Nietzsche não se interessa pela verdade metafísica do Cristianismo ou de qualquer outra religião; convencido de que nenhuma religião é realmente verdadeira, julga todas as religiões exclusivamente pelos seus efeitos sociais. Concorda com os filósofos quanto ao que se refere à submissão à suposta vontade de Deus, mas ele não a substituiria pela vontade dos “artistas tiranos” terrenos. A submissão é licita, salvo para os super-homens, mas não a submissão ao Deus cristão. Quanto ao fato de as Igrejas cristãs «serem aliadas dos tiranos e inimigas da democracia», isso, diz ele, constitui o verdadeiro reverso da verdade. A Revolução Francesa e o socialismo são, segundo ele, essencialmente idênticos, quanto ao espírito, ao Cristianismo; a tudo isso se opõe, e pela mesma razão: que ele não tratará todos os homens como iguais sob nenhum aspecto....O Budismo e o Cristianismo, diz ele, são ambas duas religiões “niilistas”, no sentido de que negam qualquer diferença última de valor entre um homem e outro, mas o Budismo é a menos refutável das duas. O Cristianismo é degenerador, cheio de elementos excrementícios e decadentes; sua força propulsora é a rebelião dos esfarrapados.
Esta revolta começou com os judeus e foi trazida ao Cristianismo pelos “santos epiléticos” como São Paulo, que não tinham honestidade. “O Novo Testamento é o evangelho de uma classe de homem completamente ignóbil”. O Cristianismo é a mentira mais fatal e sedutora que já existiu. Nenhum homem notável se pareceu jamais ao ideal cristão; considere-se, por exemplo, os heróis da Vidas de Plutarco. O Cristianismo deve ser condenado por negar o valor do “orgulho, o sentimento das distâncias, a grande responsabilidade, o entusiasmo exuberante, os instintos da guerra e da conquista, a deificação da paixão, a vingança, a cólera, a voluptuosidade, a aventura, o conhecimento”. Todas estas coisas são boas, e todas elas são consideradas más pelo Cristianismo — diz Nietzsche....Em lugar do santo cristão, Nietzsche deseja ver o que chama de homem “nobre” — não um tipo universal, mas um aristocrata dominador. O “nobre” será capaz de cometer crueldade e, por vezes, o que é em geral considerado crime; só reconhecerá ter deveres para com seus iguais. Protegerá artistas e poetas e todos os que porventura tiverem algum talento, mas apenas na condição de alguém que pertence a uma ordem superior à dos que só sabem fazer algo. A exemplo dos guerreiros, aprenderá a associar a morte aos interesses por que está lutando; a sacrificar multidões; a levar suficientemente a sério a própria causa, a ponto de não poupar ninguém; a praticar uma disciplina inexorável; e a permitir-se a violência e a esperteza na guerra. Reconhecerá também o papel que desempenha a crueldade na excelência aristocrática: “Quase tudo o que denominamos ‘cultura superior’ baseia-se na espiritualização e na intensificação da crueldade.” Em essência, o “nobre” é a encarnação da vontade de poder. Bertrand Russel. História da Civilização Ocidental
- todo o universo é uma luta , onde forças lutam entre si, tecidos e órgãos lutam entre si, pensamentos, pulsões lutam entre si e disso vem a hierarquia,: senhores e escravos, fracos e fortes, vencedores e derrotados, etc. (ver também resposta 26)
- transmissão hereditária de modificações adiquiridas...um hábito mantido por muito tempo se torna um instinto hereditário (Lamarkismo)
- toda forma de alívio do sofrimento diminui a luta e gera seres fracos, logo a compaixão gera a decadência do desejo de potência
- a moral dos derrotados (escravos) de ver ser destruída e outra moral deve advir de indivíduos aristocráticos, os novos filósofos severos e inflexíveis
- não há espaço para democracia, igualdade, socialismo, liberalismo
- Nietzsche julga as pessoas, e em especial os filósofos e Jesus como portadores de doenças relacionadas à fisiologia
"Temos que ter em mente que o filósofo solitário valoriza a fisiologia e as demais ciências para propor novas 'leis da vida e do agir' Dicionário Nietzsche. São Paulo: Loyola, 2016,p. 53
Na tentativa de resolver um dos problemas candentes da ciência da época, Nietzsche se dedica a examinar como se dá a passagem da matéria inerte à vida. Em escritos posteriores Assim falava Zaratustra, ele elabora a teoria das forças.. Com ela, é levado a ampliar o conceito de vontade de potência: quando foi introduzido operava apenas no âmbito orgânico; a partir de agora, passa a atuar em tudo que existe. A vontade de potência aparece então como força eficiente. Querendo vir- a ser-mais-forte, a força esbarra em outras que a ela resistem; é inevitável a luta- por mais potência. A cada momento as forças relacionam de modo diferente, dispõem-se de outra maneira; a todo instante, a vontade de potencia, vencendo resistências, se autosupera, nessa superação de si, faz surgir novas formas. Enquanto força eficiente é pois força plástica, criadora. è o que revela a própria expressão vontade de potência (wille zur Macht): o termo wille entendido enquanto disposição, tendência, impulso e Macht associado ao verbo machen, fazer, produzir, formar efetuar, criar. A vontade de potência é o impulso de toda força a efetivar-se e, com isso criar novas configurações com as demais.....isso não quer dizer que a vontade de potencia seja uma substancia ou uma espécie de sujeito; tão pouco significa que constitui um ente metafísico ou um princípio transcendente. Qualidade de todo acontecer, ela diz respeito ao efetivar-se das forças. Mais próximo da arché dos pré-socráticos que da entelechéia de Aristóteles. o conceito nietzschiano de vontade de potência constitui um dos principais pontos de ruptura em relação á tradição filosófica p. 425
"postula a existência de uma pluralidade de forças presentes em toda parte, agindo e resistindo uma às outras. O caráter essencialmente dinâmico da força impede que ela não se exerça; seu querer-vir-a-ser-mais impede que cesse o combate. O mundo apresenta como pleno vir a ser mais como pleno vir-a-ser...Se nada é senão vir-a-ser, então o mudo não teve início e não terá fim,...Nietzsche concebe o mundo como eterno... O mundo é um processo...totalidade interconectada de quanta dinâmicos, ou se quiser, de campos de força instáveis e, permanente tensão. o mundo não é governado por leis, não cumpre finalidades, não se acha submetido a um poder transcendente- e mais, sua coesão não é garantida por substância alguma. Se permanece uno, é porque as forças múltiplas, estão todas interrelacionadas. p. 239-240
"... teoria das forças...No âmbito cosmológico, ele postula a existência de forças dotadas de querer interno, que se exercem em toda potencia." p. 413
"As noções de psicologia e de decadência que perpassam Crepúsculo dos ídolos, como também o Caso Wagner, estão sob a influencia de leituras nietzschianas da psicologia francesa (Théodule Ribot, Charles Feré e dos autores que aparecem nas páginas da Revue philosophique de la France et de l´ Étranger), e de outros franceses, como Paul Bourget e Charles Baudelaire. Nesse contexto, a psicologia nietzschiana é propriamente uma psicofisiologia, ou seja, a análise de sintomas, ou seja, da relação que as produções humanas estabelecem com a vida: uma investigação a a partir da interpretação do homem como um conjunto de impulsos em luta por mais potencia. A investigação psicológica nietzschiana coloca-se como antagonista da moral vigente, das virtudes estabelecidas e da metafísica tradicional, pois não se baseia na dualidade de opostos qualitativos absolutos, como corpo e alma ou bem e mal , mas no pressuposto do estado fisiológico, ou melhor, na dinâmica da vontade de potência. p. 80
"Em o problema de Sócrates, a configuração fisiológica decadente de Sócrates (anarquia dos instintos) é a mesma de todos os filósofos que avaliaram que a vida não vale nada, o que quer dizer praticamente toda a tradição ." p. 81
"20. Às vezes, o recurso precipitado à fisiologia faz de Nietzsche um crítico por demais irreverente: ele identifica Pascal como hipocondríaco, refere-se a Espinosa como tísico, suspeita que Rousseau e Schopenhauer eram doentes do coração e considera Wagner uma anomalia fisiológica (cf. respectivamente Cl, Os quatro grandes erros, § 6, GC § 349, A § 538 e CW § 7). Mas talvez seja justamente essa irreverência que o tome atraente para tantos Das forças cósmicas aos valores humanos. Scarlett Marton São Paulo:Brasiliense, 1990, p. 94
"Nietzsche possuía em sua biblioteca ou provavelmente leu fisiologistas como Jean Martin Charcot, Gustav Theodor Fechner, Hermann von Helmholtz, Wilhelm Wundt, entre muitos outros... Dicionário Nietzsche. São Paulo: Loyola, 2016,p. 237
...fisiológico é o relativo ao corpo ou a unidade orgânica. É nesse sentido que ,por vezes, coincide as palavras 'biológico' e 'fisiológico'...Há um uso da palavra 'fisiologia' que é propriamente nietzschiano e ocorre no contexto da doutrina da vontade de potencia; ele está fortemente ligado à noção da doutrina da vontade de potência; ele está ligado á noção de fisiopsicologia; processos fisiológicos enquanto luta de quanta de potencia (impuslos ou forças) por crescimento,... p. 237
pensamentos, sentimentos, impulsos estão em franco combate, mas também células, tecidos, órgãos. Nesse momento, Nietzsche sustenta que também na vida social quanto na individual, tanto na vida mental, quanto na fisiológica, há uma única e mesma maneira de ser da vida: a luta....Coma luta , estabelecem hierarquias, a cada momento determinam-se vencedores e vencidos, senhores e escravos, os que mandam e os que obedecem p. 412
Enquanto vontade de potencia, a vida é mandar e obedecer; é portanto lutar. p. 413
Em termos fisiológicos a luta aparece em cada existente que se compõe desde uma multiplicidade de impulsos que se digladiam permanentemente, pois cada organismo, cada órgão mesmo, tem sua efetividade a partir da alternância entre dominação e subjugação que propriamente o mantém. Estende-se á totalidde dos organismos o fluxo do vir-a-ser expresso no jogo da alternância entre dominação e subjugação que, de fato, o constitui... Assim a luta, com conceito fundamental em Nietzsche, está presente nas relações entre os impulsos em cada homem e nas relações de disputa entre os homens, que lutam para estabelecer a hegemonia de valores e impor uma interpretação, mas nunca visando á destruição ou aniquilamento do adversário que, no limite, enquanto forte, é temido e venerado. p. 293
vontade de potência. è um sentido amplo de criação, na medida em que abarca o mundo em seu todo. O caráter básico do mundo é o caos, no sentido de acúmulo, resistência e confronto de forças. Entretanto o que sobressai nas forças em relação é a vontade incensante de criação e transmutação, no sentido de intensificação de potência. p. 161
Enquanto em Darwin a luta se dá pela sobrevivência, pela própria manutenção, em Nietzsche a luta se dá por dominação, por aumento de potencia...A conservação é apenas uma consequência indireta do processo de autossuperação. A luta darwiniana ocorre fundamentalmente entre organismos individuais; no entanto, para Nietzsche, ela ocorre em todas as instancias da existência: entre os seres inorgânicos, entre as menores partes dos organismos vivos e até mesmo entre povos e culturas. O movimento de vir-a-ser se dá enquanto luta por dominação p. 176
Não haveria seleção das características vantajosas para a conservação do indivíduo: o acaso, a luta pela vida, auxilia tanto os fortes como os fracos, pois usa astúcia substitui frequentemente com vantagem a força e, além isso, os fracos são mais numerosos. Assim não haveria uma maior transmissão para a geração posterior das características mais vantajosas, mas sim das mais frequentes, o que ocorre para a manutenção de um tipo já estabelecido...
Por entender que há uma desigualdade intrínseca aos seres humanos em termos biológicos e fisiológicos, Nietzsche bem mostra que o fraco escamoteia essa desigualdade fazendo acordos de proteção sem base efetiva, ao consubstanciar a igualdade de direitos num plano suprassensível que lhe forneceria um caráter inequívoco... Assim entendendo o direito com um privilégio que os fracos se atribuem, Nietzsche observa que a igualdade de direitos suprime os direitos dos fortes.... é numa situação de desigualdade de direitos, no entender de Nietzsche, que direitos podem ser reivindicados. p. 264
Nietzsche adota um conceito lamarkiano de hereditariedade que permite a transmissão hereditária de modificações adiquiridas...um hábito mantido por muito tempo se torna um instinto hereditário. Concebida como uma memória orgânica, a a hereditariedade significa que cada se vivo é herdeiro de todo o passado orgânico.... A finalidade do casamento é, segundo Zarastustra gerar um corpo superior àquele dos genitores, suscetível de da sentido á união parental... não se trata de reproduzir...mas de procriar, o que denotaria um avanço ou uma elevação ...Os indivíduos superiores seriam , paradoxalmente, muito menos parentados com os seus pais, pois teriam sua origem numa linhagem particularmente antiga, que acumulou forças através das gerações p. 252
O filósofo do futuro deve ser um criador de valores, mas é preciso, primeiro, destruir as antigas tábuas de valor. p. 74
Enfatizando o caráter não natural do homem, fruto da exigência moral trazida pela domesticação, Nietzsche afasta as concepções racionalistas da moral e dedica-se á análise da moral cristã, começando pela versão kantiana. Passa na sequencia, a abordar o aspecto reativo dessa moral, enfatizando a sua raiz judaico-socrática, e concluindo que uma vontade doente, que condena as paixões, pode vicejar em qualquer povo, cuja domesticação resulte no enfraquecimento do homem. De posse dessa caracterização da moral, Nietzsche encaminha-se para delinear o estado atual do homem europeu, que promove o enfraquecimento da vontade. Faz ver que a moral de rebanho contribui para a instauração do igualitarismo democrático e da piedade, como virtude suprema, negando por extensão, a hierarquia e o sofrimento. Considera que cabe aos novos filósofos a tarefa de trasnvalorar esses valores, proporcionando a formação outrora perdida.... Aponta para o caráter desses filósofos: severos e inflexíveis, para aguentar a grandeza, que deverá caraceterizar suas tomadas de posição. Indica em seguida as suas proveniências: plantas raras, indivíduos excepcionais e aristocráticos. E traz por fim sua missão: comandar e legislar...
