Tales de Mileto (fim do VII - primeira metade do séc. VI a.C.)(CERCA DE 625/4-558 A.C.)
"A. MAIOR PARTE DOS primeiros filósofos considerava como os únicos princípios de todas as coisas os que são da natureza da matéria. Aquilo de que todos os seres são constituídos, e de que primeiro são gerados e em que por fim se dissolvem, enquanto a substância subsiste mudando-se apenas as afecções, tal é, para eles, o elemento (stokheion), tal é o princípio dos seres; e por isso julgam que nada se gera nem se destrói, como se tal natureza subsistisse sempre... Pois deve haver uma natureza qualquer, ou mais do que uma, donde as outras coisas se engendram, mas continuando ela a mesma. Quanto ao número e à natureza destes princípios, nem todos dizem o mesmo. Tales, o fundador de tal filosofia, diz ser água (é por este motivo também que ele declarou que a terra está sobre água)..." ARISTÓTELES, Metafísica, I,
- Tales percebeu que todas as coisas que ele observou nesse mundo apresentam-se em tamanhos, formas e cores incontáveis, e que todos se mostram em um de três estados possíveis: líquido, gasoso ou sólido. Tales procurou um que se apresentasse nos três estados. Assim escolheu a água, que existe em forma líquida, gasosa e sólida.
- Tales notou que as coisas vivas dependem da água e não podem viver muito tempo sem ela.
- Tales encarou o problema do movimento: como se explica a origem do movimento diante da nossa noção da lei da inércia. Observando a correnteza dos rios e o movimento constante das marés, ele viu a água como candidata ideal.
Mas não se deve acreditar que a água de Tales seja o elemento fisico-químico que hoje bebemos. A água de Tales deve ser pensada de modo totalizante, ou seja, como a physis liquida originaria da qual tudo deriva e da qual a água bebemos é apenas uma de suas tantas manifestações. Tales era um "naturalista" no sentido antigo do termo e não um "materialista" no sentido moderno e contemporâneo. Com efeito, sua "água" coincidia com o divino. Desse modo, introduz-se novo conceito de Deus: trata-se de uma concepção na qual predomina a razão, e destina-se, enquanto tal, a eliminar logo todos os deuses do politeísmo fantástico-poético dos gregos
Ao afirmar posteriormente que "tudo está cheio de deuses", Tales queria dizer que tudo é permeado pelo principio originário. E como o principio originário é vida, tudo é vivo e tudo tem alma (panpsiquismo). O exemplo do imã que atrai o ferro era apresentado por ele como prova da animação universal das coisas (a força do imã é manifestação de sua alma, ou seja, precisamente, de sua vida).
Com Tales, o logos humano rumou com segurança pelo caminho da conquista da realidade em seu todo (a questão do principio de todas as coisas) e em algumas de suas partes (as que constituem o objeto das "ciências particulares", como hoje as chamamos)
(História da filosofia 1. Giovanni Reale. São Paulo: Paulus, 2007, p.19)
"Segundo a interpretação que dará Aristóteles séculos mais tarde, teria tido início com Tales a explicação do universo através da "causa material". Historiadores modernos, porém, rejeitam essa interpretação, que "aristoteliza" Tales, atribuindo-lhe preocupação de cunho metafísico. Assim, há quem afirme (Paul Tannery) que Tales foi importante apenas como introdutor na Grécia de noções da matemática oriental, que ele mesmo desenvolveu e aperfeiçoou, e de mitos cosmogônicos, particularmente egípcios, que laicizou, dando-lhe sustentação racional. Noutra interpretação (Olof Gigon), "o surgir da água" significaria um processo geológico, sem acepção metafísica: tudo estaria originariamente encoberto pela água; sua evaporação permitiu que as coisas aparecessem. Por outro lado, alguns intérpretes consideram que outra sentença atribuída a Tales — "tudo está cheio de deuses" — representa não um retorno a concepções míticas, mas simplesmente a ideia de que o universo é dotado de animação, de que a matéria é viva (hilozoísmo)." (Os pensadores pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 16)
- Tales resolveu problemas de engenharia desviando o curso de um rio.
- Elaborou um sistema para medir a altura das pirâmides do Egito baseado no movimento das suas sombras.
- Desenvolveu técnicas de navegação seguindo as estrelas
- Criou um instrumento para medir distâncias marítimas.
- Previu um eclipse solar ocorrido em 28 de maio de 585 a.C.
- Tales, portanto, fundamenta suas asserções sobre o raciocínio puro, sobre o logos; apresenta uma forma de conhecimento motivado com argumentações racionais precisas.
Tales com sua filosofia elemina os deuses do politeísmo, além das outras contribuições já citadas. Segundo Simplicio ele era ateu.
Anaximandro de Mileto (fim do VII - segunda metade do séc. Vl)

"Dentre os que afirmam que há um só princípio, móvel e ilimitado, Anaximandro, filho de Praxíades, de Mileto, sucessor e discípulo de Tales, disse que o a-peiron (ilimitado) era o princípio e o elemento das coisas existentes. Foi o primeiro a introduzir o termo princípio. Diz que este não é a água nem algum dos chamados elementos, mas alguma natureza diferente, ilimitada, e dela nascem os céus e os mundos neles contidos (…) É manifesto que, observando a transformação recíproca dos quatro elementos, não achou apropriado fixar um destes como substrato, mas algo diferente, fora estes. Não atribui então a geração ao elemento em mudança, mas à separação dos contrários por causa do eterno movimento."
“De onde as coisas se originaram, passam elas a uma outra coisa, como é ordenado, pois efetuam a reparação e a compensação mútua por suas injustiças conforme a ordem do tempo”.
O deuses gregos morriam ao contrário do princípio divino de Anaximandro,.. assim "de um só golpe é derrubada a base sobre a qual se erguiam as teogonias, as genealogias dos deuses como entendidas no sentido que as queria a mitologia tradicional dos gregos" (História da Filosofia. Giovanni Reali. Vol 1. São Paulo: Paulus, 2014, p. 32)
Anaximandro desenvolveu várias idéias que foram comprovadas pela astrofísica moderna, eliminou os deuses,mas hoje os ateus se valem da teoria do multiverso para tentar eliminar a necessidade do Deus único criador como explicação para a Sintonia Fina do Universo, que tem características semelhantes ao apeiron (incriado, imortal, infinito, imaterial, eterno, etc..), mas em oposto, um ser Pessoal. (veja nos links)
Não há somente uma designação de uma substãncia primordial, mas a eplicação de como por meio dela se produz todas as coisas. O ar rarefeito é fogo,; mas condensado em vários graus torna-se nuvens, água, terra, rochas, etc.
"Exatamente como a nossa alma (ou seja, o principio que dá a vida), que o ar, se sustenta e se governa, assim também o sopro e o ar abarcam o cosmo inteiro."
