem e é distinto dele. Ou seja, somos geração no sentido de sermos criaturas e não no sentido de sermos da mesma substãncia ou essencia como no estoicismo
  • Um Deus que exige arrependimento
  • Um Deus que julgará o homem e que portanto haverá outra vida
  • Um Deus enviou um homem como mensageiro, foi morto e ressuscitou

A criação do homem segundo a mitologia grega

versão 1: A criação partiu dos deuses.

A criação do homem segundo  Protágoras de Platão:

 

 320d - Era uma vez... Existiam somente os deuses e não havia ainda as raças mortais. Quando chegou, então, o momento destinado a o seu nascimento, os deuses modelaram-nas, no interior da terra, misturando terra e fogo e os elementos que com estes se combinam. Quando estavam prontas para ser conduzidas para a luz do dia, os deuses encarregaram Prometeu e Epimeteu de as organizar e de atribuir a cada uma capacidades que as distinguissem. Epimeteu pediu, então, a Prometeu que o deixasse fazer essa distribuição. «Depois de eu a ter feito», disse, «tu passas-lhes uma revista». 320e E assim, depois de o ter convencido, começou: atribuiu força aos que não tornara rápidos e dotou com rapidez os mais fracos; armou uns e para aqueles a quem dera uma natureza sem armas inventou qualquer outro meio que assegurasse a sua sobrevivência; àqueles que contemplou com a pequenez, deu-lhes a possibilidade de fugirem voando ou uma habitação subterrânea, e aos que fez grandes em tamanho salvou-os com essa mesma atribuição. 

321 De modo igualmente equilibrado distribuiu também as restantes qualidades. E fez tudo com cautela, para que nenhuma espécie se extinguisse. Depois de lhes dar os meios necessários para que não se destruíssem uns aos outros, arranjou maneira de os proteger contra as estações enviadas por Zeus, cobrindo-os com pêlos abundantes e carapaças grossas, suficientes para se defenderem do inverno e eficazes para o fazerem do sol escaldante, e que constituem, para cada um, o seu aconchego natural, quando decidem deitar-se. 

321b Calçou uns com cascos e outros com couro grosso e sem sangue. Em seguida, providenciou diferentes alimentos para as diferentes espécies: para uns, os pastos da terra; para outros, ainda, os frutos das árvores; para os restantes, raízes. A alguns destinou que fossem alimento de outras espécies; a estas últimas deu pequenas ninhadas, enquanto que às que lhe servem de alimento deu a fecundidade, providenciando assim a salvação da sua espécie. 

321c Deste modo, Epimeteu — que não era lá muito esperto — esqueceu-se que gastara todas as qualidades com os animais irracionais; fora desta organização, restava-lhe ainda a raça dos homens e sentia-se embaraçado quanto ao que fazer. Estava ele nesta aflição, chega Prometeu para inspeccionar a distribuição e vê que, enquanto as 18 outras espécies estão convenientemente providas de tudo quanto necessitam, o homem está nu, descalço, sem abrigo e sem defesa. E já estava próximo o dia marcado, em que era preciso que também o homem saísse do interior da terra para a luz do dia. 

321d Sem encontrar qualquer outra solução para assegurar a sobrevivência do homem, Prometeu, roubou a sabedoria artística de Hefesto e Atena, juntamente com o fogo — porque sem o fogo era-lhe impossível possuí-la ou torná-la útil — e, assim, ofereceu-a ao homem. Com ela, este tomou posse da arte da vida, mas não da arte de gerir a cidade, pois esta estava junto do próprio Zeus. Já não fora possível a Prometeu entrar na morada de Zeus, na acrópole — para mais que os guardas de Zeus eram terríveis —, mas entrara, sem ser visto, na sala partilhada por Hefesto e Atena, 

321e na qual ambos se dedicavam às suas artes, e roubara a arte do fogo a Hefesto e as outras artes a Atena, para as dar ao homem, que delas retirou os meios necessários à vida. 