Nietzsche investiga as condições de uma nova civilização perscrutando em pormenores a 'pequena política' - democracia, socialismo, nacionalismo etc.- para assinalar a necessidade de uma 'grande política' (a unificação europeia, a seleção de novas castas, novas tiranias etc.) para o qual a o povo alemão, em particular, malgrado sua situação decadencial, tem uma função proeminente... p. 68
"Pensador de seu tempo, Nietzsche sempre foi um ferrenho crítico da democracia...a democracia passa a ser entendida como uma versão moderna do cristianismo, contribuindo, ao modo cristão, para o predomínio do homem fraco, temeroso diante dos desafios da vida, que procura dominar o forte não a partir de suas forças ativas, mas com o recurso a estrategemas reativos. Eliminando as diferenças constitutivas dos indivíduos, a democracia suprime por decorrência os estado hierárquicos, que são os únicos que , da perspectiva de Nietzsche, podem fornecer um direcionamento adequado aos indivíduos p. 180,182
A aristocracia do futuro, com suas novas virtudes e características próprias, é quem poderia estabelecer o que é bom ou ruím,, enfim novos valores que brotam da vida ascendente. p. 122
Nas obras do compositor (Wagner) tornou doentes a arte e a música, Nietzsche recorre, como ilustra de modo marcante, entre outros, o quinto parágrafo a um léxico fisiológico e médico-...Nas obras do compositor , o que se vê são problemas de histéricos, afetos convulsivos e sensibilidade superexcitada; considerados como tipos fisiológicos, seus heróis e heroínas compõem uma galeria de doentes, e Wagner, ele mesmo, é uma neurose. O artista e sua arte não constituem , em suma, mais do que expressão de degenerescência fisiológica p. 77
Para o filósofo alemão, não há verdades absolutas ou fixas para serem reveladas ou desveladas, as leis não estão na natureza esperando ser descobertas, mas são criadas pelo próprio homem. A ciência, por trás da máscara da descoberta de verdades, constrói suas verdades, ficções úteis para a sobrevivência e manutenção da espécie ou da sociedade humana... ou para que haja condições de crescimento de potência, ou seja, para autosuperação, como no contexto dos seus últimos textos. p. 142
Para Nietzsche, décadence é a desagregação dos instintos (instinkte), tanto do indivíduo quanto da cultura, os quais não podem mais encontrar condições que propiciem o crescimento de potência, pois perderam toda a capacidade de seleção, supondo que tudo se equivale, tudo é nivelado, não há um estilo próprio, e podem até mesmo aceitar o que é prejudicial ou ruim (schlecht), ou seja, o que impede o crescimento de potência. A configuração de impulsos se desfaz pro falta de um ou mais impulsos dominantes que mantenham a hierarquização...A decadência ... é um processo mórbido. Ela ´[e o processo de esgotamento ou de degeneração de toda organização potente e hierarquizada, já que esta não pode durar indefinidamente. 179
Nietzsche denuncia o caráter nocivo da compaixão, caracterizando-a como uma espécie de doença contagiosa que difunde debilidade e desgosto. Enfim, a compaixão produziria um efeito deprimente que faz com que a vida seja negada enquanto vida, ela produziria décadence [destruição do crescimento de potência]. ...compaixão também será compreendida como uma espécie de estrategema psicológico que é usado na defesa do fraco. Não sendo capaz de de se defender diretamente do forte, o fraco usa a compaixão como ultimo recurso para tentar comovê-lo. Nesse sentido, a compaixão assume o caráter de subterfúgio que protege o fraco contra a opressão do forte....uma espécie de artifício que os fracos utilizam para descarregar seu ressentimento contra os fortes...os fracos obtêm sua revanche por meio de um ardil... a lógica da compaixão seria propagar o sofrimento em quem não sofre, e por esse meio, realizar a ardilosa vingança do fraco ressentido contra o forte... seria na verdade, um meio de satisfazer o desejo de crueldade que não pode ser realizado de maneira franca....a compaixão estaria enraizada na crueldade e vontade de vingança p. 148-149
"Que indicações fornece a ciência da linguagem, em especial a pesquisa etimológica, para a história da evolução dos conceitos morais ? Para a genealogia da moral: uma polemica (1877) Friedrich Nietzsche "Primeira dissertação-"Bom e mau" "bom e ruim", p. 18.
A indicação do caminho certo me foi dada pela seguinte questão: que significam exatamente, do ponto de vista etimológico, as designações para "bom" cunhadas pelas diversas línguas?Descobri então que todas elas remetem à mesma transformação conceitual - que, em toda parte, "nobre", "aristocrático", no sentido social, é o conceito básico a partir do qual necessariamente se desenvolveu "bom", no sentido de "espiritualmente nobre", "aristocrático", de "espiritualmente bem-nascido", "espiritualmente privilegiado": um desenvolvimento que sempre corre paralelo àquele outro que faz "plebeu", "comum", "baixo" transmutar-se finalmente em "ruim". O exemplo mais eloqüente deste último é o próprio termo alemão schlecht [ruim], o qual é idêntico a schlicht [simples] - confira-se schlechtweg, schlechterdings [ambos "simplesmente"] - e originalmente designava o homem simples, Para a genealogia da moral: uma polemica (1877) Friedrich Nietzsche "Primeira dissertação -"Bom e mau" "bom e ruim" 4Com relação ao nosso problema, que por bons motivos pode ser chamado um problemasilencioso, e que de maneira exigente se dirige a bem poucos ouvidos, é de interesse nadapequeno constatar que, nas palavras e raízes que designam o "bom", transparece ainda com freqüência a nuance cardeal pela qual os nobres se sentiam homens de categoria superior. É verdade que, talvez na maioria dos casos, eles designam a si mesmos conforme simplesmente a sua superioridade no poder (como "os poderosos", "os senhores", "os comandantes"), ou segundo o signo mais visível desta superioridade, por exemplo, "os ricos", "os possuidores" (este o sentido de arya, e de termos correspondentes em iraniano e eslavo).Mas também segundo um traço típico do caráter: e é este caso que aqui nos interessa. Eles se denominam, por exemplo, "os verazes"; primeiramente a nobreza grega, cujo porta-voz é o poeta Teógnis de Megara. A palavra cunhada para este fim, [bom, nobre], significa, segundo sua raiz, alguém que é3, que tem realidade, que é real, verdadeiro; depois, numa mudança subjetiva, significa o verdadeiro enquanto veraz: nesta fase da transformação conceitual ela se torna lema e distintivo da nobreza, e assume inteiramente o sentido de "nobre", para diferenciação perante o homem comum mentiroso, tal como Teógnis o vê e descreve - até que finalmente, com o declínio da nobreza, a palavra resta para designar a aristocracia espiritual, tornando-se como que doce e madura.Na palavra [mau, feio], assim como em [tímido, covarde] (o plebeu, em contraposição ao [bom]), enfatiza-se a covardia: isto sugere talvez em que direção se deve buscar a origem etimológica de , passível de interpretações diversas.O latim malus (ao qual relaciono μ [negro]) poderia caracterizar o homem comum como homem de pele escura, sobretudo como de cabelos negros ("hic niger est-"),4 como habitante pré-aria no do território da Itália, que através da cor se distinguia claramente da raça loura, ariana, dos conquistadores tornados senhores; ao menos o gaélico me oferece um caso correspondente - fin (por exemplo, no nome Fin-Gal5), o termo distintivo da nobreza, por fim do homem bom, nobre, puro, originalmente o homem louro, em contraposição aos nativos de pele escura e cabelos negros.Os celtas, diga-se de passagem, eram sem dúvida uma raça loura; comete-se um erro, associando aquelas faixas de uma população de cabelos escuros essencialmente, que se fazem visíveis nos mais cuidadosos mapas etnográficos da Alemanha, a alguma origem ou mistura sanguínea céltica, como ainda faz Virchow6: nesses lugares aparece a população pré-ariana da Alemanha. (O mesmo é válido praticamente para toda a Europa: no essencial, a raça submetida terminou por reaver a r a preponderância, na cor, na forma curta do crânio, talvez até mesmo nos instintos sociais e intelectuais: quem nos garante que a moderna democracia, o ainda mais moderno anarquismo, e sobretudo essa inclinação pela “commune”, pela mais primitiva forma social, que é hoje comum a todos os socialistas da Europa, não signifique principalmente um gigantesco atavismo7 - e que a raça de conquistadores e senhores, a dos arianos, não esteja sucumbindo também fisiologicamente?...) Acredito poder interpretar o latim bonus como "o guerreiro", desde que esteja certo ao derivar bonus de um mais antigo duonus(compare-se belum= duelum= duen-lum, no qual me parece conservado o duonus). Bonus, portanto, como homem da disputa, da dissensão (duo), como o guerreiro: percebe-se o que na Roma antiga constituía a "bondade" de um homem. Mesmo o nosso alemão Gut [bom]: não significaria "o divino" [den Göttlichen], o homem "de linhagem divina" [göttlichen Geschlechts]? E não seria idêntico ao nome do povo (originalmente da nobreza), os godos [Goten]? Os motivos para esta suposição não cabem aqui. Para a genealogia da moral:uma polemica (1877) Friedrich Nietzsche"Primeira dissertação-"Bom e mau" "bom e ruim" 5
Resposta:
Nietzsche comete alguns erros na sua pesquisa etimológica e além disso o erro da falácia da generalização
1- A afirmação sobre o termo verazes não é confirmada:
(3) Esta afirmação de Nietzsche não é confirmada pela moderna pesquisa etimológica. Segundo Pierre Chantraine (Dictionnaire étymologique de la langue grecque, Paris, 1968), trata-se de uma palavra arcaica de origem incerta. Para a genealogia da moral :uma polemica (1877) Friedrich Nietzsche"Primeira dissertação-"Bom e mau" "bom e ruim" Notas de Rodapé
Também a relação que ele faz pouco adiante, entre a palavra latina malus e o grego meias, não é coisa estabelecida. Estas informações são cortesia da professora Anna Lia A. de Almeida Prado, do Departamento de Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (usp). Para a genealogia da moral:uma polemica (1877) Friedrich Nietzsche"Primeira dissertação-"Bom e mau" "bom e ruim" notas de Rodapé
3- Olhando a etimologia dos termos usados por Nietzsche no hebraico (lingua dos judeus), povo a quem atribui a inversão de valores positivos por negativos vemos que a tese dele não se sustenta:
"- Já se percebe com que facilidade o modo de valoração sacerdotal pode derivar daquele cavalheiresco-aristocrático e depois desenvolver-se em seu oposto; em especial, isso ocorre quando a casta dos sacerdotes e a dos guerreiros se confrontam ciumentamente, e não entram em acordo quanto às suas estimativas.Os juízos de valor cavalheiresco-aristocráticos têm como pressuposto uma constituição física poderosa, uma saúde florescente, rica, até mesmo transbordante, juntamente com aquilo que serve à sua conservação: guerra, aventura, caça, dança, torneios e tudo o que envolve uma atividade robusta, livre, contente.O modo de valoração nobre-sacerdotal - já o vimos - tem outros pressupostos: para ele a guerra é mau negócio! Os sacerdotes são, como sabemos, os mais terríveis inimigos - por quê? Porque são os mais impotentes. Na sua impotência, o ódio toma proporções monstruosas e sinistras, torna-se a coisa mais espiritual e venenosa. Na história universal, os grandes odiadores sempre foram sacerdotes, também os mais ricos de espírito - comparado ao espírito da vingança sacerdotal, todo espírito restante empalidece. A história humana seria uma tolice, sem o espírito que os impotentes lhe trouxeram - tomemos logo o exemplo maior.Nada do que na terra se fez contra "os nobres", "os poderosos", "os senhores", "os donos do poder", é remotamente comparável ao que os judeus contra eles fizeram; os judeus, aquele povo de sacerdotes que soube desforrar-se de seus inimigos e conquistadores apenas através de uma radical tresvaloração9 dos valores deles, ou seja, por um ato da mais espiritual vingança. Assim convinha a um povo sacerdotal, o povo da mais entranhada sede de vingança sacerdotal.Foram os judeus que, com apavorante coerência, ousaram inverter a equação de valores aristocrática (bom = nobre = poderoso = belo = feliz = caro aos deuses), e com unhas e dentes (os dentes do ódio mais fundo, o ódio impotente) se apegaram a esta inversão, a saber, "os miseráveis somente são os bons, apenas os pobres, impotentes, baixos são bons, os sofredores, necessitados, feios, doentes são os únicos beatos, os únicos abençoados, unicamente para eles há bem-aventurança - mas vocês, nobres e poderosos, vocês serão por toda a eternidade os maus, os cruéis, os lascivos, os insaciáveis, os ímpios, serão também eternamente os desventurados, malditos e danados!...". Sabe-se quem colheu a herança dessa transvaloração judaica... A propósito da tremenda, desmesuradamente fatídica iniciativa que ofereceram os judeus, com essa mais radical das declarações de guerra, recordo a conclusão a que cheguei num outro momento (Além do bem e do mal, § 195) - de que com os judeus principia a revolta dos escravos na moral: aquela rebelião que tem atrás de si dois mil anos de história, e que hoje perdemos de vista, porque foi vitoriosa..." Para a genealogia da moral: uma polemica (1877) Friedrich Nietzsche "Primeira dissertação -"Bom e mau" "bom e ruim" 7
4- A etimologia dos termos bom e mau (na bíblia hebraica) diz respeito aquilo que causa dano, ou faz o bem , etc.
BOM em hebraico
bwj towb
adj
1) bom, agradável, amável
1a) amável, agradável (aos
sentidos)
1b) agradável (à mais alta
índole)
1c) bom, excelente
(referindo-se à sua espécie)
1d) bom, rico, considerado
valioso
1e) bom, apropriado,
conveniente
1f) melhor (comparativo)
1g) satisfeito, feliz,
próspero (referindo-se à natureza sensitiva humana)
1h) boa compreensão
(referindo-se à natureza intelectual humana)
1i) bom, generoso, benigno
1j) bom, correto (eticamente)
n m
2) uma coisa boa, benefício,
bem estar
2a) bem estar, prosperidade,
felicidade
2b) coisas boas (coletivo)
2c) bom, benefício
2d) bem moral
n f
3) bem estar, benefício,
coisas boas
3a) bem estar, prosperidade,
felicidade
3b) coisas boas (coletivo)
3c) generosidade
MAU em Hebraico
er ra‘
adj.
1) ruim, mau
1a) ruim, desagradável,
maligno
1b) ruim, desagradável,
maligno (que causa dor, infelicidade, miséria)
1c) mau, desagradável
1d) ruim (referindo-se à
qualidade-terra, água, etc)
1e) ruim (referindo-se ao
valor)
1f) pior que, o pior
(comparação)
1g) triste, infeliz
1h) mau (muito dolorido)
1i) mau, grosseiro (de mau
caráter)
1j) ruim, mau, ímpio
(eticamente)
1j1) referindo-se de forma
geral, de pessoas, de pensamentos
1j2) atos, ações
n. m.
2) mal, aflição, miséria,
ferida, calamidade
2a) mal, aflição, adversidade
2b) mal, ferida, dano
2c) mal (sentido ético)
n. f.
3) mal, miséria, aflição,
ferida
3a) mal, miséria, aflição
3b) mal, ferida, dano
3c) mal (ético)
procedente de eer ra‘a‘
1) ser ruim, ser mau
1a) (Qal)
1a1) ser desagradável
1a2) ser triste
1a3) ser ofensivo, ser mau
1a4) ser perverso, ser mau (eticamente)
1b) (Hifil)
1b1) causar dano, ferir
1b2) agir maldosa ou perversamente
1b3) erro (particípio)
2) quebrar, despedaçar
2a) (Qal)
2a1) quebrar
2a2) quebrado (particípio)
2a3) ser quebrado
2b) (Hitpolel) ser quebrado, ser despedaçado, ser totalmente quebrado
1) Primeiramente, as ações foram chamadas de boas e más, por suas consequências (úteis ou nocivas);
2) Em seguida, esquecemos a origem dessas designações, sem levar em conta as consequências. "Bom" e "mau', nessa etapa, são propriedades inerentes às ações;
3) Num terceiro momento, atribuímos as propriedades bom e mau aos motivos;
4) Por fim, atribuímos o predicado bom ou mau [gut oder böse] a todo o ser do homem, não somente a motivos isolados. (cf. MA I/HH I, 39, KSA 2.62)https://doi.org/10.1590/2316-82422016v3701cla
5-Não há associação entre termos positivos com os sacerdotes ou reis e profetas:
aysn
nasiy’ ou asn nasi’
1) pessoa elevada, chefe, príncipe, capitão, líder
2) névoa, vapor
procedente de asn nasa’ ou hon nacah (#Sl 4.6)
1) levantar, erguer, carregar, tomar
1a) (Qal)
1a1) levantar, erguer
1a2) levar, carregar, suportar, sustentar, agüentar
1a3) tomar, levar embora, carregar embora, perdoar
1b) (Nifal)
1b1) ser levantado, ser exaltado
1b2) levantar-se, erguer-se
1b3) ser levado, ser carregado
1b4) ser levado embora, ser carregado, ser arrastado
1c) (Piel)
1c1) levantar, exaltar, suportar, ajudar, auxiliar
1c2) desejar, anelar (fig.)