Bertrand Russel discorda:
"Anaxímenes foi mais admirado, na antiguidade, do que Anaximandro, embora hoje ocorra o contrário em quase todo o mundo civilizado. Exerceu ele grande influência sobre Pitágoras, bem como sobre as especulações filosóficas posteriores. Os pitagóricos descobriram que a terra é esférica, mas os atomistas aderiram à opinião de Anaxímenes, de que ela tem a forma de um disco." (História da Filosofia Ocidental)
Análise Cristã:
Anaxímenes, assim como seus antecessores elimina os deuses do politeísmo, designa não só uma substancia primeira, embora seja material, mas explica como a partir dela se origina todas as outras coisas, e isto foi de suma importancia para o desenvolvimento do pensamento posterior.
Os pitagóricos se espalharam pela Itália e depois para a Grécia propriamente dita. Formaram uma liga ou seita. Sofreram profunda influencia órfica especialmente na crença da transmigração das almas e corpo como prisão e por causa disso visavam em tudo ser seguidores de Deus e ter comunhão com a divindade.
O número 7 era considerado "regente e senhor de todas as coisas, deus, uno, eterno, sólido, imóvel, igual a si mesmo e diferente de todos os outros números." O sete não era gerado, e nem gerava, era imóvel
A matemática é, creio eu, a fonte principal da crença na verdade exata e eterna, bem como num mundo supersensível e inteligente. A geometria trata de círculos exatos, mas nenhum objeto sensível é exatamente circular; por mais cuidadosos que sejamos no uso de nosso compasso, haverá sempre certas imperfeições e irregularidades. Isto sugere a idéia de que todo raciocínio exato compreende objetos ideais, em contraposição a objetos sensíveis; é natural ir-se além e arguir que o pensamento é mais nobre do que os sentidos, e os objetos do pensamento mais reais do que aqueles que percebemos através dos sentidos. As doutrinas místicas quanto as relações do tempo com a eternidade são também fortalecidas pela matemática pura, porque se os objetos, tais como os números, são reais, são eles eternos, e não colocados no tempo. Tais objetos eternos podem ser concebidos como pensamentos de Deus. Daí a doutrina de Platão, de que Deus é um geômetra, e a crença de Sir James Jeans, de que Ele ama a aritmética. A religião racionalista, em contraposição à religião apocalíptica, foi sempre, de Pitágoras em diante e, principalmente, desde Platão, completamente dominada pelas matemáticas e pelo método matemático. A combinação das matemáticas e da teologia, que começou com Pitágoras, caracterizou a filosofia religiosa na Grécia, na Idade Média, e, nos tempos modernos, até Kant. O orfismo, antes de Pitágoras, era análogo às religiões asiáticas de mistérios. Mas em Platão, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, Descartes, Spinoza e Leibniz, há uma fusão íntima de religião e raciocínio, de aspiração moral a par de admiração lógica pelo que é eterno, que vem de Pitágoras, e distingue a teologia intelectualizada da Europa do misticismo mais direto da Ásia. Foi somente em época bastante recente que se tornou possível dizer-se claramente onde Pitágoras incorria em erro. Não conheço nenhum outro homem que haja exercido como ele tanta influência na esfera do pensamento. Digo-o porque aquilo que nos parece platonismo é, quando analisado, essencialmente pitagorismo. Toda a concepção do mundo eterno, revelada ao intelecto, mas não aos sentidos, deriva dele. Se não fosse por ele, os cristãos não teriam considerado Cristo como sendo o Verbo: se não fosse por ele, os teólogos não teriam procurado provas lógicas da existência de Deus e da imortalidade. Mas, em Pitágoras, tudo isso permanece ainda explícito. Como isso se tornou explícito, veremos mais adiante." (História da Filosofia Ocidental- Bertrand Russell)
Os Números não seriam algo abstrato, mas real, seriam espaciais: triangulares, quadrados, e outros.
Embora tenha contribuído para a matemática e a metafísica, Pitágoras incorreu em erros como a metempsicose, ascetismo religioso e outros, derivados do orfismo, (ver Xenófanes) e desprezo à observação (método científico).
Eis aqui algumas das regras da ordem de Pitágoras:
1. Abster-se de favas.
2. Não apanhar o que caiu.
3. Não tocar em galo branco.
4. Não partir o pão.
5. Não passar por cima de uma viga.
6. Não atiçar o fogo com ferro.
7. Não comer de uma broa de pão inteira.
8. Não apanhar uma grinalda.
9. Não sentar sobre uma medida de um quarto.
10. Não comer coração.
11. Não andar pelas estradas.
12. Não deixar que as andorinhas se aninhem no telhado da própria casa.
13. Quando se tira a panela do fogo, não deixar a sua marca nas cinzas, mas remexê-las.
14. Não olhar no espelho ao lado de uma luz.
15. Ao levantar da cama, enrolar as cobertas e alisar a marca deixada pelo corpo...
A geometria, em particular, é uma invenção grega, sem a qual seria impossível a ciência moderna. Mas, com relação às matemáticas, evidencia-se a unilateralidade do gênio grego; raciocinava dedutivamente partindo do que parecia ser evidente por si mesmo, e não dedutivamente partindo do que tinha sido observado. Seus êxitos surpreendentes no emprego deste método induziram a erro não somente o mundo antigo, mas, também, a maior parte do mundo moderno. Foi só muito lentamente que o método científico, que procura chegar aos princípios indutivamente, mediante a observação de determinados fatos, substituiu a crença helênica na dedução partindo de axiomas luminosos extraídos da mente do filósofo. Por esta razão, entre outras, é um erro tratar-se os gregos com reverência supersticiosa. O método científico, embora tenham sido eles os que primeiro o vislumbraram, é, em seu todo, alheio ao seu espírito, e a tentativa de glorificar os gregos diminuindo o progresso intelectual dos últimos quatro séculos, tem um efeito paralisador sobre o pensamento moderno. (História da Filosofia Ocidental- Bertrand Russell)Este desprezo ao método científico, muitas vezes tem levado alguns pensadores a desprezar o resultado das observações da astrofísica moderna, e suas implicações lógico-filosóficas, especialmente em relação a descoberta da natureza interdependente do tempo-espaço-matéria, e sua origem. Necessariamente a causa o espaço, tempo , matéria leva a uma causa de origem supra-sensivel, imaterial, atemporal http://lordisnotdead.blogspot.com/2015/04/prova-pelo-surgimento-do-universo.html
Xenófanes de Colófon (560-478 a.C)
Sua filosofia é de caráter teológico e cosmológico, ao passo que os eleatas, fundaram a problemática ontológica. Assim Xenófanes é hoje considerado pensador independente, tendo apenas algumas afinidades muito genéricas com os eleatas, mas certamente sem ligação com a fundação da Escola de Eléia.
“Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo o que é vergonhoso e infortunado entre os mortais: roubos, adultérios e falsidades … Os mortais julgam que os deuses são gerados como eles próprios, usam roupas e tem voz e formas como as deles … Se os bois, cavalos e leões tivessem mãos, e produzissem obras de arte como os homens, os cavalos pintariam os seus deuses com formas de cavalo, os bois com formas de boi, formando os seus corpos à imagem dos da sua própria espécie. Os etíopes fazem os seus deusesnegros e de nariz chato; os deuses dos trácios tem olhos azuis e cabelos ruivos.” Ele acreditava num Deus único, diferente dos homens em forma e pensamento, que “sem esforço movia todas as coisas pela força de sua mente”. Xenófanes zombava da doutrina pitagórica da transmigração. “Afirmam que, certa vez, ele (Pitágoras) estava passando por um lugar onde alguém maltratava um cão. “Pára, não lhe batas! É a alma de um amigo! Reconheci-o logo que lhe ouvi a voz!” Xenófanes achava que era impossível certificar-se a gente da verdade em questões de teologia. “A verdade absoluta é que não existe homem algum que saiba, ou que venha a saber, a respeito dos deuses e de todas as coisas de que falo. Sim, mesmo que, por acaso, alguém diga algo profundamente acertado, ainda assim não o saberá; não existe nada em coisa alguma, a não ser suposições.” (História da Filosofia Ocidental- Bertrand Russell)
"Aos deuses, Homero s Hesíodo atribuem tudo aquilo que para os homens é desonra e vergonha: roubar, cometer adultério, enganar-se mutuamente". Xenofanss, Fr 11 D~els-Kranz
"Um só Deus, sumo entre os deuses e os homens, nem por figura nem por pensamento semelhante aos homens". Xenofanes, Fr 23 Diels-Kronz.
"Tudo vê, tudo pensa, tudo ouve". Xenófanes. fr. 24 Diels-Kranz.
"Sem fadiga, com a força da mente faz tudo vibrar". Xenofanes, fr. 25 Diels-Kranz.
"Permaneça sempre no mesmo lugar sem de qualquer modo se mover, nem Ihe fica bem andar ora em um lugar ora em outro." Xenofones, fr. 26 Diels-Kranz
"Um deus é o supremo entre os deuses e os homens; nem em sua forma, nem em seu pensamento é igual aos mortais"
"Este um total dizia Xenófanes que era o deus, o qual ele mostra que é um por ser o mais poderoso de todos; pois se há muitos seres, diz ele, é necessário que de modo igual o poder seja de todos; mas, de todos, o mais forte e o melhor é deus". SIMPLÍCIO, Física, 22,12 ss. (DK 21 A 31).
Embora tenha sido um crítico do politeísmo, Xenófanes caiu na irracionalidade do panteísmo. Confundir o material com o imaterial, o contingente com o necessário é cair em contradições lógicas.
Heráclito viveu entre os séculos VI e V a.C., em Éfeso, na Jônia (atual Turquia)
"0 Uno, o único sábio, quer e não quer ser chamado Zeus." Não quer ser chamado Zeus se por Zeus se entende o deus de formas humanas próprio dos gregos; quer ser chamado Zeus se por esse nome se entende o Deus e o ser supremo.
Se não ouvirem simplesmente a mim, mas se tiverem auscultado (obedecendo-lhe, na obediência) o λογος [ouk emou allá tou lógou akousántas], então é um saber (que consiste em) dizer igual o que diz o λογος [homologein sophón estin]: tudo é um [Hèn Pánta]. 4 4. (Heráclito de Éfeso. Frag. 50.)
Sem inteligência, o homem tende a ficar atordoado com o logos" em todas as coisas. (Frag. 87)
O conflito (polemos) é pai de todas as coisase rei de todas as coisas; a uns põe comodeuses, a outros corno homens, torno uns escravose outros livres.0 que é oposição se concilia e das coisasdiferentes nasce a mais bela harmonia, e tudoé gerado por via de contraste..Eles [os que são ignorantes] não compreendemque aquilo que é diferente concorda consigomesmo: harmonia de contrários, como a harmoniado arco e da lira. (Fr. 51)A doença torna doce a saúde, a fome tornadoce a saciedade e a fadiga torna doce orepouso.Não conheceriam sequer o nome da justiçase não existisse a ofensa.0 caminho para cima e o caminho parabaixo são o único e mesmo caminho.
Deus é dia-noite, é inverno-verão, é guerra-paz, e saciedade-fome, e muda como o fogo quando se mistura aos perfumes e toma nome do aroma de cada um deles (fr. 67)
Existe uma sabedoria: reconhecer a inteligência (gnomen) que governa todas as coisas através de todas as coisas.
E fogo de Deus é a inteligência que sustenta e governa toas as coisas.
"Não se pode descer duas vezes no mesmo rio e não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado, pois, por causa da impetuosidade e da velocidade da mudança, ela se dispersa e se reúne, vem e vai (...) Nos descemos e não descemos pelo mesmo rio, nos próprios somos e não somos."
“O cosmos, o mesmo para todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez, mas sempre foi, é e será fogo sempre vivo, acendendo segundo a medida e segundo a medida se apagando” (fragmento 30)
Frag. 104: “Um, o saber: compreender que o pensamento (nous), em qualquer tempo, dirige tudo através de tudo”.
Frag. 108: “De todos aqueles de quem escutei as palavras, nenhum consegue esclarecer que o sábio (sophon) é algo separado de todos”.
fragmento 5: “É em vão que se purificam, aspergindo-se com sangue, como se alguém, que tivesse pisado na lama, quisesse lavar-se com lama; e fazem suas preces às imagens como se alguém pudesse falar com as paredes”.
A metafísica de Heráclito é suficientemente dinâmica para satisfazer ao mais inquieto dos modernos:
“Este mundo, que é o mesmo para todos, não foi feito nem pelos deuses nem pelos homens; mas sempre foi, é e será um Fogo eterno, com unidades que se acendem e unidades que se apagam”.
“As transformações do Fogo são, antes de tudo, os mares; e o mar é metade terra, metade turbilhão”.Em tal mundo, era de esperar-se uma transformação perpétua, e era nessa transformação perpétua que Heráclito acreditava.
Tinha, porém, outra doutrina, à qual se entregava mais do que à fluxo perpétuo: era a teoria da mistura de coisas opostas.
“Os homens não sabem — diz ele — de que maneira o que não concorda está de acordo consigo mesmo. É uma harmonia de tensões opostas, como a do arco e a lira”. Sua crença na luta está ligada a esta teoria, pois, na luta, os opostos se combinam para produzir um movimento que é harmonia. Há unidade no mundo, mas é uma unidade resultante de diversidade.
“As coisas pares são coisas inteiras e não inteiras, o unido e o separado, o harmonioso e o discordante. O uno é feito de todas as coisas, e todas as coisas provêm do uno”.