322 Mas, no fim, por culpa de Epimeteu — é o que dizem — a justiça perseguiu Prometeu por causa deste roubo. Deste modo, o homem participava da herança divina e, devido ao parentesco com os deuses, foi o único dos animais a acreditar neles. Assim, começou a construir altares e imagens suas. Depois, rapidamente dominou a arte dos sons e das palavras e descobriu casas, vestuário, calçado, abrigos e os alimentos vindos da terra. 

322b Assim providos, inicialmente, os homens viviam dispersos e não havia cidades. Mas viam-se destruídos pelos animais selvagens, pois eram mais fracos que eles em todos os sentidos. A arte que dominavam era lhes suficiente na procura dos alimentos, mas ineficaz na luta com as feras — com efeito, faltava-lhes a arte de gerir a cidade, da qual faz parte a arte da guerra. Procuraram, então, associar-se e proteger-se, fundando cidades. Só que, ao associar-se, tratavam-se injustamente uns aos outros, já que não possuíam a arte de gerir a cidade. De modo que, novamente dispersos, se iam destruindo... 

322c Zeus, então, inquieto, não fosse a nossa espécie desaparecer de todo, ordenou a Hermes que levasse aos homens respeito e justiça, para que houvesse na cidade ordem e laços que suscitassem a amizade. Hermes perguntou a Zeus de que modo haveria de dar aos homens justiça e respeito: «Distribuo-os do mesmo modo que, no início, foram distribuídas as outras capacidades? As outras ficaram assim repartidas: um médico é suficiente para muitos leigos e o mesmo acontece com os outros especialistas. Atribuo, também, justiça e respeito aos homens deste modo, ou distribuo-os por todos?» 

322d «Por  todos — respondeu Zeus — e que todos partilhem desses predicados, porque não haverá cidades, se somente uns poucos partilharem deles, como o fazem dos outros. Estabelece, pois, em meu nome, uma lei que extermine, como se se tratasse de uma peste para a cidade, todo aquele que não for capaz de partilhar de respeito e de justiça.» Deste modo e por este motivo, Sócrates, quer os outros povos quer os Atenienses, quando o discurso é na área da arte da carpintaria ou de outra qualquer especialidade, consideram que só a alguns  compete uma opinião. 

322e E se alguém, fora desses poucos, se pronuncia, não aceitam, tal como tu dizes — e com muita razão, repito eu —; porém, quando procuram uma opinião a propósito da arte de gerir a cidade, 

323 em que é preciso proceder com toda a justiça e sensatez, com razão a aceitam de qualquer homem, pois a qualquer um pertence partilhar efectivamente desta arte ou não haverá cidades. Neste facto reside, Sócrates, a razão do que perguntas. Mas, para que não consideres que te estás a iludir, pensando que é por ser assim que todas as pessoas crêem que qualquer homem partilha quer da justiça quer das restantes qualidades políticas, " Protágoras- Platão

Versão 2: A criação do homem segundo Hesíodo- "Os trabalhos e os dias"

O homem atual seria criado por Zeus segundo fica subentendido:

"O mito das cinco raças.

 Mas se queres te farei em resumo outro relato, bem e habilmente narrado, e tu coloca-o no teu espírito: como nasceram da mesma fonte os deuses e os humanos perecíveis.14 Primeira de todas entre os humanos de fala articulada, fizeram os imortais que têm moradas olímpias uma raça de ouro. (110)

 Eles existiram no tempo de Crono, quando este reinava no céu; como deuses viviam, o coração sem cuidados, sem contato com sofrimento e miséria. Em nada a débil velhice estava presente, mas, sempre iguais quanto aos pés e às mãos, alegravam-se em festins, fora de todos os males,                                (115) 