1c3) carregar, suportar continuamente
1c4) tomar, levar embora
1d) (Hitpael) levantar-se, exaltar-se
1e) (Hifil)
1e1) fazer carregar (iniqüidade)
1e2) fazer trazer, ter trazido
jylv
shalliyt
1) soberano, dominador, senhor
1a) que tem domínio
1a1) governante (subst)
1b) dominador, tirano
1a) (Qal) dominar, mandar, tornar-se senhor
1b) (Hifil)
1b1) conceder poder de
1b2) ter domínio de
lvm mashal
uma raiz primitiva;
1) governar, ter domínio, reinar
1a) (Qal) governar, ter
domínio
1b) (Hifil)
1b1) levar a governar
1b2) exercer domínio
"Esses genealogistas da moral teriam sequer sonhado, por exemplo, que o grande conceito moral de "culpa" teve origem no conceito muito material de "dívida?
Ou que o castigo, sendo reparação, desenvolveu-se completamente à margem de qualquer suposição acerca da liberdade ou não-liberdade da vontade? - e isto ao ponto de se requerer primeiramente um alto grau de humanização, para que o animal "homem" comece a fazer aquelas distinções bem mais elementares, como "intencional", "negligente", "casual", "responsável" e seus opostos, e a levá-las em conta na atribuição do castigo.O pensamento agora tão óbvio, aparentemente tão natural e inevitável, que teve de servir de explicação para como surgiu na terra o sentimento de justiça, segundo o qual "o criminoso merece castigo porque podia ter agido de outro modo", é na verdade uma forma bastante tardia e mesmo refinada do julgamento e do raciocínio humanos; quem a desloca para o início, engana-se grosseiramente quanto à psicologia da humanidade antiga.Durante o mais largo período da história humana, não se castigou porque se responsabilizava o delinqüente por seu ato, ou seja, não pelo pressuposto de que apenas o culpado devia ser castigado - e sim como ainda hoje os pais castigam seus filhos, por raiva devida a um dano sofrido, raiva que se desafoga em quem o causou; mas mantida em certos limites, e modificada pela idéia de que qualquer dano encontra seu equivalente e pode ser realmente compensado, mesmo que seja com a dor do seu causador. De onde retira sua força esta idéia antiqüíssima, profundamente arraigada, agora talvez inerradicável, a idéia da equivalência entre dano e dor? Já revelei: na relação contratual entre credor e devedor, que é tão velha quanto a existência de "pessoas..." Para a genealogia da moral : uma polemica (1877) Friedrich Nietzsche "Segunda Dissertação- "Culpa", "má consciência" e coisas afins. 4
Desde a antiguidade muitos povos traziam a punição como responsabilidade do transgressor pelo ato, não por raiva, inclusive as vezes com pagamento monetário ou mesmo a morte:
26º - Se um oficial ou um gregário que foi chamado às armas para ir no serviço do rei, não vai e assolda um mercenário e o seu substituto parte, o oficial ou o gregário deverá ser morto, aquele que o tiver substituído deverá tomar posse da sua casa.55º - Se alguém abre o seu reservatório d'água para irrigar, mas é negligente e a água inunda o campo de seu vizinho, ele deverá restituir o trigo conforme o produzido pelo vizinho.105º - Se o comissionário é negligente e não retira a quitação da soma que ele deu ao negociante, não poderá receber a soma que não é quitada
131º - Se a mulher de um homem livre é acusada pelo próprio marido, mas não surpreendida em contato com outro, ela deverá jurar em nome de Deus e voltar à sua casa236º - Se alguém freta o seu barco a um bateleiro e este e negligente, mete a pique ou faz que se perca o barco, o bateleiro deverá ao proprietário barco por barco249º - Se alguém aluga um boi e Deus o fere e ele morre, o locatário deverá jurar em nome de Deus e ir livre.142º - Se uma mulher discute com o marido e declara: "tu não tens comércio comigo", deverão ser produzidas as provas do seu prejuízo, se ela é inocente e não há defeito de sua parte e o marido se ausenta e a descura muito, essa mulher não está em culpa, ela deverá tomar o seu donativo e voltar à casa de seu pai.266º - Se no rebanho se verifica um golpe de Deus ou um leão os mata, o pastor deverá purgar-se diante de Deus e o acidente do rebanho deverá ser suportado pelo proprietário.267º - Se o pastor foi negligente e se verifica um dano no rebanho, o pastor deverá indenizar o dano, que ele ocasionou no rebanho em bois ou ovelhas e dar ao proprietário.
Para que o sofrimento oculto, não descoberto, não testemunhado, pudesse ser abolido do mundo e honestamente negado, o homem se viu então praticamente obrigado a inventar deuses e seres intermediários para todos os céus e abismos, algo, em suma, que também vagueia no oculto, que também vê no escuro, e que não dispensa facilmente um espetáculo interessante de dor. Foi com ajuda de tais invenções que a vida conseguiu então realizar a arte em que sempre foi mestra: justificar a si mesma, justificar o seu "mal"; agora ela talvez necessite de outros inventos (por exemplo, vida como enigma, vida como problema do conhecimento). Genealogia da moral 7
116. O cristão comum. — Se o cristianismo tivesse razão em suas teses acerca de um Deus vingador, da pecaminosidade universal, da predestinação e do perigo de uma danação eterna, seria um indício de imbecilidade e falta de caráter não se tornar padre, apóstolo ou eremita e trabalhar, com temor e tremor, unicamente pela própria salvação; pois seria absurdo perder assim o benefício eterno, em troca da comodidade temporal. Supondo que se creia realmente nessas coisas, o cristão comum é uma figura deplorável, um ser que não sabe contar até três, e que, justamente por sua incapacidade mental, não mereceria ser punido tão duramente quanto promete o cristianismo. Humano, Demasiadamente Humano
117. Da inteligência do cristianismo. — É artimanha do cristianismo ensinar a total indignidade, pecaminosidade e abjeção do homem, em voz tão alta que o desprezo ao semelhante já não é possível. "Ele pode pecar quanto queira, contudo não se diferencia essencialmente de mim: eu é que sou, em todos os graus, indigno e abjeto", assim diz o cristão. Mas mesmo esse sentimento perdeu seu aguilhão mais agudo, pois o cristão não crê em sua abjeção individual: ele é mau por ser homem simplesmente, e se tranqüiliza um pouco dizendo: "Somos todos da mesma espécie" Humano, Demasiadamente Humano
119. Destino do cristianismo. — O cristianismo nasceu para aliviar o coração; mas agora deve primeiro oprimi-lo, para mais adiante poder aliviá-lo. Em conseqüência, perecerá. Humano, Demasiadamente Humano
6-Jesus imaturo de palavras delirantes, deseja o inferno a nós
Em verdade, morreu cedo demais aquele hebreu que é honrado pelos pregadores da morte lenta: e para muitos foi uma fatalidade, desde então, que ele morresse cedo demais. Ainda conhecia apenas lágrimas e a melancolia do hebreu, juntamente com o ódio dos bons e justos — o hebreu Jesus: então foi acometido pelo anseio da morte. Tivesse ele permanecido no deserto, longe dos bons e justos! Talvez tivesse aprendido a viver e aprendido a amar a terra — e também o riso! Crede em mim, irmãos! Ele morreu cedo demais; ele próprio teria renegado sua doutrina, se tivesse alcançado a minha idade! Era nobre o bastante para renegá-la! Mas ainda era imaturo. De modo imaturo ama o jovem, e também de modo imaturo odeia os homens e a terra. Pesados e presos ainda são seu ânimo e as asas de seu espírito. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Martin Claret: 2012 p. 77
Mas eu sofri e sofro com eles: para mim, são prisioneiros e homens marcados. Aquele a quem chamam Salvador lhes pôs cadeias: — Cadeias de falsos valores e palavras delirantes! Ah, se alguém os salve de seu Salvador!55 Numa ilha acreditaram certa vez aportar, ao serem arrastados pelo mar; mas olha, era um monstro adormecido! Falsos valores e palavras delirantes: eis os piores monstros para os mortais — durante uma longa espera neles dorme a fatalidade, e espera. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Martin Claret: 2012p.92
Qual tem sido o maior pecado aqui na terra? Não foi a palavra daquele que disse: “Ai daqueles que agora riem!”? Ele próprio não achou na terra motivos para o riso? Se for assim, ele procurou mal. Até mesmo uma criança encontra motivos para isso.
Ele próprio não amou o bastante. Ele é fruto da plebe: de outro modo teria se indignado tanto por não ter amado também a nós, os risonhos! Entretanto nos odiou e escarneceu,, desejou-nos muito choro e ranger de dentes.
Devemos então amaldiçoar imediatamente aquele que não ama? Isso — parece-me de mau gosto. Mas assim ele fez isso, entretanto, esse homem absoluto. Ele é fruto da plebe.Ele próprio não amou bastante: de outro modo, não teria se indignado tanto por não ter sido amado. Todo grande amor não deseja amor: — deseja mais do que isso.
Evitai esses homens absolutos! Eles vem de um tipo pobre e doentio, um tipo da plebe: olham para sua vida, com uma vontade doentia, tem um mau olhado sobre esta terra.
Evitai esses homens absolutos! Eles têm pés pesados e corações sufocantes — eles não sabem dançar. Como pode a terra ser leve para esses homens? Assim falou Zaratustra. São Paulo: Martin Claret: 2012, p. 289
Resposta:
Nenhum texto da bíblia diz que Deus deseja a nós choro e ranger de dentes, pelo contrário:
João 3:16 Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
João 6:50 Este é o pão que desce do céu, para que todo o que dele comer não pereça.
2 Pedro 3:9 Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.
Hebreus 2:9 vemos, todavia, aquele que, por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem.
2 Pe 2:1 ¶ Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição.
Lc 7:34 Veio o Filho do Homem, comendo e bebendo, e dizeis: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores!
Jo 2:1 ¶ Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galiléia, achando-se ali a mãe de Jesus.2 Jesus também foi convidado, com os seus discípulos, para o casamento.
3 Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho.
4 Mas Jesus lhe disse: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora.
5 Então, ela falou aos serventes: Fazei tudo o que ele vos disser.
6 Estavam ali seis talhas de pedra, que os judeus usavam para as purificações, e cada uma levava duas ou três metretas.
7 Jesus lhes disse: Enchei de água as talhas. E eles as encheram totalmente.
8 Então, lhes determinou: Tirai agora e levai ao mestre-sala. Eles o fizeram.
9 Tendo o mestre-sala provado a água transformada em vinho (não sabendo donde viera, se bem que o sabiam os serventes que haviam tirado a água), chamou o noivo
10 e lhe disse: Todos costumam pôr primeiro o bom vinho e, quando já beberam fartamente, servem o inferior; tu, porém, guardaste o bom vinho até agora.
11 Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galiléia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele.
7-A compaixão impede o crescimento da vida?
Os fracos e os malogrados devem perecer: primeiro princípio de nossa caridade. E realmente deve-se ajudá-los nisso. O que é mais nocivo que qualquer vício? – A compaixão posta em prática em nome dos malogrados e dos fracos – o cristianismo... O Anticristo III
Não devemos enfeitar nem embelezar o cristianismo: ele travou uma guerra de morte contra este tipo de homem superior, anatematizou todos os instintos mais profundos desse tipo, destilou seus conceitos de mal e de maldade personificada a partir desses instintos – o homem forte como um réprobo, como “degredado entre os homens”. O cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo e fracassado; forjou seu ideal a partir da oposição a todos os instintos de preservação da vida saudável; corrompeu até mesmo as faculdades daquelas naturezas intelectualmente mais vigorosas, ensinando que os valores intelectuais elevados são apenas pecados, descaminhos, tentações. O exemplo mais lamentável: o corrompimento de Pascal, o qual acreditava que seu intelecto havia sido destruído pelo pecado original, quando na verdade tinha sido destruído pelo cristianismo! –O Anticristo VIA própria vida apresenta-se a mim como um instinto para o crescimento, para a sobrevivência, para a acumulação de forças, para o poder: sempre que falta a vontade de poder ocorre o desastre. Afirmo que todos os valores mais elevados da humanidade carecem dessa vontade – que os valores de decadência, de niilismo, agora prevalecem sob os mais sagrados nomes.O Anticristo VIIChama-se cristianismo a religião da compaixão. – A compaixão está em oposição a todas as paixões tônicas que aumentam a intensidade do sentimento vital: tem ação depressora. O homem perde poder quando se compadece. Através da perda de força causada pela compaixão o sofrimento acaba por multiplicar-se. O sofrimento torna-se contagioso através da compaixão; sob certas circunstancias pode levar a um total sacrifício da vida e da energia vital – uma perda totalmente desproporcional à magnitude da causa (– o caso da morte de Nazareno). Essa é uma primeira perspectiva; há, entretanto, outra mais importante.Medindo os efeitos da compaixão através da intensidade das reações que produz, sua periculosidade à vida mostra-se sob uma luz muito mais clara. A compaixão contraria inteiramente lei da evolução, que é a lei da seleção natural. Preserva tudo que está maduro para perecer; luta em prol dos desterrados e condenados da vida; e mantendo vivos malogrados de todos os tipos, dá à própria vida um aspecto sombrio e dúbio. A humanidade ousou denominar a compaixão uma virtude (– em todo sistema de moral superior ela aparece como uma fraqueza –); indo mais adiante, chamaram-na a virtude, a origem e fundamento de todas as outras virtudes – mas sempre mantenhamos em mente que esse era o ponto de vista de uma filosofia niilista, em cujo escudo há a inscrição negação da vida. Schopenhauer estava certo nisto: através a compaixão a vida é negada, e tornada digna de negação – a compaixão é uma técnica de niilismo.Permita-me repeti-lo: esse instinto depressor e contagioso opõe-se a todos os instintos que se empenham na preservação e aperfeiçoamento da vida: no papel de defensor dos miseráveis, é um agente primário na promoção da decadência – compaixão persuade à extinção... É claro, ninguém diz “extinção”: dizem “o outro mundo”, “Deus”, “a verdadeira vida”, Nirvana, salvação, bem-aventurança... Essa inocente retórica do reino da idiossincrasia moral-religiosa mostra-se muito menos inocente quando se percebe a tendência que oculta sob palavras sublimes: a tendência à destruição da vida. ... O Anticristo– VIII
"Considera a compaixão como uma fraqueza que é preciso combater. “O objetivo é alcançar essa enorme energia de grandeza que pode modelar o homem do futuro por meio da disciplina e também do aniquilamento de milhões de esfarrapados e que pode, não obstante, evitar de cair na ruína ante o sofrimento criado por isso, de que não se viu nunca, antes, coisa semelhante”.
Profetizava, com certo júbilo, uma era de grandes guerras; a gente fica a pensar se teria sido feliz se houvesse vivido o bastante para ver a realização de sua profecia.
No entanto, não é um adorador do Estado; longe disso. É um individualista apaixonado, um crente no herói. A miséria de toda uma nação, diz ele, é menos importante do que o sofrimento de um grande indivíduo: “Os infortúnios de toda essa gente pequena não constituem, reunidos, uma soma total, salvo nos sentimentos dos homens poderosos”.
Bertrand Russel -História da Civilização Ocidental
Bertrand Russel pensa que a oposição de Nietzsche aos cristãos vem do do medo:
Nietzsche condena o amor cristão por achar que se trata de resultado do medo: temo que o próximo me prejudique, e por isso asseguro-lhe que o amo. Se fosse eu mais forte e audacioso, revelaria abertamente o desprezo que obviamente lhe dedico. Não ocorre ao filósofo que alguém possa sentir amor universal, porque ele mesmo evidentemente nutre ódio e medo de quase todos, disfarçando-os sob a máscara de uma altiva indiferença. O “nobre” — que, em seus devaneios, era ele mesmo — é um ser destituído de
qualquer compaixão, alguém implacável, engenhoso, cruel, preocupado somente com o próprio poder. O rei Lear, à beira da loucura, declara:Tantas coisas farei —Quais, ainda ignoro, mas hão de serO terror da Terra inteira.Eis, em pouquíssimas palavras, a filosofia de Nietzsche.