Fala, às vezes, como se a unidade fosse mais fundamental do que a diversidade:
“O bem e o mal são uma única coisa”.“Para Deus, todas as coisas são justas, boas e corretas, mas os homens consideram certas coisas erradas e outras certas”.“Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, saciedade e fome; mas Ele adota várias formas, como o fogo, que, quando é misturado a especiarias, é chamado segundo o sabor de cada uma delas”.
Não obstante, não haveria unidade, se não existissem antagonismos que combinar: “É o oposto que é bom para nós”.
Esta doutrina contém o gérmen da filosofia de Hegel, que procede mediante uma síntese de contrários.
A metafísica de Heráclito, como a de Anaximandro, é dominada por uma concepção de justiça cósmica, que impede que a luta de opostos termine com a vitória completa de uma das partes.
“Todas as coisas podem transformar-se em Fogo, e o Fogo em todas as coisas, o mesmo que a mercadoria em ouro e o ouro em mercadoria”.“O Fogo vive a morte do ar, e o ar vive a morte do Fogo; a água vive a morte da terra, a terra a da água”.“O sol não ultrapassará a sua medida; se o fizer, as Eríneas, servas da Justiça, o perseguirão”.“Devemos saber que a guerra é comum a tudo, e que a luta é justiça”.
Heráclito fala repetidamente de “Deus”, distinguindo-o de “os deuses”.
“O homem não possui sabedoria, mas Deus a possui … Deus chama ao homem criança, como o homem chama ao menino … O homem mais sábio é um macaco comparado a Deus, assim como o macaco mais belo é feio comparado ao homem”.Não há dúvida de que Deus é a encarnação da justiça cósmica. História da Filosofia (Bertrand Russel)
O Filósofo Julian Marias comenta algumas semelhanças entre Parmênides e Heráclito:
O pensamento de Heráclito, digamos, põe o foco no fugaz, no passageiro, no móvel, no que muda, na discórdia, na guerra, na pluralidade das coisas, no que flui... tudo isso, evidentemente, aparece como - e é - o reverso de Parmênides. Sim, mas não só isso, há outros conceitos no próprio Heráclito que, afinal, são parmenidianos. Há algo que é permanente e que é único, que é o que ele chama to sophon. A palavra sophos, como sabem, quer dizer sábio. Haverá uma etapa, posterior, no pensamento grego, que vai ser justamente o ideal do sábio: o sophos (o filósofo é aquele que ama a sabedoria, que busca a sabedoria; Platão dirá que nem o ignorante nem o sábio filosofam - porque um não tem consciência de que não sabe e o outro já o sabe; o filósofo é um "termo médio", é aquele que sente falta do saber e o procura). Heráclito não fala do sábio (masculino), fala de to sophon, o sábio (neutro), é um neutro e diz que é único, permanente, imutável... ou seja, atribui a to sophon os atributos do ente de Parmênides. Isto é sumamente curioso...."
Outro conceito que aparece com a unidade - e em princípio com a permanência - é o nous - um dos quatro ou cinco conceitos capitais do pensamento grego. Nous é a visão, mas com um caráter não puramente sensorial (isso é particularmente importante e também aparecerá na conferência sobre Aristóteles). Ou seja, há uma visão biológica, fisiológica, e também há uma visão intelectual - e é o sentido dominante no conceito de nous (em Anaxágoras o nous terá até umas conexões que podem ser teológicas).
Como vêem, essa contraposição entre Parmênides e Heráclito parece que tem um caráter absoluto, eu diria demasiadamente absoluto; no entanto, em última instância (sempre penso que o contrário se parece muito àquilo do que é contrário...) a atitude de Heráclito tem muito de parmenidiano ao avesso: é o reverso de Parmênides, mas conserva toda uma série de elementos, toda uma série de ingredientes do pensamento de Parmênides...
Em última análise há, de certo modo, algo de comum, algo profundamente comum entre Parmênides e Heráclito. O que acontece é que eles vêem a realidade precisamente a partir de duas perspectivas diferentes: o real está aí, está presente; Parmênides o vê por uma perspectiva e Heráclito insiste primariamente na outra: mas, naturalmente, essa realidade aparece em ambos, sob diferentes perspectivas: para Parmênides, o essencial é a unidade, a imobilidade, a perpetuidade, a consistência absoluta (evidentemente que há mudança, que há pluralidade etc. que não afeta o ente, essa consistência fundamental: será doxa, não será aletheia, será a via dos mortais...). Heráclito - outro estilo intelectual - insistirá enormemente na mudança, na pluralidade... é a perspectiva inversa, mas ao olhar a realidade, surgem os elementos de unidade, de permanência: to sophon, o nous, o comum, koinon.. Conferência do curso “Los estilos de la Filosofía”, Madrid, 1999/2000.
Fala mal de todos os seus predecessores eminentes, com uma única exceção. “Homero devia ser tirado das listas e chicoteado”. “De todos os discursos que ouvi, não há nenhum que compreenda que a sabedoria é alheia a todos”. “O conhecimento de muitas coisas não significa entendimento, pois, se assim fosse, teria ensinado a Hesíodo e a Pitágoras, a Xenófanes e a Hecateo”. “Pitágoras … considerava como sua própria sabedoria o que não era senão um conhecimento de muitas coisas e uma arte para o embuste”. A única exceção em suas sentenças condenatórias é Teutamo, que é por ele considerado como “mais importante que o resto”. Quando procuramos a razão de tal elogio, verificamos que Teutamo afirmou
que “os homens, em sua maioria, são maus”. (História da Filosofia Ocidental- Bertrand Russell)
Heráclito e a religião:
A atitude de Heráclito para com as religiões de sua época, pelo menos quanto ao que se refere à religião báquica, é grandemente hostil, mas não é a hostilidade de um racionalista científico. Tem a sua própria religião e, em parte, interpreta a teologia corrente, a fim de adaptá-la à sua doutrina, em parte a rejeita com bastante desdém. Foi chamado báquico (por Cornford), e considerado como um intérprete dos mistérios (por Pfleiderer). Não creio que os fragmentos correspondentes a este tema justifiquem esta opinião. Diz ele, por exemplo: “Os mistérios praticados entre os homens não são mistérios sagrados”. Isto sugere que ele tinha em mente mistérios que não eram “não sagrados”, mas que seriam muito diferentes daqueles que existiam. Se não houvesse desdenhado tanto o vulgar a ponto de empreender uma propaganda, teria sido um reformador religioso.
São os seguintes os trechos existentes de Heráclito que se referem à sua atitude diante da teologia da sua época:
As almas cheiram mal no Hades.
As mortes maiores obtêm partes maiores (Os que morrem destas mortes se transformam em deuses).
Sonâmbulos, mágicos, sacerdotes de Baco, e sacerdotisas do tonel de vinho, traficantes em mistérios.
Os mistérios praticados entre os homens não são mistérios sagrados.