e morriam como que vencidos pelo sono. Tudo o que é bom possuíam: a terra fecunda produzia seu fruto espontaneamente, muito e de bom grado. Eles, voluntária e tranquilamente repartiam os 
trabalhos,15 tendo bens abundantes. {Ricos em rebanhos, eram queridos dos deuses (120)
bem-aventurados.} Mas desde que a terra encobriu essa raça, eles são divindades pela vontade de Zeus grande, nobres, terrestres, guardiões dos humanos perecíveis;
{eles vigiam as sentenças e as cruéis ações, vestidos de bruma, vagando por toda a terra,}
distribuidores de riquezas: obtiveram esse privilégio de reis. Então uma segunda raça, e muito pior,
depois fizeram os que têm moradas olímpias, a de prata, (125)
que não se assemelhava à de ouro nem em corpo nem em pensamento. Mas o filho junto à mãe querida por cem anos era nutrido, um grande tolo brincando em sua casa ( 130)
Mas quando tornavam-se adolescentes e alcançavam a flor da idade, viviam por pouco tempo, padecendo dores com sua insensatez, pois não podiam conter uma presunçosa insolência uns para com os outros, nem queriam servir aos imortais (135)
nem sacrificar nos santos altares dos bem-aventurados, como é justo para os humanos, conforme os costumes. Depois Zeus filho de Crono, encolerizado, escondeu-os, porque não honravam os deuses bem-aventurados que habitam o Olimpo. Mas desde que a terra encobriu também essa raça, (140)
eles são chamados bem-aventurados mortais subterrâneos, secundários, mas de qualquer modo também acompanhados de honra. E Zeus pai uma outra raça de humanos de fala articulada, a terceira, de bronze fez, em nada igual à de prata, mas nascida de freixos, terrível e vigorosa; 145)
eles se ocupavam dos funestos trabalhos de Ares e de violências, e trigo não comiam, mas tinham um coração impetuoso, de aço. Eram toscos; grande força física e braços invencíveis cresciam de seus ombros sobre um corpo robusto. Suas armas eram de bronze, de bronze suas casas, (150)
trabalhavam com bronze: negro ferro não existia. Vencidos por suas próprias mãos, desceram à mansão bolorenta do gélido Hades, anônimos: também a eles, embora espantosos, a morte negra os conquistou, e deixaram a esplendente luz do sol. (155)

Mas quando a terra encobriu também essa raça, de novo ainda outra, a quarta sobre a terra que muitos nutre, Zeus filho de Crono fez, mais justa e valorosa, a raça divina dos homens heróis, que são chamados semideuses, a geração anterior à nossa na terra imensurável.(160)
Esses, destruíram-nos a guerra má e o combate medonho, uns sob as muralhas de Tebas de sete portas, terra de Cadmo, quando lutavam pelos rebanhos de Édipo; outros, levando-os em naus sobre o grande abismo do mar, para Troia, por causa de Helena de coma adorável.(165)

Lá o termo da morte envolveu, sim, alguns deles; a outros, conferindo-lhes vida e moradia à parte dos humanos, Zeus pai, filho de Crono, estabeleceu-os nos limites da terra (168) E eles, o coração sem cuidados, habitam as ilhas dos bem-aventurados, junto ao Oceano de fundos redemoinhos, (170) afortunados heróis, para quem um fruto doce como o mel, que floresce três vezes ao ano, a terra fecunda traz.

Longe dos imortais sobre eles reina Crono. (173a)
{Pois o próprio] pai de deuses e [homens] libertou[-o,(b)
e agora, já] com eles, tem honra, como [convém. (c)
Então Zeus] fez outra raça [de humanos de fala articulada, (d)

da daqueles que hoje] têm nascido sobre [a terra que muitos nutre.} (e)

Que eu não mais fizesse parte então da quinta raça de homens, mas tivesse morrido antes ou nascido depois. Pois a raça agora é bem a de ferro. Nem de dia terão pausa da fadiga e da miséria, nem à noite deixarão de se consumir: os deuses lhes darão duras preocupações. Mas mesmo para tais homens hão de se misturar bens aos males. Zeus destruirá também essa raça de humanos de fala articulada, quando acabarem nascendo já com as têmporas grisalhas. Nem o pai será concorde com os filhos, nem os filhos com o pai, nem hóspede com anfitrião, nem companheiro com companheiro; nem um irmão será querido, tal como era antes...

{ }indicam texto que se considera suspeito indicam texto não atestado em manuscritos, mas acrescentado pelo editor 

[ ] indicam texto perdido no manuscrito; é reconstrução hipotética todo texto que estiver entre colchetes ou na direção do qual se abrir um colchete " Teogonia- A Origem dos Deuses