Jamais lhe ocorreu que a ânsia pelo poder de que dota seu superhomem é, por si mesma, fruto do medo. Aqueles que não temem o próximo não sentem a necessidade de ser opressivos para com ele. Homens que dominaram o medo não possuem a desvairada qualidade que têm os Neros, os “artistas-tiranos” de Nietzsche, os quais procuram desfrutar da música e do massacre enquanto seus corações são tomados pelo medo do inevitável golpe de Estado. Não nego que, em parte graças a sua doutrina, o mundo real se tornou muito semelhante a esse pesadelo, mas isso não a torna menos terrível.
Existem dois tipos de santo: aquele que o é por natureza e aquele que o é por medo. O santo por natureza nutre amor espontâneo pela humanidade; pratica o bem porque fazê-lo causa-lhe felicidade. O santo que nasce do medo, por sua vez, a exemplo de quem só deixa de roubar por conta da polícia, seria iníquo caso não se visse coagido pela imagem do fogo infernal ou da vingança de seus próximos. Nietzsche só consegue conceber este segundo tipo; seu medo e ódio são tão grandes que o amor espontâneo pela humanidade lhe parece impossível. Jamais concebeu alguém que, com o destemor e o orgulho obstinado do super-homem, não inflige dor porque não deseja fazê-lo. Porventura alguém acha que Lincoln fez o que fez por temer o inferno? Não obstante, ele é, para Nietzsche, alguém abjeto, enquanto Napoleão se afigura como personagem magnífico. Bertrand Russel -História da Civilização Ocidental
Exatamente o contrário é exigido pelas mais profundas leis da autopreservação e do crescimento: que cada homem crie sua própria virtude, seu próprio imperativo categórico(2). O anticristo XII
No cristianismo, nem a moral nem a religião têm qualquer ponto de contado com a realidade. São oferecidas causas puramente imaginárias (“Deus”, “alma”, “eu”, “espírito”, “livre arbítrio” – ou mesmo o “não-livre”) e efeitos puramente imaginários (“pecado”, “salvação”, “graça”, “punição”, “remissão dos pecados”). Um intercurso entre seres imaginários (“Deus”, “espíritos”, “almas”); uma história natural imaginária (antropocêntrica; uma negação total do conceito de causas naturais); uma psicologia imaginária (mal-entendidos sobre si, interpretações equivocadas de sentimentos gerais agradáveis ou desagradáveis, por exemplo, os estados do nervus sympathicus com a ajuda da linguagem simbólica da idiossincrasia moral-religiosa – “arrependimento”, “peso na consciência”, “tentação do demônio”, “a presença de Deus”); uma teleologia imaginária (o “reino de Deus”, “o juízo final”, a “vida eterna”). ... O Anticristo XVI
– Esse mundo puramente fictício, com muita desvantagem, se distingue do mundo dos sonhos; o último ao menos reflete a realidade, enquanto aquele falsifica, desvaloriza e nega a realidade. Após o conceito de “natureza” ter sido usado como oposto ao conceito de “Deus”, a palavra “natural” forçosamente tomou o significado de “abominável” – todo esse mundo fictício tem sua origem no ódio contra o natural (– a realidade! –), é evidência de um profundo mal-estar com a efetividade... Isso explica tudo. Quem tem motivos para fugir da realidade? Quem sofre com ela. Mas sofrer com a realidade significa uma existência malograda... A preponderância do sofrimento sobre o prazer é a causa dessa moral e religião fictícias: mas tal preponderância, no entanto, também fornece a fórmula para a décadence... O Anticristo XVI
19 corça de amores e gazela graciosa. Saciem-te os seus seios em todo o tempo; e embriaga-te sempre com as suas carícias.
Devemos usufruir dos prazeres da vida advindos do nosso trabalho
Eclesiastes 2:24 Nada há melhor para o homem do que comer, beber e fazer que a sua alma goze o bem do seu trabalho. No entanto, vi também que isto vem da mão de Deus,
Eclesiastes 3:13 e também que é dom de Deus que possa o homem comer, beber e desfrutar o bem de todo o seu trabalho.
Eclesiastes 5:18 Eis o que eu vi: boa e bela coisa é comer e beber e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, com que se afadigou debaixo do sol, durante os poucos dias da vida que Deus lhe deu; porque esta é a sua porção.
Eclesiastes 8:15 Então, exaltei eu a alegria, porquanto para o homem nenhuma coisa há melhor debaixo do sol do que comer, beber e alegrar-se; pois isso o acompanhará no seu trabalho nos dias da vida que Deus lhe dá debaixo do sol.
11-Mudança do conceito de Deus?
"conceito de Deus; quando se degenerou progressivamente até tornar-se uma bengala para os cansados, uma tábua de salvação aos que se afogam; quando vira o Deus dos pobres, o Deus dos pecadores, o Deus dos incapazes par excellence, e o atributo de “salvador” ou “redentor” continua como o atributo mais essencial da divindade – qual é a significância de tal metamorfose? O que implica tal redução do divino? – Sem dúvida, com isso o “reino de Deus” cresceu.
Antigamente, tinha somente seu povo, seus “escolhidos”. Mas desde então saiu perambulando, assim como seu próprio povo, a territórios estrangeiros; desistiu de acomodar-se; e finalmente passou a sentir-se em casa em qualquer lugar, esse grande cosmopolita – até agora possui a “grande maioria” ao seu lado, e metade da Terra. Mas esse Deus da “grande maioria”, esse democrata entre os Deuses, não se tornou um Deus pagão orgulhoso: pelo contrário, continua um judeu, continua um Deus das esquinas, um Deus de todos os recantos e gretas, de todos lugares insalubres do mundo!... Seu reino na Terra, agora, assim como sempre, é um reino do submundo, um reino subterrâneo, um reino-gueto... Ele mesmo é tão pálido, tão fraco, tão décadent... Até o mais pálido entre os pálidos é capaz de dominá-lo – os senhores metafísicos, os albinos do intelecto. Esses teceram teias ao seu redor por tanto tempo que finalmente o hipnotizaram, o transformaram em aranha, em mais um metafísico. E então retornou mais uma vez ao seu velho serviço de tecer o mundo a partir de sua natureza interior sub specie Spinozae(2); após isso se transformou em algo cada vez mais tênue e pálido – tornou-se o “ideal”, o “puro espírito”, o “absoluto”, a “coisa em si”... O colapso de um Deus: ele converte-se na “coisa em si”. O Anticristo XVII
2 – Frase de sentido duplo: segundo a óptica de Espinoza e sob a forma de aranha. Trata-se de um jogo de palavras baseado no próprio de Espinoza – spinne significa aranha em alemão.
Resposta:
Nietzsche diz que o conceito de Deus do antigo testamento é tribal e depois esse conceito se modificou. O que ele despreza é que mesmo no Antigo Testamento Deus é apresentado como Deus do Universo e não de um unico povo, isto pode ser notado desde os primeiros capítulos da Bíblia.Mesmo no chamado de Abraão o texto diz que por meio dele todas as famílias da terra seria benditas, e ele mesmo foi abençoado por um gentio, Melquisedeque.
Isaías e outros profetas falaram da salvação universal
Gênesis 12:3 Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra.
Gênesis 28:14 A tua descendência será como o pó da terra; estender-te-ás para o Ocidente e para o Oriente, para o Norte e para o Sul. Em ti e na tua descendência serão abençoadas todas as famílias da terra.
Is 49:6 Sim, diz ele: Pouco é o seres meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e tornares a trazer os remanescentes de Israel; também te dei como luz para os gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra
Salmos 117:1 Louvai ao SENHOR, vós todos os gentios, louvai-o, todos os povos
Nietzsche não conseguir entender que Paulo apenas estava citando o Antigo Testamento:
Rm 15:8 Digo, pois, que Cristo foi constituído ministro da circuncisão, em prol da verdade de Deus, para confirmar as promessas feitas aos nossos pais;
9 e para que os gentios glorifiquem a Deus por causa da sua misericórdia, como está escrito: Por isso, eu te glorificarei entre os gentios e cantarei louvores ao teu nome.
10 E também diz: Alegrai-vos, ó gentios, com o seu povo.
11 E ainda: Louvai ao Senhor, vós todos os gentios, e todos os povos o louvem.
12 Também Isaías diz: Haverá a raiz de Jessé, aquele que se levanta para governar os gentios; nele os gentios esperarão.
12-Ódio aos incrédulos
Também é cristã uma certa crueldade para consigo e para com os outros; o ódio aos incrédulos; o desejo de perseguir. Idéias sombrias e inquietantes ocupam o primeiro plano; os estados mentais mais estimados, portando os nomes mais respeitáveis, são epileptiformes; a dieta é determinada com o fim de engendrar sintomas mórbidos e supra-estimulação nervosa. Também é cristã toda a inimizade mortal aos senhores da terra, aos “aristocratas” – juntamente com uma rivalidade secreta contra eles (– resignam-se do “corpo” – querem apenas a “alma”...). O Anticristo XXII
Ódio aos incrédulos nunca foi um ensino da bíblia.
Mt 5:44 Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem;
45 para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos.
46 Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo?
47 E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo?
É cristão todo o ódio contra o intelecto, o orgulho, a coragem, a liberdade, a libertinagem intelectual; o ódio aos sentidos, à alegria dos sentidos, à alegria em geral, é cristão... O Anticristo XXII
Resposta:
Nenhum texto das Escrituras condena o conhecimento intelectual, tanto é que Moises foi criado no império mais poderoso da época (Egito) e também profeta Daniel e seus 3 amigos (Babilônia).
As Escrituras e opõe às escolas filosóficas como Estoicismo e Epicurismo, neoplatonismo , gnosticismo,etc. mas não ao verdadeiro conhecimento:
1 Coríntios 2:6 Entretanto, expomos sabedoria entre os experimentados; não, porém, a sabedoria deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada;
Caio Plínio Segundo (Plínio o moço), governador da Bitínia entre 111 e 113, enviada a Trajano, imperador de Roma entre 98 e 117 d.C, solicitando instruções de como proceder perante as denúncias contra os cristãos. A epístola, escrita por volta de 112 d.C
Tenho por praxe, Senhor, consultar Vossa Majestade nas questões duvidosas. Quem melhor dirigirá minha incerteza e instruirá minha ignorância? Nunca presenciei nenhum julgamento de cristãos. Por isso ignoro as penalidades e investigações costumeiras, bem como as pautas em uso. Tenho muitas dúvidas a respeito de certas questões, tais como: estabelecem-se diferenças e distinções de acordo com a idade? Cabe o mesmo tratamento a enfermos e robustos? Aqueles que se retratam devem ser perdoados? A quem sempre foi cristão, compete gratificar quando deixa de sê-lo? Há de punir-se o simples fato de alguém ser cristão, mesmo que inocente de qualquer crime, o exclusivamente os delitos praticados sob esse nome?
Entretanto, eis o procedimento que adotei nos casos que me foram submetidos sob acusação de cristianismo. Aos incriminados pergunto se são cristãos. Na afirmativa, repito a pergunta segunda e terceira vez, ameaçando condená-los à pena capital. Se persistirem, condeno-os à morte. Não duvido que, seja qual for o crime que confessem, sua pertinácia e obstinação inflexíveis devem ser punidas. Alguns apresentam indícios de loucura; tratando-se de cidadãos romanos, separo-os para enviá-los a Roma.
Mas o que geralmente se dá é o seguinte: o simples fato de julgar essas causas confere enorme divulgação às acusações, de modo que meu tribunal está inundado com uma grande variedade de casos. Recebi uma lista anônima com muitos nomes. Os que negaram ser cristãos, considerei-os merecedores de absolvição. De fato, sob minha pressão, devotaram-se aos deuses e reverenciaram com incenso e libações vossa imagem colocada, para este propósito, ao lado das estátuas dos deuses, e, pormenor particular, amaldiçoaram a Cristo, coisa que um genuíno cristão jamais aceita fazer.
Outros inculpados da lista anônima começaram declarando-se cristãos e, logo, negaram sê-lo, declarando ter professado esta religião durante algum tempo e renunciando a ela há três ou mais anos; alguns a tinham abandonado há mais de vinte anos. Todos veneraram vossa imagem e as estátuas dos deuses, amaldiçoando a Cristo.
Foram unânimes em reconhecer que sua culpa se reduzia apenas a isso: em determinados dias, costumavam comer antes da alvorada e rezar responsivamente hinos a Cristo, como a um deus; obrigavam-se por juramento não a algum crime, mas à abstenção de roubos, rapinas, adultérios, perjúrios e sonegação de depósitos reclamados pelos donos. Concluído este rito, costumavam distribuir e comer seu alimento. Este, aliás, era um alimento comum e inofensivo.
Eles deixaram essas práticas depois do edito que promulguei, de conformidade com vossas instruções, proibindo as sociedades secretas. Julguei ser mais importante descobrir o que havia de verdade nessas declarações através da tortura a duas moças, chamadas diaconisas, mas nada achei senão superstição baixa e extravagante. Suspendi, portanto, minhas observações na espera do vosso parecer. Creio que o assunto justifica minha consulta, mormente tendo em vista o grande número de vítimas em perigo. Muita gente, de todas as idades e de ambos os sexos, corre o risco de ser denunciada e o mal não terá como parar.
Esta superstição contagiou não apenas as cidades, mas as aldeias e até as estâncias rurais. Contudo, o mal ainda pode ser contido e vencido. Sem dúvida os templos que estavam quase desertos são novamente freqüentados; os ritos sagrados há muito negligenciados, celebram-se de novo; vítimas para sacrifícios estão sendo vendidas por toda a parte, ao passo que, até recentemente, raramente um comprador era encontrado. Esses indícios permitem esperar que legiões de homens sejam susceptíveis de emenda, desde que tenham a oportunidade de se retratar. BETTENSON, H., Documentos da Igreja Cristã, editora ASTE, páginas 28 a 30
Hb 12:3 Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desmaiando em vossa alma.
4 ¶ Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue
Eclesiastes 2:24 Nada há melhor para o homem do que comer, beber e fazer que a sua alma goze o bem do seu trabalho. No entanto, vi também que isto vem da mão de Deus,
Eclesiastes 3:13 e também que é dom de Deus que possa o homem comer, beber e desfrutar o bem de todo o seu trabalho.
Eclesiastes 5:18 Eis o que eu vi: boa e bela coisa é comer e beber e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, com que se afadigou debaixo do sol, durante os poucos dias da vida que Deus lhe deu; porque esta é a sua porção.
Eclesiastes 8:15 Então, exaltei eu a alegria, porquanto para o homem nenhuma coisa há melhor debaixo do sol do que comer, beber e alegrar-se; pois isso o acompanhará no seu trabalho nos dias da vida que Deus lhe dá debaixo do sol
...O cristianismo tinha de adotar conceitos e valorações bárbaras para obter domínio sobre os bárbaros: assim como, por exemplo, o sacrifício do primogênito, a ingestão de sangue como um sacramento, o desprezo pelo intelecto e pela cultura; a tortura sob todas as suas formas, corporal e espiritual; toda a pompa do culto.... O Anticristo XXIII
Resposta:
O sacrifício de primogênito era uma pratica pagã, o judaísmo em contraste prescreveu a consagração do primogênito
Êxodo 13:2 Consagra-me todo primogênito; todo que abre a madre de sua mãe entre os filhos de Israel, tanto de homens como de animais, é meu
Nunca se ingeriu sangue literal, prática inclusive condenada
Levítico 3:17 Estatuto perpétuo será durante as vossas gerações, em todas as vossas moradas; gordura nenhuma nem sangue jamais comereis.
15-Causa natural não existe no Cristianismo?
A noção pública desse Deus agora se torna meramente uma arma nas mãos de agitadores clericais, que interpretam toda felicidade como recompensa e toda desgraça como punição em termos de obediência ou desobediência a Deus, em termos de “pecado”: a mais fraudulenta das interpretações imagináveis, através da qual a “ordem moral do mundo” é estabelecida e os conceitos fundamentais, “causa” e “efeito”, são colocados de ponta cabeça. Uma vez que o conceito de causa natural é varrido do mundo por doutrinas de recompensa e punição, algum tipo de causalidade inatural torna-se necessária: seguem-se disso todas as outras variedades de negação da natureza.