E rezam a essas imagens, como se alguém falasse com a casa de um homem, sem saber o que são deuses ou heróis.
Porque se não fosse por Dionísio, para quem fazem uma procissão e cantam vergonhosos hinos fálicos, estariam agindo da maneira mais desavergonhada. Mas o Hades é o mesmo que Dionísio, em cuja honra enlouquecem e celebram a festa do tonel de vinho.
Purificam-se em vão, maculando-se de sangue, como se alguém que caminhasse na lama lavasse os pés na própria lama.
Qualquer homem que o visse agir assim, considerá-lo-ia louco”.
“O Senhor, que possui o oráculo de Delfos, não profere nem oculta o que pretende dizer, mas o revela por um sinal. E a Sibila, que com lábios delirantes profere coisas tristes, sem adornos e sem perfume, abrange mais de mil anos com a sua voz, graças ao deus que há nela....
“Este mundo, que é o mesmo para todos, não foi feito nem pelos deuses nem pelos homens; mas sempre foi, é e será um Fogo eterno, com unidades que se acendem e unidades que se apagam”.
(História da Filosofia Ocidental- Bertrand Russell)
Deste logos1 sendo sempre2 os homens se tornam descompassados3 quer
antes de ouvir quer tão logo tenham ouvido; pois, tornando-se todas (as coisas)segundo esse logos, a inexperientes se assemelham embora experimentando-se empalavras e ações tais quais eu discorro segundo (a) natureza distinguindo cada(coisa) e explicando como se comporta. Aos outros homens escapa4 quanto fazemdespertos, tal como esquecem quanto fazem dormindo.
Por isso é preciso seguir o-que-é-com,5 (isto é, o comum; pois o comum é o- que-é-com). Mas, o logos sendo o-que-é-com, vivem os homens como se tivessemuma inteligência particular.
(Sobre a grandeza do sol) sua largura é a de um pé humano.
Heráclito disse que se felicidade estivesse nos prazeres do corpo, diríamosfelizes os bois, quando encontram ervilha para comer.
Purificam-se manchando~se com outro sangue, como se alguém, entrandona lama, em lama se lavasse. E louco pareceria, se algum homem o notasse agindoassim, E também a estas estátuas eles dirigem suas preces, como alguém que falassea casas, de nada sabendo o que são deuses e heróis,
O sol não apenas, como Heráclito diz, é novo cada dia, mas sempre novo,continuamente.
Se todos os seres em fumaça se tornassem, o nariz distinguiria.
Heráclito (dizendo que) o contrário é convergente e dos divergentes nasce amais bela harmonia, e tudo segundo a discórdia.
Diverso é o prazer do cavalo, do cão, do homem, tal como Heráclito diz que asnos prefeririam palha a ouro.
Conjunções o todo e o não todo, o convergente e o divergente, o consoantee o dissoante, e de todas as coisas um e de um todas as coisas.
Se não fosse a Dioniso que fizessem a procissão e cantassem o hino, (então)às partes vergonhosas desavergonhadamente se cumpriu um rito; mas é o mesmo Hades1 e Dioniso, a quem deliram e festejam nas Lenéias.
Do que jamais mergulha como alguém escaparia?2 17. IDEM, Tapeçarias, II, 8.Muitos não percebem tais coisas, todos os que as encontram, nem quandoensinados conhecem, mas a si próprios lhes parece (que as conhecem e percebem).
Se não esperar o inesperado não se descobrirá, sendo indesco- brível einacessível.
Homens que não sabem ouvir nem falar.
Morte é tudo que vemos despertos, e tudo que vemos dormindo é sono.
Pois ouro os que procuram cavam muita terra e o encontram pouco.
O homem de noite uma luz acende para si, morto, extinta a vista, mas vivoele acende do morto quando dorme, extinta a vista, e quando desperto se acendedo que dorme.
O que para os homens permanece quando morrem (são coisas) que nãoesperam nem lhes parece (que permaneçam).
Pois é o que se estima que o mais estimado conhece e guarda; e contudocertamente a Justiça captará os artesãos e testemunhas de falsidades.
Pois uma só coisa escolhem os melhores contra todas as outras, um rumorde glória eterna contra as (coisas) mortais; mas a maioria está empanturrada comoanimais.
Este mundo,2 o mesmo de todos os (seres), nenhum deus, nenhum homemo fez, mas era, é e será um fogo sempre vivo, acendendo-se em medidas eapagando-se em medidas.
Direções do fogo: primeiro mar, e do mar metade terra, metade incandescência... Terra dilui-se em mar e se mede no mesmo logos, tal qual era antes de se tornar terra.
Uma só (coisa) o sábio1 não quer e quer ser recolhido2 no nome de Zeus.
Lei (é) também persuadir-se à vontade de um só.
Ouvindo descompassados3 assemelham-se a surdos; o ditado lhesconcerne: presentes estão ausentes.
Pois é preciso que de muitas coisas sejam inquiridores os homens amantesda sabedoria.
Para almas é morte tornar-se água, e para água é morte tornar-se terra, e deterra nasce água, e de água alma.
Porcos banham-se em lama e aves domésticas em poeira ou emcinza.
(Tales) parece segundo alguns ter sido o primeiro a estudar os astros. A seurespeito atestam Herãclito e Demócrito.
39. IDEM, I, 88.
Em Priene nasceu Bias, filho de Teutames, cujo logos é maior que o dosoutros.
Muita instrução não ensina a ter inteligência; pois teria ensinado Hesíodo ePitágoras, Xenófanes e Hecateu.
Pois uma só é a (coisa) sábia, possuir o conhecimento que tudo dirigeatravés de tudo.
Homero merecia ser expulso dos certames e açoitado, e Arquílocoigualmente.
Parmênides de Eléia (55 a.C- 470 a.C.)
Contemporâneo mais jovem de Heráclito viveu em Eléia, cidade do sul da Magna Grécia (atual Itália) e é o principal expoente da chamada escola eleática e seu fundador.
O ser, assim entendido em sentido integral e univoco, não pode nascer (porque, de outra forma, derivaria de um não-ser, o que que é impossível), não pode perecer (porque, de outra forma, acabaria em um não-ser, que não existe), não tem um passado e um futuro, mas é sempre, é imóvel, é todo igual, é corno uma esfera perfeita, portanto, um todo-uno.
“Não podes saber o que não é — isso é impossível — nem o manifestar; porque é a mesma coisa que pode ser pensada e existir”.
“Como pode, então, o que é vir a ser no futuro? Ou como poderia vir a ser? Se vem a ser, então não é; tão pouco o é, se vai ser no futuro. Assim, o tornar-se desaparece, e o passar não se percebe.