Um Deus que ordena – no lugar de um Deus que ajuda, que dá conselhos, que no fundo é meramente um nome para cada feliz inspiração de coragem e autoconfiança... A moral já não é mais um reflexo das condições que promovem vida sã e o crescimento de um povo; não é mais um instinto vital primário; em vez disso se tornou algo abstrato e oposto à vida – uma perversão dos fundamentos da fantasia, um “olhar maligno” contra todas as coisas. Que é a moral judaica? Que é a moral cristã? A sorte despida de sua inocência; a infelicidade contaminada com a idéia de “pecado”; o bem-estar considerado como um perigo, como uma “tentação”; um desarranjo fisiológico causado pelo veneno do remorso... O Anticristo XXVI
O conceito de Deus falsificado; o conceito de moral falsificado; – mas mesmo aqui os feitos dos padres judaicos não cessaram. – Toda a história de Israel não lhes tinha qualquer valor: então a dispensaram! – Tais padres realizaram essa prodigiosa falsificação da qual grande parte da Bíblia é uma evidência documentária; com um grau de desprezo sem paralelos, e em face de toda a tradição e toda a realidade histórica, traduziram o passado de seu povo em termos religiosos, ou seja, converteram-no em um mecanismo imbecil de salvação, através do qual todas ofensas contra Iavé eram punidas e toda devoção recompensada. Nós consideraríamos esse ato de falsificação histórica algo muito mais vergonhoso se a familiaridade com a interpretação eclesiástica da história por milhares anos não tivesse embotado nossas inclinações à retidão inhitoricis(1). O Anticristo XXVII
Resposta:
A causa natural nunca foi negada na Bíblia , inclusive a noção de acaso:
Eclesiastes 9:11 Vi ainda debaixo do sol que não é dos ligeiros o prêmio, nem dos valentes, a vitória, nem tampouco dos sábios, o pão, nem ainda dos prudentes, a riqueza, nem dos inteligentes, o favor; porém tudo depende do tempo e do acaso.
Alguns homens se queixam da ausência da punição divina:
Sl 72:2 Quanto a mim, porém, quase me resvalaram os pés; pouco faltou para que se desviassem os meus passos.3 Pois eu invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos.
4 Para eles não há preocupações, o seu corpo é sadio e nédio.
5 Não partilham das canseiras dos mortais, nem são afligidos como os outros homens.
6 Daí, a soberba que os cinge como um colar, e a violência que os envolve como manto.
7 Os olhos saltam-lhes da gordura; do coração brotam-lhes fantasias.
8 Motejam e falam maliciosamente; da opressão falam com altivez.
9 Contra os céus desandam a boca, e a sua língua percorre a terra.
10 Por isso, o seu povo se volta para eles e os tem por fonte de que bebe a largos sorvos.
11 E diz: Como sabe Deus? Acaso, há conhecimento no Altíssimo?
12 Eis que são estes os ímpios; e, sempre tranqüilos, aumentam suas riquezas.
13 Com efeito, inutilmente conservei puro o coração e lavei as mãos na inocência.
Jesus mesmo atestou que catástrofes nem sempre são punição divina
Lc 13:1 Naquela mesma ocasião, chegando alguns, falavam a Jesus a respeito dos galileus cujo sangue Pilatos misturara com os sacrifícios que os mesmos realizavam.
2 Ele, porém, lhes disse: Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem padecido estas coisas?
3 Não eram, eu vo-lo afirmo; se, porém, não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis.
4 Ou cuidais que aqueles dezoito sobre os quais desabou a torre de Siloé e os matou eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém?
5 Não eram, eu vo-lo afirmo; mas, se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis.
16- Jesus morreu pelos pecados dele
Não sou capaz de determinar qual foi o alvo da insurreição da qual Jesus foi considerado – seja isso verdade ou não – o promotor, caso não seja a Igreja judaica – a palavra “igreja” sendo usada aqui exatamente no mesmo sentido que possui hoje. Era uma insurreição contra “os bons e os justos”, contra os “Santos de Israel”, contra toda a hierarquia da sociedade – não contra a corrupção, mas contra as castas, o privilégio, a ordem, o formalismo. Era uma descrença no “homem superior”, um Não arremessado contra tudo que padres e teólogos defendiam. Mas a hierarquia que foi posta em causa por esse movimento, ainda que por apenas um instante, era uma jangada que, acima de tudo, era necessária à segurança do povo judaico em meio às “águas” – representava sua última possibilidade de sobrevivência; era o último residuum(2) de sua existência política independente; um ataque contra isso era um ataque contra o mais profundo instinto nacional, contra a mais tenaz vontade de viver de um povo que jamais existiu sobre a Terra. Esse santo anarquista incitou o povo de baixeza abissal, os réprobos e “pecadores”, os chandala do judaísmo a emergirem em revolta contra a ordem estabelecida das coisas – e com uma linguagem que, se os Evangelhos merecem crédito, hoje o conduziria à Sibéria –, esse homem certamente era um criminoso político, ao menos tanto quanto era possível o ser em uma comunidade tão absurdamente apolítica. Foi isso que o levou à cruz: a prova consiste na inscrição colocada sobre ela. Morreu pelos seus pecados – não há qualquer razão para se acreditar, não importa quanto isso seja afirmado, que tenha morrido pelo pecado dos outros. O Anticristo XXVII
Resposta:
Jesus não cometeu nenhum pecado, ele morreu por causa de ter se contraposto a corrupção dos sacerdotes, fariseus, saduceus e doutores da lei judaica
Mateus 27:18 Porque sabia que, por inveja, o tinham entregado.
Marcos 10:45 Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.
Romanos 5:19 Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos.
17-Os discípulos alteraram a doutrina de Jesus?
O pressuposto para ela é que o tipo do Redentor se conservou com uma forte desfiguração. Tal desfiguração tem em si muita verosimilhança: este tipo não podia, por várias razões, manter-se puro, completo, livre de adições. O meio em que se movia esta estranha figura, e mais ainda, a história, o destino das primeiras comunidades cristãs, devem nele ter deixado vestígios: a partir dele, por retroacção, o tipo foi enriquecido com traços que só se tornam compreensíveis em virtude da guerra e para fins de propaganda.
Aquele mundo estranho e doente, em que os Evangelhos nos introduzem – um mundo como que saído de uma novela russa, onde o lixo da sociedade, a enfermidade nervosa e a idiotia «infantil» parecem ter marcado encontro – deve em todas as circunstâncias ter tornado mais tosco o tipo.
Os primeiros discípulos, em particular, traduziram primeiro para a sua crueza própria um ser flutuando em símbolos e incompreensibilidades para dele compreenderem em geral alguma coisa – para eles só existiu após uma moldagem em formas conhecidas... O Profeta, o Messias, o juiz futuro, o professor de moral, o taumaturgo, João Baptista – outras tantas ocasiões para avaliar indevidamente o tipo... Por fim, não minimizemos o proprium de toda a grande veneração, em particular a sectária: apaga no ser venerado os traços originários, muitas vezes penosamente estranhos, e as idiossincrasias – deixa até de os ver.
Deveria lamentar-se que um Dostoievsky não tenha vivido na proximidade deste interessantíssimo décadent, quero dizer, alguém que soubesse sentir justamente o fascínio comovente de uma tal mescla de sublime, de doentio e infantil.
Um último ponto de vista: o tipo, enquanto tipo de décadence, poderia efectivamente ter sido de uma peculiar multiplicidade e contrariedade: tal possibilidade não deve de todo excluir-se. Não obstante, dela tudo parece dissuadir-nos: a tradição deveria neste caso ser notavelmente fiel e objectiva; temos a seu respeito razões para admitir o contrário. Entretanto, há uma contradição entre o pregador das montanhas, dos lagos e dos prados, cuja manifestação é como a de um Buda num terreno muito pouco indiano, e aquele fanático da agressão e inimigo mortal dos teólogos e dos sacerdotes, que a malícia de Renan exaltou como «le grand maître en ironie». Eu próprio não duvido de que a copiosa dose de fel (e até de esprit) foi derramada sobre o tipo do Mestre só em virtude do estado de agitação da propaganda cristã: conhece-se sobejamente a falta de escrúpulos de todos os sectários em aprontar a sua própria apologia a partir do seu mestre. Quando a primeira comunidade precisou de um teólogo justiceiro, querelante, tempestuoso, perversamente capcioso contra os teólogos, criou para si o seu «Deus», segundo as suas necessidades: assim como também lhe pôs, sem hesitação, na boca os conceitos de todo contrários ao Evangelho, que agora não poderia dispensar, a «segunda vinda» [de Cristo], o «Juízo Final», toda a espécie de esperança e promessa temporais. O Anticristo XXXI
Resposta:
O filósofo extrai segundo sua concepção pessoal traços de Jesus e o reduz , como veremos a seguir, numa pessoa com enfermidade no sistema nervoso, um idiota. Ele faz alusão ao escrito de Dostoievsky. Jesus se resume a um homem infantil, assexual e idiota - (ver abaixo) https://br.rbth.com/cultura/87463-o-idiota-de-dostoi%C3%A9vski-resumido
18-Jesus um idiota- idiotia infantil?
O que me importa é o tipo psicológico do Salvador. Esse tipo talvez seja descrito nos evangelhos, apesar de que em uma forma mutilada e saturada de caracteres estrangeiros – isto é, a despeito dos Evangelhos; assim como a figura de Francisco de Assis se apresenta em suas lendas a despeito de suas lendas. A questão não é a veracidade das evidências sobre seus feitos, seus ditos ou sobre como foi sua morte; a questão é se seu tipo ainda pode ser compreendido, se foi conservado. – Todas as tentativas de que tenho conhecimento de se ler a história da “alma” nos Evangelhos revelam para mim apenas uma lamentável leviandade psicológica. O senhor Renan, esse arlequim in psychologicis, forneceu para a sua explicação do tipo de Jesus os dois conceitos mais inadequados que aqui se podem dar: o conceito de génio e o conceito de herói. Justamente o contrário de toda a luta, de todo o sentimento belicoso, tornou-se ali instinto: a incapacidade de resistência muda-se aqui em moral («não resistas ao mal», a palavra mais profunda dos Evangelhos, a sua chave em certo sentido), a beatitude na paz, na doçura, no não-poder-ser-inimigo! Que significa a «Boa Nova»? Encontrou-se a verdadeira vida, a vida eterna – não é prometida, está aqui, está em vós: como vida no amor, no amor sem retraimento e exclusão, sem distância. Cada um é filho de Deus – Jesus nada absolutamente pretende só para si, como filho de Deus –, cada um é igual a todos... Fazer de Jesus um herói! E que mal-entendido não é a palavra «génio»! Todo o nosso conceito, o nosso conceito cultural de «espírito» não tem nenhum sentido no mundo em que Jesus vive. Com a linguagem rigorosa do fisiólogo, estaria aqui melhor no seu lugar uma palavra de todo diferente: a palavra idiota. Conhecemos um estado de irritação mórbida do sentido do tacto, que se retrai perante cada acto de contacto, perante toda a captação de um objecto sólido. Traduz-se semelhante habitus fisiológico para a sua lógica derradeira – como ódio instintivo contra toda a realidade, como fuga para o «impalpável», para o «incompreensível», como aversão contra toda a fórmula, todo o conceito de tempo e de espaço, contra tudo o que é sólido, costume, instituição, Igreja; como o estar-em-casa num mundo em que nenhuma espécie de realidade ainda se agita, num mundo simplesmente «interior», num mundo «verdadeiro», num mundo «eterno»... «O reino de Deus está em vós»... O Anticristo XXIXResposta:
“O fato de que os verdadeiros instintos viris – não somente os sexuais, mas igualmente os de luta, orgulho, heroísmo – não foram jamais despertados nele, o fato de que seja retardado [zurückgeblieben] e tenha permanecido infantilmente na fase da puberdade: eis o que é próprio de certo tipo de neurose epileptóide.” FP 14 [38] da primavera de 1888. Sobre a relação entre idiotia e epilepsia, cf.: Féré, Charles. Épilepsies et les épileptiques. Paris: Félix Alcan, 1890, especialmente pp. 231-232.
Ora, o príncipe Liev Nikoláievitch Míchkin era um jovem russo, que retornara com 26 anosde idade à Rússia, após um período de tratamento médico na Suíça. Com frequentes ataques epilépticos, Míchkin encontrou na Suíça um local adequado para restabelecer sua saúde. Contudo, seu tratamento trouxe consigo uma transformaçãopsicofisiológica. Por um lado, toda obra O idiota é uma ode à compaixão. Por outro, há uma sublime fragilidade em Míchkin que o leva a ser alguém diferenciado, inadequado a certos padrões comportamentais hegemônicos Entretanto, Dostoiévski acrescentou a esses traços e caracteres psicofisiológicos a ideia russa de iuród. Trata-se do caráter esquisito, que faz de Míchkin alguém idiota, sem ser, contudo, doente mental. Nas palavras de Bezerra: “O esquisito é aquele que se desvia acentuadamente do papel social que lhe destinam, o iuród tanto pode ser um indivíduo atoleimado, juridicamente irresponsável, como um mendigo e louco com dons proféticos”.61 Essa esquisitice capaz de integrar compaixão, beleza e desajuste atravessa as vicissitudes trágicas de toda obra. Importa salientar somente alguns aspectos do romance que permitem inteligir o tipo psicofisiológico de Míchkin....“Esse ‘idiota’ (...) às vezes era capaz de compreender tudo imediatamente e nas sutilezas e transmitir de maneira extremamente satisfatória”,62 ou seja, Míchkin não era estúpido, era possuidor de um tipo profundo de compreensão do outro e de seus modos de ser. Essa compreensão, todavia, não era acompanhada por qualquer capacidade de tirar proveito do outro. Míchkin não manipula nem explora ninguém. Por isso, sua sabedoria não cria subterfúgios, resistências ou máscaras. Sendo capaz de dar a outra face, o perdão irrompe com facilidade em seus comportamentos.Após ser ofendido por Gánia e lhe ter dito o quanto se sentira mal com a ofensa, Míchkin foi capaz de perdoá-lo tão logo o primeiro se desculpou por sua agressividade:...Em outras palavras, nem diante do assassino da mulher pela qual nutria amor e compaixão Míchkin conseguiu travar um embate ou mesmo vingar-se. O amor sem iracúndia era sua única opção.
No caso do tipo do Redentor, Nietzsche se orienta pela tipologia do idiota dostoievskiano, patente no personagem Míchkin, de O idiota. Ao se deparar com Jesus, o Redentor aparece como destituído de qualquer forma de ressentimento. Não é, portanto, escravo. Contudo, não é nobre ou senhor. Antes, Jesus é um idiota, pois afirma o amor como sua única possibilidade e é avesso a todo tipo de oposição e conflitividade. Ao amar até o inimigo, Jesus retoma psicofisiologicamente Míchkin, alguém que afaga até o assassino de Nastácia, aquela que ele buscava proteger com o seu amor. Ora, Míchkin mostra para Nietzsche a possibilidade de uma vida não ressentida não ser necessariamente uma vida afirmativa. É isso que permite a Nietzsche desvincular Jesus de alguma modalização do tipo do além-do-homem, forma de existência caracterizada pela plena afirmatividade da vontade de poder. Ademais, o tipo do Redentor também permite a Nietzsche compreender que as culturas ocidentais produziram hegemonias escravas não por causa de Jesus, mas por causa do caráter sacerdotal do cristianismo paulino, que é a forma histórica vitoriosa e preponderante de cristianismo.Cabral, A. (2021). Dostoiévski em Nietzsche: considerações crítico-genealógicas. RUS (São Paulo), 12(18). https://doi.org/10.11606/issn.2317-4765.rus.2021.184281
Eu devo observar ao senhor, Gavrila Ardaliónovitch – disse subitamente o príncipe –, que antes eu realmente era uma pessoa tão sem saúde que de fato era quase um idiota; mas hoje estou restabelecido há muito tempo e por isso acho um tanto desagradável quando me chamam de idiota na cara (DOSTOIÉVSKI, F. O Idiota, p. 114)
ele [Schneider] me disse que se havia convencido inteiramente de que eu mesmo sou uma criança perfeita, isto é, plenamente criança, que apenas pelo tamanho e pelo rosto eu me pareço com um adulto, mas que pelo desenvolvimento, a alma o caráter e talvez até a inteligência eu não sou um adulto e assim o serei mesmo que viva até o sessenta anos. Eu ri muito: é claro que ele não tem razão, porque, que criança sou eu? No entanto existe aí apenas uma verdade; eu realmente não gosto de estar com adultos, com pessoas, com grandes – isso eu notei faz tempo –, não gosto porque não sei (DOSTOIÉVSKI, F. O idiota, pp. 98-99).
“Em primeiro lugar, esse principezinho é um idiota doente, em segundo um imbecil, não conhece nem a sociedade, não tem nem um lugar na sociedade” (DOSTOIÉVSKI, F. O Idiota, p. 567)
Talvez o senhor não saiba, mas por causa da minha doença congênita nunca conheci mulher” (DOSTOIÉVSKI, F. O idiota, p. 33).
Talvez aqui [em Petersburgo] também me achem uma criança – que achem! Também me acham idiota sabe-se lá por quê, eu realmente estive tão doente naquela época que parecia mesmo um idiota; mas que idiota sou agora, quando eu mesmo compreendo que me consideram um idiota? Entro em algum lugar e penso: “Pois bem, me consideram idiota, mas apesar de tudo eu sou inteligente e eles nem adivinham” (DOSTOIÉVSKI, F. O idiota, p. 100).38
Esta passagem pode muito bem indicar que ao classificar Jesus como idiota, Nietzsche não está querendo lhe imputar o aspecto de “parvo”, “imbecil”, “tolo”, ”estúpido”, “sem inteligência”, etc. Mas alguém cujo condicionamento fisiológico o impede de interagir com a efetividade do mundo que o rodeia, de entender as necessidades, também fisiológicas, do homem público e do mundo que este constrói e habita. Revista Trágica: estudos sobre Nietzsche – 1º semestre 2010 – Vol.3 – nº1 – pp. 21-40 21 -O Jesus de Nietzsche e o príncipe Míchkin de Dostoiévski Allan Davy Santos Sena
Refletindo mais tarde sobre esse instante, já em estado sadio, ele dizia freqüentemente de: que todos esses raios e relâmpagos da suprema auto-sensação e autoconsciência e, portanto, da “suprema existência” não passam de uma doença, de perturbação do estado normal e, sendo assim, nada têm de suprema existência, devendo, ao contrário, ser incluídos na mais baixa existência. E, não obstante, ainda assim ele acabou chegando a uma conclusão extremamente paradoxal: “Qual é o problema de ser isso uma doença? – decidiu finalmente. – Qual é o problema se essa tensão é anormal, se o próprio resultado, se o minuto da sensação lembrada e examinada já em estado sadio vem a ser o cúmulo da harmonia, da beleza, dá uma sensação inaudita e até então inesperada de plenitude, de medida, de conciliação e de fusão extasiada e suplicante com a mais sublime síntese da vida?” (DOSTOIÉVSKI, F. O Idiota, p. 261)
O uso que Nietzsche faz do termo “idiota” para classificar o tipo psicológico do Redentor em O Anticristo, não possui acepção agressiva, pejorativa ou detratora, mas sim remete ao sentido original da palavra vinda do grego idiótes,39 a saber, homem-privado, aquele que não pertence ao ambiente público e ao meio político, um indivíduo totalmente alheio aos negócios do Estado. Revista Trágica: estudos sobre Nietzsche – 1º semestre 2010 – Vol.3 – nº1 – pp. 21-40 21 -O Jesus de Nietzsche e o príncipe Míchkin de Dostoiévski Allan Davy Santos Sena
Conclusão:
Nietzschi chamou Jesus de idiota no sentido de ter uma condição congenita que o impede de ser maduro (idiotia infantil- nas palavras de Nietzsche), avesso a todo tipo de oposição e conflitividade, sem conhecimento real do mundo político (enfermidade nervosa), sem despertamento para sexualidade. Jesus é um ingênuo, fala doutrinas de dentro de si, de auto-afirmações:
Oponho-me, diga-se mais uma vez, a que o fanático se introduza no tipo do Redentor: a palavra impérieux, que Renan usa, anula já por si só o tipo. A «Boa Nova» consiste justamente em já não existirem antagonismos; o Reino dos Céus pertence às crianças; a fé que aqui se faz ouvir não é uma fé adquirida pela luta – ela está aí, está aí desde o princípio, é por assim dizer a ingenuidade que se refugiou no espiritual. O caso da puberdade retardada e não plenamente desenvolvida no organismo como sintoma resultante da degenerescência é familiar, pelo menos, aos fisiólogos. Semelhante fé não se irrita, não censura, não se defende: não usa «a espada» - nem sequer pressente até que ponto ela pode alguma vez criar cisões. Não se demonstra nem por milagres, nem por recompensas e promessas, nem sequer «pela Escritura»: ela é, em cada instante, o seu milagre, a sua recompensa, a sua prova, o seu «Reino de Deus». Esta fé também não se formula – vive, defende-se contra fórmulas. O acaso do meio envolvente, da língua, da formação de fundo determina, sem dúvida, um certo círculo de conceitos: o Cristianismo primitivo serve-se unicamente de conceitos judaico-semíticos (o comer e o beber na ceia integra-se neles, conceito esse de que a Igreja, como de tudo o que é judaico, tão maldosamente abusou).
Mas tem-se o cuidado de não ver aí algo mais do que uma linguagem de sinais, uma semiótica, uma oportunidade para parábolas. Que, justamente, nenhuma palavra se tome à letra é para este anti-realista a condição prévia de em geral poder falar. Entre os Hindus, ter-se-ia servido dos conceitos de sankhyam, entre os Chineses, dos de Lao-Tsé – e sem aí descobrir qualquer diferença.
Com alguma tolerância na expressão, Jesus poderia chamar-se um «espírito livre» - o que é concreto não importa: a palavra mata, tudo o que é sólido mata. O conceito, a experiência «vida», como a única que ele conhece, opõe-se nele a toda a espécie de palavra, fórmula, lei, fé, dogma. Fala simplesmente a partir do mais íntimo – tudo o mais, a realidade integral, a natureza inteira, a própria linguagem tem para ele somente o valor de um sinal, de uma parábola. Importa, neste lugar, não se equivocar de modo algum, por maior que seja a sedução que reside no preconceito cristão, quer dizer eclesiástico: semelhante simbolismo par excellence encontra-se fora de toda a religião, de todo o conceito de culto, de toda a ciência histórica, de toda a ciência natural, de toda a experiência do mundo, de todos os conhecimentos, de toda a política, de toda a psicologia, de todos os livros, de toda a arte – o seu «saber» é pura ignorância de que existem coisas assim. A civilização nem sequer lhe é conhecida por ouvir dizer, não precisa de lutar contra ela – não a nega... O mesmo se diga a propósito do Estado, de toda a ordem civil e da sociedade, do trabalho, da guerra – jamais teve uma razão para negar o «mundo», nunca pressentiu o conceito eclesiástico de «mundo»... A negação é pois, para ele, de todo impossível. Falta-lhe de igual modo a dialéctica, falta-lhe a ideia de que uma fé, uma «verdade» se possa demonstrar mediante razões (as suas provas são «luzes» interiores, sentimentos interiores de prazer e auto-afirmações, genuínas «provas de força»). Uma tal doutrina também não pode contradizer, não compreende sequer que há, e possa haver, outras doutrinas, mas sabe imaginar o juízo contrário... Sempre que com ele depara, entristece-se por compaixão interior com a «cegueira» – porque ela vê a luz –, mas não levantará qualquer objecção...O Anticristo 32
19-Distorções sobre o ensinamento de Jesus e suas práticas
Em toda a psicologia do «Evangelho» falta o conceito de culpa e de castigo; igualmente o conceito de recompensa. O «pecado», toda a relação de distância entre Deus e o homem, é suprimido– é essa justamente a «Boa Nova».
A beatitude não está prometida, não se encontra vinculada a condições: é a única realidade– o resto é sinal para dela se falar...As consequências de um tal estado projectam-se numa prática nova, a prática genuinamente evangélica. Não é a «fé» que distingue o cristão: o cristão age, distingue-se por um agir diferente.
Ao que é mau para com ele não oferece resistência nem por palavras nem no coração. Não faz distinção alguma entre o estrangeiro e o indígena, entre o judeu e o não judeu (o «próximo», em rigor o correligionário na fé, o judeu).
Não se aborrece com ninguém, a ninguém menospreza.
Não se deixa ver nos tribunais, nem faz reivindicações («não jurar» ).
Em nenhum caso se separa da esposa, nem sequer também em caso de adultério comprovado desta última.
Tudo isto é, no fundo, um princípio, tudo é consequência de um instinto.
A vida do Salvador foi tão-só esta prática– a sua morte também nada foi de diferente... Ele já não tinha necessidade nem de fórmulas, nem de ritos, para a sua comunhão com Deus nem sequer da oração. Acabou com toda a doutrina judaica da penitência e da reconciliação; sabe que só com a prática da vida é que alguém se sente «divino», «bem-aventurado», «evangélico», e a cada momento um«Filho de Deus». A «penitência» e a «oração pelo perdão» não são caminhos para Deus: só a prática evangélica leva a Deus, ela é justamente «Deus».
O que se aboliu com o Evangelho foi o judaísmo das noções de «pecado», de «remissão dos pecados», de «fé», de «salvação pela fé»– toda a doutrina eclesiástica judaica foi negada na «Boa Nova». O Anticristo 33
Resposta:
Nietzsche fez uma leitura precipitada dos Evangelhos:
Culpa, castigo, recompensa
Lc 12:47 Aquele servo, porém, que conheceu a vontade de seu senhor e não se aprontou, nem fez segundo a sua vontade será punido com muitos açoites.48 Aquele, porém, que não soube a vontade do seu senhor e fez coisas dignas de reprovação levará poucos açoites. Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão
remissão dos pecados
Mateus 26:28 porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados.
juramento
https://averacidadedafecrista.blogspot.com/2014/09/e-pecado-jurar.html20-Visões dos profetas são doenças mentais
126. Arte e força da falsa interpretação. — Todas as visões, terrores, esgotamentos e êxtases do santo são estados patológicos conhecidos, que ele, a partir de arraigados erros religiosos e psicológicos, apenas interpreta de modo totalmente diverso, isto é, não como doença. — Assim o demônio de Sócrates talvez seja também uma doença do ouvido, que ele apenas explica conforme seu pensamento moral dominante, de maneira diversa de como se faria hoje. Não acontece de outro modo com as loucuras e os delírios dos profetas e sacerdotes oraculares; foi sempre o grau de saber, fantasia, empenho, moralidade na cabeça e no coração dos intérpretes que tanto fez a partir dessas coisas. Entre as maiores realizações daqueles que chamamos de gênios e santos se inclui a de conquistar intérpretes que os compreendem mal para o bem da humanidade. Humano, Demasiadamente Humano
21- Mais distorções sobre o evangelho
Se alguma coisa há que eu compreenda acerca deste grande simbolista é o facto de ele ter tomado como realidades, como «verdades», apenas realidades interiores – de ter considerado o resto, tudo o que é natural, temporal, espacial, histórico, apenas como signos, como oportunidade de parábolas. O conceito de «Filho do homem» não é uma pessoa concreta que pertence à história, algo de individual, de único, mas um facto «eterno», um símbolo psicológico liberto do conceito do tempo. O mesmo se diga mais uma vez, e no mais elevado sentido, do Deus deste simbolista típico, do «Reino de Deus», do «Reino dos Céus», da «filiação divina».
Nada poderia ser mais acristão que as cruas noções eclesiásticas de um Deus como pessoa, de um “reino de Deus” vindouro, de um “reino dos céus” no além e de um “filho de Deus” como segunda pessoa da Trindade. Isso tudo – perdoem-me a expressão – é como soco no olho (e que olho!) do Evangelho: um desrespeito aos símbolos elevado a um cinismo histórico-mundial... Todavia é suficientemente óbvio o significado dos símbolos “Pai” e “Filho” – não para todos, é claro –: a palavra “Filho” expressa a entrada em um sentimento de transformação de todas as coisas (beatitude); “Pai” expressa esse próprio sentimento – a sensação da eternidade e perfeição.
– Envergonho-me de lembrar o que a Igreja fez com esse simbolismo: ela não colocou uma história de Anfitrião(1) no limiar da “fé” cristã? E um dogma da “imaculada conceição” ainda por cima?... – Com isso conseguiu apenas macular a concepção...
O “reino dos céus” é um estado de espírito – não algo que virá “além do mundo” ou “após a morte”. Toda a idéia de morte natural está ausente nos Evangelhos: a morte não é uma ponte, não é uma passagem; está ausente porque pertence a um mundo bastante diferente, um mundo apenas aparente, apenas útil enquanto símbolo. A “hora da morte” não é uma idéia cristã – “horas”, tempo, a vida física e suas crises são inexistentes para o mestre da “boa-nova”... O “reino de Deus” não é uma coisa pela qual os homens aguardam: não teve um ontem nem terá um amanhã, não virá em um “milênio” – é uma experiência do coração, está em toda parte e não está em parte alguma... O Anticristo XXXIV
Resposta:
Nietzsche pinça partes dos evangelhos segundo o critério pessoal de um Jesus com idiotia infantil, assexual e com enfermidade nervosa, tirado da novela de Dostoievsky como vimos acima.
Ele criou interpretações subjetivas do texto desprezando não só os Evangelhos mas o Antigo Testamento:
Filho do Homem se refere ao Messias e o Messias é Filho (Deus)
Dn 7:13 Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem, e dirigiu-se ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele.
14 Foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído.
Mc 14:61 Ele, porém, guardou silêncio e nada respondeu. Tornou a interrogá-lo o sumo sacerdote e lhe disse: És tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito?
62 Jesus respondeu: Eu sou, e vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo com as nuvens do céu.
63 Então, o sumo sacerdote rasgou as suas vestes e disse: Que mais necessidade temos de testemunhas?
64 Ouvistes a blasfêmia; que vos parece? E todos o julgaram réu de morte.
O termo Pai e Filho vem do Antigo Testamento- o Messias era Deus
Isaías 9:6 Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz;
Miquéias 5:2 E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade.
Jo 10:2 Disse-lhes Jesus: Tenho-vos mostrado muitas obras boas da parte do Pai; por qual delas me apedrejais?
33 Responderam-lhe os judeus: Não é por obra boa que te apedrejamos, e sim por causa da blasfêmia, pois, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo.
34 Replicou-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: sois deuses?
35 Se ele chamou deuses àqueles a quem foi dirigida a palavra de Deus, e a Escritura não pode falhar,
36 então, daquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo, dizeis: Tu blasfemas; porque declarei: sou Filho de Deus?
Marcos 12:35 ¶ Jesus, ensinando no templo, perguntou: Como dizem os escribas que o Cristo é filho de Davi?
36 O próprio Davi falou, pelo Espírito Santo: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés.
37 O mesmo Davi chama-lhe Senhor; como, pois, é ele seu filho? E a grande multidão o ouvia com prazer.
O reino de Jesus tinha um aspecto presente e futuro como apontam os estudiosos dos Evangelhos:
João 18:36 Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui
Lc 19:12 Então, disse: Certo homem nobre partiu para uma terra distante, com o fim de tomar posse de um reino e voltar.