“A coisa que pode ser pensada, e aquilo pelo qual existe o pensamento, é o mesmo; porque não podes encontrar uma idéia sem algo que é, e a respeito do qual ela se manifesta”
Poema sobre o natureza, fr. 8. :
1.O ser gerado e imperecível Resta apenas um discurso sobre a via: que "existe". Sobre esta via ha sinais indicadores bastante numerosos: que o ser é não-gerado e imperecível, com efeito, é um inteiro no seu conjunto, imóvel e sem fim. Nem era uma vez, nem será, porque é agora junto todo inteiro, uno, continuo. Qual origem, com efeito, dele procuraras? Como e a partir da onde teria crescido? Do não-ser não te permito nem dize-lo nem pensa-lo, porque não é possível nerm dizer nem pensar que não existe. Que necessidade o teria forçado a nascer, depois ou antes, se derivasse do nada? Por isso e necessário que exista por inteiro, ou que não exista por nada. E nem a partir do ser concederes a força de uma certeza que nasça alguma coisa que esteja ao lado dele. Por esta razão nem o nascer nem o perecer a Justiça concedeu a ele, libertando-o das cadeias. mas firmemente o retém. A decisão sobre tais coisas esta nisto: "existe" ou "não existe". Portanto, decidiu-se, corno é necessário, que uma via se deve deixar, enquanto é impensável e inexprimivel, porque não da verdade é a via, ao passo que a outra é, e é verdadeira. E corno o ser poderia existir no futuro? E corno poderia ter nascido? Com efeito, se nasceu, não existe; e ele nem existe, caso devesse existir no futuro. Portanto, o nascimento se apaga a a morte permanece ignorada.
2. O ser é indivisivel e todo igual E nem é divisivel, porque é todo inteiro igual; nem existe de alguma parte algo a mais que possa impedi-lo de ser unido, nem existe algo de menos, mas é todo inteiro pleno de ser. Por isso é todo inteiro continuo: o ser, com efeito, se liga ao ser.
3. Mas imóvel nos limites de grandes ligaçõesMas imóvel, é sem um principio e sem um fim, pois nascimento e morte Foram expulsos para longe e uma verdadeira certeza os rejeita. E permanecendo idêntico e no idêntico, em si mesmo jaz, e deste modo ai permanece. Firme Com efeito, necessidade inflexível o mantém nas Iigações do limite, que o encerra por todo lado, pois foi estabelecido que o ser não fique sem realização. com efeito, ele de nada carece, caso contrário, de tudo careceria .
4. Coincidência do ser e pensamentoO mesmo é o pensar se aquilo é por causa do qual existe o pensamento. porque sem o ser no qual é expresso, nada encontrarás a pensar . Com efeito, nada mas exista ou existirá fora do ser, pois a Sorte o vinculou a ser um inteiro e imóvel. Por isso serão nomes todas as coisas que os mortais estabeleceram, convictos de que fossem verdadeiras nascer e perecer, ser e não-ser, trocar de lugar e mudar luminosa cor .
5. O ser e a figura da esfera .Além disso, por haver um limite extremo, ele é realizado por toda parte, semelhante a massa de bem redonda esfera, apartlr do centro igual em toda parte com Esfero, nem de algum modo maior nem de algum modo menor é necessário que seja, de uma parte ou da outra. Nem, com efeito, existe um não-ser que possa impedí-lo de chegar ao liual, nem é possivel que o ser seja do ser mas de uma parte e menos do outra, porque é um todo inviolável. Com efeito, igual em toda parte, de modo igual está em seus confins
Parmênides conclui, a partir do princípio estabelecido, que o ser é único, imutável, sem princípio e sem fim (eterno), incriado, indestrutível e imóvel.
"Tal ser necessariamente será único e singular, já que a multiplicação de algo só é possível quando há uma diferença. Mas em Deus não há diferença. Conclui-se necessariamente que em todas as outras coisas, exceto nessa existência única, a existência deve ser uma coisa, e a essência, outra. Isso respondeu ao dilema proposto pelo monismo. As coisas diferem quanto à existência porque são tipos diferentes de seres.
Parmênides estava errado porque supôs que “ser” sempre é compreendido univocamente (da mesma maneira). Aquino considerava esse ser análogo. Isso significa que cada ser pode ser compreendido de maneiras semelhantes, mas diferentes. Todos os seres que existem são iguais pelo fato de serem todos reais. Seres finitos diferem do único Ser infinito porque têm potencialidades diferentes para se tornar outras coisas ou para deixar de existir. E têm atualizações diferentes desses potenciais individuais." (Enciclopedia de Apologética. Norman Geisler. São Paulo: Vida.)
A afirmação de que quando pensamos, pensamos em algo; quando empregamos um nome, tem de ser o nome de algo, pois pensar é pensar em algo, não se pode pensar no nada.Portanto, o pensamento e a linguagem requerem objetos externos é falso. Podemos pensar em coisas que não existem como cavalos alados ou centauros, são apenas frutos da imaginação.Os pensamentos se referem a algo real ou imaginário. Quanto à questão do ser, ele pode ser uno ou composto, pois tem tipos diferentes de existência, Deus é necessário e uno, as outras coisas reais são compostas ou contingentes, como bem explicou Tomas de Aquino.
Os críticos com "bom senso" argumentavam que os cinco sentidos confirmam a realidade exterior das coisas físicas, que são muitas e passam por mudanças. A percepção sensorial prova a realidade das coisas físicas.
No seu primeiro paradoxo Zenão usou a ilustração da pista de corrida: para dar a volta na pista, um corredor tem de passar por um número infinito de pontos em um número finito de momentos. O corredor teria primeiro de atingir a metade da corrida, depois ir dali até a metade da distância até o fim, em seguida mais uma metade, e mais outra, até o infinito, sem jamais alcançar a linha de chegada. ou em outras palavras: "Um corredor que cobre determina- da distância atravessa um número sucessivo de metades de distância. Para se deslocar de a a b, é preciso passar pelo ponto médio (ml). Mas para passar de a a ml, é preciso passar pelo ponto médio dessa distância (m2). E para passar pelo ponto médio m2, é preciso passar pelo ponto médio (m3). Logo, para nos deslocarmos em qualquer direção, parece que devemos atravessar um número infinito de pontos médios, o que parece impossível.
Seus argumentos contra a multiplicidade:
"Se múltiplas são (as coisas), necessariamente são tantas quantas são, nem mais, nem menos. Mas, se são tantas quantas são, devem ser limitadas (em número).Se são múltiplas, ilimitadas (em número) são as coisas; pois entre elas sempre há outras, e entre estas novamente outras. Assim, ilimitadas (em número) são as coisas". (SIMPLÍCIO,Física, 240,27)
Se o ser não tivesse grandeza, também não poderia existir, mas, se existe, necessariamente cada (parte) tem certa grandeza e espessura, e distância uma da outra. E a respeito da (parte) que está diante dela o mesmo se diz. Pois esta também terá grandeza e uma outra estará diante dela. E o mesmo, então, dizer isso uma vez apenas e dizê-lo sempre. Pois nenhuma parte dele (do ser) será limite extremo, nem estará uma parte sem relação com outra. Assim, se múltiplas são (as coisas), necessariamente são pequenas e grandes; pequenas atal ponto que não têm grandeza, grandes a tal ponto que são infinitas. (Idem 240, 34)
(Diz Zenão que) uma coisa que não tem grandeza e espessura, nem massa, não poderia existir. Pois, se fosse acrescentada a uma outra coisa, em nada aumentaria; pois, se uma grandeza que nada é (a uma outra) se acrescenta, nada pode ganhar em grandeza (esta última). E assim já o acrescentado nada seria. Mas se, subtraída (uma grandeza), a outra em nada diminuir, e, ao contrário, acrescentada (uma), (a outra) não aumentar, é evidente que o acrescentado nada era, nem o subtraído. (Idem, 239, 5).