13 Chamou dez servos seus, confiou-lhes dez minas e disse-lhes: Negociai até que eu volte.
Lucas 22:16 Pois vos digo que nunca mais a comerei, até que ela se cumpra no reino de Deus.
Mesmo na mais modesta pretensão de equidade, deve hoje saber-se que um teólogo, um sacerdote, umPapa, e cada frase que pronuncia, não só se engana, mas mente – que já não lhe é dado mentir por «inocência», por «ignorância». Também o sacerdote sabe, como qualquer pessoa, que já não há «Deus», nem «pecado», nem «Redentor» - que a «vontade livre», a «ordem moral do mundo» são mentiras: a seriedade, a profunda auto-superação do espírito já não permite a ninguém ser a tal respeito ignorante...... Sabemos, a nossa consciência sabe hoje o que em geral valem as intenções sinistras dos sacerdotes e da Igreja, para que serviram, com as quais se obteve este estado de autoviolação da humanidade, a náusea que o seu espectáculo pode suscitar – os conceitos de «Além», de «Juízo Final», de «imortalidade da alma», de «alma» são instrumentos de tortura, são sistemas de atrocidades, graças aos quais o sacerdote se tornou senhor, permaneceu senhor... O Anticristo 38E desde então surgiu um problema absurdo: «como podia Deus admitir isso?» A razão perturbada da pequena comunidade encontrou para tal questão uma resposta assustadoramente absurda: Deus entregou o seu Filho como sacrifício para remissão dos pecados. Como de súbito se acabou o Evangelho! O sacrifício expiatório, e claro está, na sua forma mais repulsiva, mais bárbara, o sacrifício do inocente pelo pecado dos culpados! Que paganismo horroroso!E, no entanto, Jesus suprime o conceito de «culpa», negou o abismo entre Deus e o homem, viveu a unidade de Deus enquanto homem como a sua «Boa Nova»... E não como privilégio! Doravante introduz-se gradualmente no tipo de Salvador a doutrina do juízo e da segunda vinda, a doutrina da morte como morte sacrificial, a doutrina da ressurreição, com a qual se escamoteou toda a noção de «beatitude», a plena e única realidade do Evangelho em favor de um estado após a morte!... Paulo logicou esta concepção – obscena concepção – com a impudência rabínica que em tudo distingue: «se Cristo não ressuscitou, então é vã a nossa fé». E, de súbito, o Evangelho tornou-se a mais desprezível de todas as promessas irrealizáveis, a doutrina insolente da imortalidade pessoal... O próprio Paulo ensinava-a como recompensa!... O Anticristo 41
Em Paulo, personifica-se o tipo antagónico ao do «alegre mensageiro», o génio no ódio, na visão do ódio, na implacável lógica do ódio. Quantas coisas este disangelista sacrificou ao ódio! Acima de tudo, o Redentor: cravou-o na sua cruz. A vida, o exemplo, a doutrina, a morte, o sentido e o direito de todo o Evangelho – já nada existia, quando este falso moedeiro se apoderou por ódio de tudo o que só a ele poderia ser útil. Não a realidade, não a verdade histórica!... E, mais uma vez ainda, o instinto sacerdotal do judeu perpetuou o mesmo ingente crime contra a História: suprimiu simplesmente o ontem, o anteontem, do Cristianismo, inventou para si uma história do Cristianismo primitivo. Mais anda: falsificou novamente a história de Israel para ela aparecer como a pré-história da sua acção: todos os profetas falaram do seu «Salvador»...A Igreja, mais tarde, falsificou mesmo a história da humanidade para dela fazer a pré-história do Cristianismo... O tipo do Salvador, a doutrina, a prática, o sentido da morte, e até o que vem a seguir à morte – nada ficou sequer semelhante à realidade. Paulo deslocou simplesmente o centro da gravidade de toda a existência para a retaguarda dessa existência – para a mentira de Jesus «ressuscitado». No fundo, não podia servir- -se em geral da vida do Redentor – tinha necessidade da morte na cruz e ainda de algo mais... Aceitar a sinceridade de um Paulo, que tinha a sua pátria na sede principal do Iluminismo estóico, quando a partir de uma alucinação apontava a prova, a sobrevivência do Salvador, ou também apenas a partir do seu relato de que tivera tal alucinação, seria uma verdadeira niaiserie, por parte de um psicólogo: Paulo queria o fim, logo, queria também os meios... Aquilo em que ele próprio não acreditava era objecto de fé para os idiotas, entre os quais ele lançara a sua doutrina. A sua necessidade era o poder; com Paulo, o sacerdote quis mais uma vez o poder – e só podia utilizar conceitos, doutrinas, símbolos, por meio dos quais se tiranizam as multidões e se formam rebanhos. O que é que, mais tarde, Maomé foi apenas buscar ao Cristianismo? A invenção de Paulo, o seu meio de tirania sacerdotal, para o arrebanhamento: a fé na imortalidade – isto é, a doutrina do «juízo»... O Anticirsto 42
Volto atrás, e vou contar a autêntica história do Cristianismo. Já a palavra «Cristianismo» é um equívoco – no fundo, existiu apenas um único cristão, e esse morreu na cruz. O «Evangelho» morreu na cruz. O que desde esse instante se chamou «Evangelho» era já o contráriodo que Cristo vivera: uma «má nova», um dysangelium. É falso até ao contra-senso ver numa «fé», por exemplo a fé na salvação por Cristo, a insígnia do cristão: unicamente a prática cristã, uma vida como a viveu aquele que morreu na cruz, tem algo de cristão...Hoje, uma tal vida é ainda possível e até necessária para certos homens: o Cristianismo autêntico, originário, será possível em todas as épocas...O Anticristo 39
Os Evangelhos, como testemunho da corrupção já irresistível no seio das primeiras comunidades, são inestimáveis. O que Paulo, mais tarde, levou a cabo com o cinismo lógico de um rabino foi, não obstante, apenas um processo de decadência, que começara com a morte do Redentor. Tais Evangelhos não se podem ler com suficiente precaução: têm as suas dificuldades por detrás de cada palavra. Confesso, e ninguém me levará a mal, que são por isso mesmo para um psicólogo um prazer de primeira ordem – como o contrário de toda a perversidade ingénua, como refinamento par excéllence, como o virtuosismo na perversidade psicológica.Os Evangelhos aguentam-se por si. A Bíblia em geral não suporta comparação alguma. Estamos entre Judeus: primeiro ponto de vista, para aqui não se perder inteiramente o fio. A autodissimulação em «sagrado», aqui justamente transformada em génio, nunca aliás conseguida aproximadamente entre os livros e os homens, tal falsificação de palavras e de gestos enquanto arte não é o acaso de qualquer dom individual, de uma qualquer natureza excepcional. Aqui, requer-se a raça. No Cristianismo, enquanto arte de mentir santamente, chega à derradeira mestria todo o judaísmo, uma aprendizagem e técnica judaica de muitos e muitos séculos, e das mais sérias. O cristão, esta ultima ratio da mentira, é uma vez mais o judeu – três vezes ele próprio... A vontade de por princípio empregar apenas conceitos, símbolos, atitudes, que se comprovam a partir da práxis do sacerdote, a recusa de qualquer outra práxis, de qualquer outra espécie de perspectiva de valor e de utilidade – isso não é apenas tradição, é herança: só enquanto herança é que age como natureza. A humanidade inteira, até as melhores cabeças das melhores épocas (exceptuando uma só, que talvez fosse simplesmente um monstro) deixou-se enganar. O Anticristo 44
XLV– Ofereço alguns exemplos do tipo de coisa que essa gente insignificante tinha dentro de suas cabeças – do que colocaram na boca do Mestre: a cândida crença de “belas almas”.“E tantos quantos vos não receberem, nem vos ouvirem, saindo dali, sacudi o pó que estiver debaixo dos vossos pés, em testemunho contra eles. Em verdade vos digo que haverá mais tolerância no dia do juízo para Sodoma e Gomorra, do que para os daquela cidade” (Marcos, 6:11). – Quão evangélico!“E qualquer que escandalizar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que lhe pusessem ao pescoço uma mó de atafona, e que fosse lançado no mar” (Marcos, 9:42). – Quão evangélico!
“E, se o teu olho te escandalizar, lança-o fora; melhor é para ti entrares no reino de Deus com um só olho do que, tendo dois olhos, seres lançado no fogo do inferno, onde o seu bicho não morre, e o fogo nunca se apaga” (Marcos, 9:47-48). – Não é exatamente do olho que se trata...
“Dizia-lhes também: Em verdade vos digo que, dos que aqui estão, alguns há que não provarão a morte sem que vejam chegado o reino de Deus com poder” (Marcos 9:1). – Bem mentido, leão!...(1)
“Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me. Porque...” (Nota de um psicólogo: a moral cristã é refutada pelos seus porquês: suas razões a contrariam – isso a faz cristã)
(Marcos, 8:34). “Não julgueis, para que não sejais julgados ...com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós” (Mateus 7:1-2). – Que noção de justiça, que juiz “justo”!...
“Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?” (Mateus 5:46-47). – Princípio do “amor cristão”: no fim das contas quer ser bem pago...
“Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas” (Mateus 6:15). – Muito comprometedor para o assim chamado “pai”.
“Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mateus 6:33). – Todas estas coisas: isto é, alimento, vestuário, todas necessidades da vida. Um erro, para ser eufêmico... Um pouco antes esse Deus apareceu como um alfaiate, pelo menos em certos casos.
“Folgai nesse dia, exultai; porque eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas” (Lucas 6:23). – Canalha indecente! Já se compara aos profetas...
“Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém violar o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo” (I Paulo aos coríntios, 3:16-17). – Para coisas assim não há desprezo suficiente... “Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deve ser julgado por vós, sois porventura indignos de julgar as coisas mínimas?” (I Paulo aos coríntios, 6:2). – Infelizmente, não é apenas o discurso de um lunático... Esse espantoso impostor assim prossegue: “Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas pertencentes a esta vida?”...
Ora, nos apetites naturais poucos se enganam, e numa só direção, a do excesso; e comer ou beber tudo que se tenha à mão, até a saciedade, é exceder a medida natural, pois que o apetite natural se limita a preencher o que nos falta. Por isso tais pessoas são chamadas "deuses do estômago", dando a entender que enchem o estômago além da medida. E só pessoas de caráter inteiramente abjeto se tornam assim....Da justiça particular e do que é justo no sentido correspondente, (A uma espécie é a que se manifesta nas distribuições de honras, de dinheiro ou das outras coisas que são divididas entre aqueles que têm parte na constituição (pois aí é possível receber um quinhão igual ou desigual ao de um outro); e (B) outra espécie é aquela que desempenha um papel corretivo nas transações entre indivíduos. Desta última há duas divisões: dentre as transações, (1) algumas são voluntárias, e (2 outras são involuntárias — voluntárias, por exemplo, as compras e vendas, os empréstimos para consumo, as arras, o empréstimo para uso, os depósitos, as locações (todos estes são chamados voluntários porque a origem das transações é voluntária); ao passo que das involuntárias, (a) algumas são clandestinas, como o furto, o adultério, o envenenamento, o lenocínio, o engodo a fim de escravizar, o falso testemunho, e (b) outras são violentas, como a agressão, o seqüestro, o homicídio, o roubo a mão armada, a mutilação, as invectivas e os insultos. Ética a Nicômaco
"E faça-se a observação em tom sério ou a título de gracejo, seguramente não se deixa de constatar que quando o macho se une à fêmea para procríação o prazer experimentado é considerado devido à natureza, porém contrário à natureza quando o macho se une ao macho ou a fêmea se une à fêmea, sendo que os primeiros responsáveis por tais enormidades foram impelidos pelo domínio que o prazer exercia sobre, eles" Leis. Livro I. Platão
"Se fôssemos seguir os passos da natureza e promulgar aquela lei que era vigente antes da época de Laio, declarando que é certo nos abster da relação sexual em que substituímos um a mulher por um homem ou um rapaz , aduzindo como evidência a natureza dos animais selvagens e apontando o fato do macho não tocar o macho com esse, propósito , visto que é contra a natureza..." Leis. Livro VIII. Platão
63. ÓDIO DO PRÓXIMO Supondo que consideremos nosso próximo como ele se considera a si mesmo — o que Schopenhauer chama compaixão e que seria exatamente autocompaixão — seriamos forçados a odiá-lo se, como Pascal, ele próprio se julga odiável. Era precisamente o sentimento geral de Pascal com relação aos homens e também aquele do antigo cristianismo que, sob Nero, foi qualificado de odium generis humanis14, como Tácito relata. Aurora - Nietzsche79-Uma proposta.Se, segundo Pascal e o cristianismo, nosso eu é sempre odioso, como podemos admitir e aceitar que outros o amem — fossem eles Deus ou homens? Seria contrário a toda a decência deixar-se amar, sabendo perfeitamente que só se merece o ódio — para não falar de outros sentimentos de repulsa. “Mas esse é justamente o reino da graça.” — Seu amor ao próximo é então uma graça? Sua piedade é uma graça? Pois bem, se isso lhes é possível, dêem um passo a mais: amem-se a si mesmos por graça — então não terão mais necessidade alguma de seu Deus e todo o drama da queda e da redenção se desenrolará em vocês mesmos até seu fim! .Aurora- Nietzsche133. “NÃO PENSAR MAIS EM SI” Seria necessário refletir sobre isso seriamente: por que saltamos à água para socorrer alguém que está se afogando, embora não tenhamos por ele qualquer simpatia particular? Por compaixão: só pensamos no próximo — responde o irrefletido. Por que sentimos a dor e o mal-estar daquele que cospe sangue, embora na realidade não lhe queiramos bem? Por compaixão: nesse momento não pensamos mais em nós — responde o mesmo irrefletido.A verdade é que na compaixão — quero dizer, no que costumamos chamar erradamente compaixão — não pensamos certamente em nós de modo consciente, mas inconscientemente pensamos e pensamos muito, da mesma maneira que, quando escorregamos, executamos inconscientemente os movimentos contrários que restabelecem o equilíbrio, pondo nisso todo o nosso bom senso.O acidente do outro nos toca e faria sentir nossa impotência, talvez nossa covardia, se não o socorrêssemos. Ou então traz consigo mesmo uma diminuição de nossa honra perante os outros ou diante de nós mesmos. Ou ainda vemos nos acidentes e no sofrimento dos outros um aviso do perigo que também nos espia; mesmo que fosse como simples indício da incerteza e da fragilidade humanas que pode produzir em nós um efeito penoso. Rechaçamos esse tipo de miséria e de ofensa e respondemos com um ato de compaixão que pode encerrar uma sutil defesa ou até uma vingança. Podemos imaginar que no fundo é em nós que pensamos, considerando a decisão que tomamos em todos os casos em que podemos evitar o espetáculo daqueles que sofrem, gemem e estão na miséria: decidimos não deixar de evitar, sempre que podemos vir a desempenhar o papel de homens fortes e salvadores, certos da aprovação, sempre que queremos experimentar o inverso de nossa felicidade ou mesmo quando esperamos nos divertir com nosso aborrecimento. Fazemos confusão ao chamar compaixão (Mitleid) ao sofrimento (Leid) que nos causa um tal espetáculo e que pode ser de natureza muito variada, pois em todos os casos é um sofrimento de que está isento aquele que sofre diante de nós: diz-nos respeito a nós tal como o dele diz respeito a ele. Ora, só nos libertamos desse sofrimento pessoal quando nos entregamos a atos de compaixão. Todavia, nunca agimos assim por um só motivo: tão certo é que queremos assim nos libertar de um sofrimento, como é certo também que, pela mesma ação, cedemos a um impulso de prazer — prazer provocado pelo aspecto de uma situação contrária à nossa, à idéia de que podemos ajudar se o quisermos, ao pensamento dos elogios e do reconhecimento que recolheremos no no caso de auxiliarmos; provocado pela própria atividade de ajudar, na medida em que é o ato tenha êxito (e o sucesso causa progressivamente prazer por si mesmo ao executor), mas sobretudo provocado pelo sentimento de que nossa ação põe termo a urna injustiça revoltante (dar livre curso à própria indignação já é suficiente para reconfortar). Tudo isso, incluindo elementos ainda mais sutis, faz parte da “compaixão”: — com que peso a língua se lança, com esta palavra contra um organismo tão complexo! — Que, pelo contrario, a compaixão seja uma só com o sofrimento, cujo aspecto a suscita ou que tenha por esta uma compreensão particularmente sutil e penetrante — são duas afirmações em contradição com a experiência e aquele que glorificou a compaixão sob esses dois aspectos carece de experiência suficiente no domínio da moral. É por isso que levanto dúvidas ao ler as coisas incríveis que Schopenhauer escreve sobre a compaixão: ele que gostaria com isso nos levar a crer na grande novidade de sua descoberta, segundo a qual a compaixão — essa compaixão que observa tão imperfeitamente e que descreve tão mal descrita — seria a fonte de toda ação moral presente e futura — e justamente graças às atribuições que teve de começar a inventar para ela. — O que é que distingue, no final das contas, os homens sem compaixão dos homens compassivos? Antes de tudo — para dar apenas um esboço em grandes linhas — eles não têm a imaginação irritadiça do temor, a sutil faculdade de pressentir o perigo; por isso é que sua vaidade é ferida menos depressa se ocorrer alguma coisa que tivessem podido evitar (a precaução de sua altivez lhes ordena que não se metam inutilmente nos assuntos alheios, e gostam mesmo que cada um a começar por eles se ajude a si próprio e jogue suas próprias cartas). Além disso, estão geralmente mais habituados que os compassivos a suportar a dor e não lhes parece injusto que outros sofram, pois eles mesmos já sofreram.Enfim, o aspecto dos corações sensíveis lhes causa pena, como o aspecto da estóica impassibilidade a causa aos homens compassivos; não têm, para os corações sensíveis, senão palavras desdenhosas e temem que seu espírito viril e sua fria bravura estejam em perigo, escondem suas lágrimas diante dos outros e as enxugam, irritados consigo mesmos. Fazem parte de outro tipo de egoístas, diferentes dos compassivos; — mas chamá-los maus num sentido distintivo e bons os homens compassivos, isso não passa de uma moda moral que faz época: precisamente como a moda contrária teve sua época, uma época muito longa! Aurora - Nietzsche[...] Nosso amor ao próximo, não é ele uma ânsia por nova propriedade? Quando vemos alguém sofrer, aproveitamos com gosto a oportunidade que nos é oferecida para tomar posse desse alguém; é o que faz o homem compassivo, que também chama de “amor” ao desejo de nova posse que é nele avivado Gaia Ciência - Nietzsche
Uma religião como o Cristianismo, que não aflora a realidade em ponto algum, que se desvanece logo que a realidade faz sentir o seu direito num ponto qualquer ,terá justamente de ser o inimigo mortal da «sabedoria do mundo», quero dizer, da ciência: aprovará todos os meios para poder envenenar, difamar, desacreditar a disciplina do espírito, a pureza e o rigor em matérias de consciência do espírito, a nobre frieza e liberdade do espírito. A «fé» ,enquanto imperativo, é o veto contra a ciência–in praxi, a mentira a todo o custo...Paulo compreendeu que a mentira –a «fé»–era necessária; a Igreja, mais tarde, compreendeu de novo Paulo. O «Deus» que Paulo inventou, um Deus que «reduza nada» a «sabedoria deste mundo»(em sentido mais estrito, os dois grandes adversários de toda a superstição, a filosofia e a medicina),é na verdade apenas a decisão ousada de Paulo em chamar «Deus» à sua própria vontade, thora [lei] que é algo de arquijudeu. O filólogo vê por detrás dos “livros sagrados”, o médico vê por detrás da degeneração fisiológica do cristão típico. O médico diz “incurável”; o filólogo diz “fraude. O Anticristo cap. 48
Ter-se-á, em rigor, compreendido a famosa história que se encontra no princípio da Bíblia, a história do temor mortal de Deus perante a ciência?... Não se compreendeu. Esse livro sacerdotal par excéllence começa, como é justo, com a grande dificuldade interior do sacerdote: para ele, há apenas um único grande perigo, logo, para «Deus» há apenas um grande perigo.