O paradoxo pressupunha que a soma de uma infinidade de pequenas distâncias deveria ser infinita (ou que o tempo de percurso seria infinito) e aí está o erro. Quando descobriram séries infinitas cujas somas convergem para valores finitos, o paradoxo perdeu a força, pois não é necessário um tempo infinito para realizar a soma de infinitas parcelas. Eudes Antonio da Costa
UFT/Arraias. eudes@uft.edu.br
"O problema por trás da Dicotomia, que é o mesmo que o do Aquiles, parece repousar na intuição de que o corredor demora um tempo finito mínimo para percorrer cada intervalo espacial sucessivo. Como há infinitos desses intervalos, o tempo de transcurso seria infinito. Porém, sabemos que essa intuição é errônea: o tempo de percurso por cada intervalo é proporcional ao comprimento do intervalo (supondo velocidade constante). Esse ponto foi apontado por Aristóteles (Física VI, 233a25),... Da mesma maneira que os intervalos espaciais somam 1 na série convergente 1/2+ 1/4 + 1/8 + 1/16... , os intervalos temporais também o fazem. O corredor acaba completando o percurso! PESSOA, Osvaldo. Questão: O espaço e o tempo são contínuos ou discretos? Filosofia da Física (USP - 2017) Cap. II: Paradoxos de Zenão .
Eis então como Aristóteles util iza o argumento de Zenão para defender sua visão holista da matéria, de que o todo precede as partes. O espaço e o tempo não seriam compostos de um agregado de partes. É verdade que se pode dividir um objeto em partes. Quando um tijolo é dividido, temos uma divisão atual, em ato. Talvez se possa até dividir um tijolo o quanto queiramos ou possamos, mas antes de realizar essas divisões atuais, elas só existem em potência, como potencialidade. O fato de que podemos dividir um tijolo não significa que ele seja feito de partes, pois essa possibilidade de dividi-lo é apenas uma potencialidade, não uma atualização. O todo precede as partes. Com esta conclusão, Aristóteles pôde resolver os paradoxos à sua maneira. Os paradoxos da Dicotomia e de Aquiles não procedem porque, para Aristóteles, o contínuo da pista de corrida é homogêneo. Pode-se dividi-lo sem limites, mas tal divisão não é natural, e ela pode ser feita de diferentes maneiras. A divisão é imposta por nós, ela não existe de fato: o enunciado do problema concretiza de maneira indevida a potencialidade de divisão. Em primeiro lugar, o corredor percorre o todo. É por percorrer o todo que ele percorre as partes, e não o contrário, como os enunciado dos paradoxos parecem indicar. Aristóteles defende que se possa potencialmente dividir o contínuo de maneira ilimitada. Com isso, rejeitam-se os paradoxos do Estádio e da Flecha, que pressupõem um limite para a divisão. Além disso, um ponto, para Aristóteles, não é formado por divisão, de maneira que um ponto não seria parte de uma reta. Para ele, um ponto pode ser concebido como uma fronteira entre duas regiões distintas adjacentes. PESSOA, Osvaldo. Questão: O espaço e o tempo são contínuos ou discretos? Filosofia da Física (USP - 2017) Cap. II: Paradoxos de Zenão .p. 35
Melisso de Samos (sécs. VI-V a.C.)
Afirmou que o ser deve ser "infinito" (e não finito, como dizia Parminides), porque não tem limites temporais nem espaciais, e também porque, se fosse finito, deveria se limitar com um vazio e, portanto, com um não-ser, o que é impossivel. Enquanto infinito, o ser também é necessariamente uno: "com efeito, se fossem dois, não poderiam ser ser infinitos, pois um deveria ter seu limite no outro".
Ver Análise de Parmênides

Era natural da colônia de Agrigento, na Sicília, Mágna Grécia. Era figura uma legendária: ele mesmo se atribuía poderes mágicos. Dizem teria suicidado atirando-se na cratera do Etna, para provar que era um deus. Empédocles era um misto de cientista, de místico, de pitagórico e de órfico. Escreveu dois poemas em jônico: Sobre a Natureza e As Purificações. Sobre si mesmo ele disse:
“Amigos que habitais a grande cidade que contempla o rochedo amarelo de Acragas, próximo da cidadela, empenhada em boas obras, porto de honra para o forasteiro: homens incapazes de mesquinharias, saúdo-vos a todos. Ando entre vós como deus imortal, não mortal agora, honrado entre todos, coroado de fitas e grinaldas de flores. Logo que entro com elas, em minha comitiva, nas cidades florescentes, tanto os homens como as mulheres me rendem culto; seguem-me multidões incontáveis, perguntando-me qual caminho devem tomar; alguns desejam oráculos, enquanto que outros, atormentados há muito, por toda a espécie de enfermidades, desejam ouvir de mim a palavra que cura …, mas por que me detenho eu a falar nestas coisas, como se tivesse grande importância o fato de eu ultrapassar os homens mortais e perecíveis?”
Sua contribuição mais importante à ciência foi a descoberta do ar como substância à parte. Isto foi por ele provado pela observação de que quando um balde ou outro objeto semelhante é colocado na água, com o fundo para cima, a água não entra no balde. Diz ele:
“Quando uma menina, brincando com uma clepsidra de metal brilhante, coloca o orifício do tubo em sua bela mão, submergindo a clepsidra na massa cedente de água prateada, a corrente não penetra em seu interior, mas o volume de ar que se acha dentro, fazendo pressão sobre as perfurações abundantes, a mantém afastada, até que a menina destape a corrente
comprimida; mas então o ar escapa e entra um volume igual de água”.
Esta passagem aparece numa explicação sobre a respiração.
Também descobriu pelo menos um exemplo de força centrífuga; se girar, na extremidade de uma corda, uma xícara com
água, a água não sai. Sabia que as plantas têm sexo, e tinha uma teoria (um tanto ou quanto fantástica, deve-se admitir) a respeito da evolução e sobrevivência dos mais aptos. Originalmente, “inumeráveis tribos de mortais esparramaram-se pelo mundo, dotadas das mais
diversas formas: uma verdadeira maravilha”. Havia cabeças sem pescoços, braços sem ombros, olhos sem testas, membros soltos procurando uma articulação. Essas coisas se uniram arbitrariamente, por puro acaso; havia criaturas desajeitadas, com
inúmeras mãos; criaturas com caras e peitos voltados em direções opostas; criaturas com caras de boi e corpos humanos. Havia hermafroditas que eram, ao mesmo tempo, homens e mulheres, mas estéreis. No fim, certas formas sobreviveram.
Quanto à astronomia: sabia que a lua brilha por refletir a luz, e pensava o mesmo do sol; disse que a luz leva certo tempo para percorrer distâncias, mas tão pouco tempo que não podemos observar; sabia que os eclipses solares são produzidos pela interposição da lua, fato este que parece ter aprendido de Anaxágoras.
Foi o fundador da escola italiana de medicina, e a escola médica que dele se originou exerceu influência tanto sobre Platão como sobre Aristóteles. Segundo Buraet (p. 234), influiu sobre todas as tendências do pensamento científico e filosófico. Tudo isto revela o vigor científico de seu tempo, que não foi igualado nas épocas posteriores da Grécia. (História da Filosofia Ocidental- Bertrand Russell)
Sua doutrina pode ser vista como uma primeira síntese filosófica. Substitui a busca dos jônicos de um único princípio das coisas pelos quatro elementos: fogo, terra, água e ar; combina ao mesmo tempo o ser imóvel de Parmênides e o ser em perpétua transformação de Heráclito, salvando ainda a unidade e a pluralidade dos seres particulares
"Não há nascimento para nenhuma das coisas mortais; não há fim pela morte funesta; há somente mistura e dissociação dos componentes da mistura. Nascimento é apenas um nome dado a esse fato pelos homens".
- a primeira, pleno domínio do Amor, determina a existência de uma esfera contínua, mas mesclada (ao contrário da esfera homogênea de Parmênides) e formado pela completa fusão das raízes;
- na segunda, devido à atuação crescente do Ódio, as raízes, já em parte distanciadas, constituem um todo onde se defrontam forças antagônicas e equivalentes;
- a terceira fase é a do domínio pleno do Ódio, que estabelece quatro províncias perfeitamente distintas — a da água, a do ar, a da terra e a do fogo;
- na quarta fase o Amor vai reconquistando a supremacia que perdera e o conjunto volta a ser uma unidade em tensão (como a concebida por Heráclito).
"Com a terra, percebemos a terra; coma a água a água; com o éter o éter divino; como o fofo, o fogo destruidor; com o Amor o Amor; com a Contenda a Contenda dolorosa"
“Existe um oráculo da Necessidade, uma antiga ordem dos deuses, eterna e selada por profundos juramentos, que diz que sempre que um dos demônios, cuja parte está na extensão dos dias, polui, pecadoramente, as suas mãos com sangue, ou empreende uma luta e comete perjúrio, deve caminhar três vezes dez mil anos, partindo da morada dos abençoados e carregando, através do tempo, toda a espécie de formas mortais, trocando um caminho penoso da vida por outro. Pois o poderoso Ar a empurra para o Mar, e o Mar o faz girar de volta para a Terra firme; a Terra lança-o aos raios do Sol ardente, e este o atira de novo aos redemoinhos do Ar. Um o arranca de outro, e todos o rejeitam. Um deles sou eu agora, um desterrado e errante dos deuses, pois ponho a minha confiança numa luta insensata”.

Cada uma dessas sementes eram incriadas, eternas, imutáveis. Todas elas estavam juntas e misturadas, de modo que nenhuma se distinguia. Mas a Inteligência [nous] agiu sobre essa massa e a partir disso surgiu todas as coisas.
Sua ideia de percepção é contrária a de Empédocles, pois as homeomerias não são acessíveis aos sentidos e conhecem-se as coisas por seus contrários Anaxágoras teve grande mérito na ciência. Foi quem primeiro explicou que a lua brilha com luz reflexa, embora haja um fragmento críptico em Parmênides que também sugere que ele o sabia. Anaxágoras deu a teoria correta dos eclipses, e sabia que a lua se acha abaixo do Sol. O Sol e as estrelas, disse ele, são pedras ardentes, mas não sentimos o calor das estrelas porque elas estão muito distantes. O Sol é maior do que o Peloponeso. A Lua tem montanhas e (achava ele) habitantes.(História da Filosofia Ocidental- Bertrand Russell)
Embora tenha contribuído muito nas ciencias, Anaxágoras não atribui a um ser pessoal, Deus, a origem de todas as coisas.
OS ATOMISTAS
Átomo (= "indivisivel") é uma realidade captável apenas com o intelecto, não tem qualidade, mas apenas forma geométrica, e e naturalmente dotado de movimento, As coisas sensíveis nascem, morrem e sofrem mutações, apenas em virtude da agregação ou desagregação dos átomos e, portanto, toda a realidade pode ser explicada em sentido mecanicista a partir dos átomos e do vazio.
Os Atomistas explicaram o conhecimento recorrendo a teoria dos eflúvios (semelhante a Empédocles), isto é, admitindo a existência de fluxos de átomos mais finos (formando imagens sutis [eidola] que, destacando-se das coisas, se imprimem sobre os órgãos dos sentidos. Nesse contato, os átomos semelhantes que estão fora de nos impressionam os átomos semelhantes que estão em nós, formando então uma réplica ou ou cópia da coisa. fundando de modo semelhante a Empédocles - o conhecimento.
Tendo em vista que os átomos são infinitos, infinitos também eram os mundos que deles derivam. Todos nascem e depois se corrompem dando a origem a outros mundos, sem fim, ciclicamente.
A ordem do mundo não é explicada por uma inteligência (ao contrário de Anaxágoras), mas pelo encontro aleatório dos átomos, não existe portanto para eles uma causa inteligente ou final. Ele porém disse que alguns átomos eram especiais como os que constituíam a inteligencia e a alma.
Distingui-se 3 movimentos dos átomos:
- movimento caótico dos átomos (movimento primígenio)
- movimento derivado do anterior, no qual leva os átomos semelhantes a se agruparem de diversos modos dando origem a várias coisas
- moviemento dos átomos que se disprendem das coisas formando os eflúvios(ex: o perfume) que entram em contato com os sentidos.
Os átomos diferenciam-se entre si pela forma, posição e pela ordem, e cada uma delas pode variar ao infinito. Naturalmente só são perceptíveis pela inteligência, mas não pelos sentidos.
Sendo assim Leucipo e Demócrito eram pluralistas corpóreos.
"É opinião o frio, e opinião o calor, verdade os átomos e o vazio" (Demócrito)
2. AÉCIO, I, 24, 4 (DK 67 B 2).
História da Filosofia. Giovanni Reali. Vol 1. São Paulo: Paulus, 2014)