O Deus antigo, inteiramente «espírito», inteiramente sumo-sacerdote, plena perfeição, passeia aprazivelmente no seu jardim; contudo, aborrecese. Também os deuses lutam em vão contra o tédio. Que faz ele? Inventa o homem – o homem distrai... Mas eis que também o homem se aborrece. A misericórdia de Deus para com a única indigência, que todos os paraísos em si têm, não conhece limites: criou então ainda outros animais. Primeiro equívoco de Deus: o homem não achou divertidos os animais – dominou sobre eles, nem sequer quis ser «animal ». Deus criou, então, a mulher. E, efectivamente, cessou o tédio, mas também ainda muitas outras coisas! A mulher foi o segundo erro de Deus. «A mulher é, por essência, uma serpente, Eva». Todo o sacerdote sabe isto; «pela mulher vem todo o mal ao mundo» – também isto o sabe todo o sacerdote. «Logo, a ciência também vem dela»... Foi só pela mulher que o homem aprendeu a saborear a árvore do conhecimento. Que aconteceu? Um pânico de morte se apoderou do Deus antigo. O próprio homem tornara-se o seu maior erro, ele criara um rival, a ciência iguala a Deus: se o homem se torna científico, é o fim dos sacerdotes e dos deuses! Moral: a ciência é a interdição em si, só ela é proibida. A ciência é o primeiro pecado, o germe de todos os pecados, o pecado original. Eis a única moral. «Não conhecerás »: o resto segue-se daí. O pânico mortal de Deus não o impediu de ser astuto. Como defender-se da ciência? Eis o seu problema principal, durante muito tempo. Resposta: fora com o homem do paraíso!
A felicidade, o ócio evoca pensamentos – todos os pensamentos são maus pensamentos... O homem não deve pensar: e o «sacerdote em si» inventa a indigência, a morte, o perigo mortal da gravidez, toda a espécie de miséria, a velhice, a fadiga, sobretudo a doença – simples meios na luta contra as ciências! A indigência não permite ao homem pensar... E, apesar de tudo, que coisa tremenda! A obra do conhecimento acumula-se, alcandora-se até ao céu, anuncia o crepúsculo dos deuses – que fazer? O Deus antigo inventa a guerra, separa os povos, faz que os homens entre si se aniquilem (os sacerdotes tiveram sempre necessidade da guerra...). A guerra é, entre outras coisas, um grande desmancha-prazeres da ciência! Incrível! O conhecimento, a emanciparão relativamente ao sacerdote, aumenta apesar das guerras. E uma última decisão ocorre ao Deus antigo: «o homem tornou-se científico, de nada serve, há que afogá-lo!»...
O filólogo vê por detrás dos “livros sagrados”, o médico vê por detrás da degeneração fisiológica do cristão típico.O médico diz “incurável”; o filólogo diz “fraude
Resposta:
1-Nietzsche acreditava numa teoria equivocada sobre a fisiologia, medicina e biologia, ele pensava que a vontade de potencia era ligada a cada parte ínfima do corpo humano, como células que lutam entre si e que tinham vontade e consciencia:
Nietzsche já vislumbra um único e mesmo procedimento tanto na vida social e psicológica quanto na fisiológica. O conceito de vontade de potência, servindo como elemento explicativo dos fenômenos biológicos, será também tomado como parâmetro para a análise dos fenômenos psicológicos e sociais; é ele que vai constituir o elo de ligação entre as reflexões pertinentes às ciências da natureza e as que concernem às ciências do espírito. ..Das forças cósmicas aos valores humanos. Scarlett Marton. São Paulo:Brasiliense, 1990, p. 29-30
Em Assim falou Zaratustra, o filósofo expressa, por vez primeira em sua obra, a idéia de que vida e vontade de potência se identificam. E acrescenta: “somente onde há vida, há também vontade: mas não vontade de vida, e sim — assim vos ensino —vontade de potência!” (ZA II Da superação de si). Neste momento, caracteriza a vontade de potência como vontade orgânica; ela é própria não unicamente do homem mas de todo ser vivo. Em escritos posteriores vai além e deixa entrever que se exerce nos órgãos, tecidos e células. “A aristocracia no corpo”, anou, “a multiplicidade dos dominantes (luta das células e dos tecidos). A escravidão e a divisão do trabalho: o tipo superior, possível apenas através da coerção de um inferior a uma função” (XII, 2 (76)). Atuando em cada célula, a vontade de potência leva a deflagrar-se o combate entre todas elas — e, de igual modo, entre os tecidos ou os órgãos. p. 30
A luta desencadeia-se de tal forma que não há pausa ou fim possíveis. Com o combate, uma célula passa a obedecer a outra mais forte, um tecido submete-se a outro que predomina, uma parte do organismo torna-se função de outra que vence — durante algum tempo. A luta propicia que se estabeleçam hierarquias. É assim que o filósofo explica o aparecimento das funções orgânicas. “No animal”, diz ele, “é possível deduzir todos os instintos da vontade de potência; e, do mesmo modo, dessa mesma fonte, todas as funções da vida orgânica”.3 Elas resultam da hierarquia que surge, num dado momento, entre vencedores e vencidos; procedem da vontade de potência que se exerce nos elementos que predominam. E acham-se, elas mesmas, hierarquizadas: diferença entre funções inferiores e superiores: hierarquia dos órgãos e necessidades, representada por personagens que mandam e outros que obedecem” (XI, 25 (411 )). p. 30
organismo torna-se função de outra que vence— durante algum tempo. A luta propicia que se estabeleçam hierarquias. É assim que o filósofo explica o aparecimento das funções orgânicas. “No animal”, diz ele, “é possível deduzir todos os instintos da vontade de potência; e, do mesmo modo, dessa mesma fonte, todas as funções da vida orgânica”.3 Elas resultam da hierarquia que surge, num dado momento, entre vencedores e vencidos; procedem da vontade de potência que se exerce nos elementos que predominam. E acham-se, elas mesmas, hierarquizadas: diferença entre funções inferiores e superiores: hierarquia dos órgãos e necessidades, representada por personagens que mandam e outros que obedecem” (XI, 25 (411 )). p. 30
O corpo humano ou, para sermos precisos, o que se considera enquanto tal, é constituído por numerosos seres vivos microscópicos que lutam entre si, uns vencendo e outros definhando — e assim se mantém temporariamente. O caráter pluralista da filosofia nietzs-chiana já se acha presente aí, no nível das preocupações — digamos — fisiológicas. É por facilidade que se fala num corpo, é por comodidade que se vê o corpo como unidade. É preciso, porém, encarar “o homem como multiplicidade: a fisiologia nada mais faz que indicar um maravilhoso comércio entre essa multiplicidade e o arranjo das partes sob e em um todo. Mas seria falso, disso, inferir necessariamente um Estado com um monarca absoluto (a unidade âo sujeito)”.31
Além do trabalho de Roux, Nietzsche conheceu o tratado de Rolph sobre questões de biologia. Rolph tentou explicar a variação dos organismos por outra via: o ser vivo, alimentando-se, seria levado a absorver mais do que precisava, dada a sua insaciabilidade. Nesse processo, alguns órgãos, os de captação de alimento por exemplo, poderiam entrar em luta com outros e até incorporá-los. Mas o combate não seria motivado pela autodefesa e sim pela voracidade. Isso não impediria que, com o acúmulo de alimento, a evolução ocorresse nos organismos e, com a incorporação crescente do inorgânico pelo orgânico através das plantas, a vida tendesse a aumentar na Terra. Ora, em 1881, de Roux, Nietzsche reteve a noção de que, no próprio organismo, entre órgãos, tecidos e céiulas, existe concorrência vital e, em 1884, de Roíph, a noção de que a concorrência, em vez de prejudicar a vida, aumenta sua quantidade.22 Das forças cósmicas aos valores humanos. Scarlett Marton. São Paulo:Brasiliense, 1990,p. 43
A luta tem caráter geral: ocorre em todos os domínios da vida e sobretudo envolve os vários elementos que constituem cada um deles. Deflagrando-se entre células, tecidos ou órgãos, entre pensamentos, sentimentos ou impulsos, implica sempre múltiplos adversários, uma pluralidade de beligerantes. “Por mais longe que alguém possa levar o autoconhecimento, nada é mais incompleto do que a imagem do conjunto de impulsos que constituem seu ser. È com dificuldade que pode chamar pelo nome os mais grosseiros; seu número e força, seu fluxo e refluxo, seus jogos recíprocos e jogos contrários e sobretudo as leis de sua nutrição permanecem totalmente desconhecidos” (A § 119).- Das forças cósmicas aos valores humanos. Scarlett Marton. São Paulo:Brasiliense, 1990,p. 47,48
Traço fundamental da vida, a luta é necessária: simplesmente não pode deixar de existir. Não visa a objetivos nem cumpre finalidades; não admite trégua nem prevê termo. Sempre presente nos seres orgânicos, excrce-.se antes de mais nada contra a morte — neles e também fora deles. “Viver — isso significa: rejeitar para longe de si algo que tende a morrer; viver — isso significa: ser cruel e inexorável com tudo o que em nós é velho e enfraquecido, e não somente em nós” (GC § 26). Com a luta, estabelecem-se hierarquias: a cada momento, determinam-se vencedores e vencidos, senhores e escravos, os que mandam e os que obedecem. A célula, ao tornar-se função de outra mais forte, está a obedecê-la; o pensamento, ao sobrepujar os demais, passa a mandar neles; o impulso, ao queixar-se de outros, recusa a obediência e busca o mando. Em Assim falou Zaratustra, aparece claramente a pergunta: “o que persuade o viveníe, para que obedeça e mande e, mandando, exerça a obediência?” — e logo adiante a resposta: “onde encontrei vida, ali encontrei vontade de potência; e até mesmo na vontade daquele que serve encontrei vontade de ser senhor (ZA II “Da superação de si”)- A idéia de luta, enquanto traço fundamenta] da vida, é agora subsumida no conceito de vontade de potência. Enquanto vontade de potência, a vida é mandar e obedecer; é portanto lutar ...Das forças cósmicas aos valores humanos. Scarlett Marton. São Paulo:Brasiliense, 1990,p. 47,48
Ora, a vontade de potência está presente nos numerosos seres vivos microscópicos que formam o corpo, na medida em que cada um deles quer prevalecer na relação com os demais. Encontra-se, pois, em todo ser vivo, espalhada no organismo, atuando nos diminutos elementos que o constituem. Assim deixa de ter sentido, em termos fisiológicos, a idéia de um aparelho neurocerebral responsável pelo querer. “O aparelho neurocerebral não foi construído com essa ‘divina’ sutileza na intenção única de produzir o pensamento, o sentimento, a vontade”, assegura o filósofo, “parece-me, bem ao contrário, que justamente não há necessidade alguma de um ‘aparelho’, para produzir o pensar, o sentir e o querer, e que esses fenômenos, e apenas eles, constituem *a própria coisa’“ (XI, 37 (4». Nessa direção, afirma ainda: “pressupõe-se aqui que todo o organismo pensa, todas as formas orgânicas tomam parte no pensar, no sentir, no querer —por conseguinte, o cérebro é apenas um enorme aparelho de centralização”.7 Não só o querer mas também o sentir e o pensar estão disseminados pelo organismo: a relação entre eles é de tal ordem que, no querer, já se acham embutidos o sentir e o pensar, de modo que pensamento, sentimento e vontade aparecem como indissociáveis. p. 32
Contra tais idéias, reitera o filósofo no Anticrísto: “a antiga palavra ‘vontade* serve apenas para definir uma resultante, uma espécie de reação individual, que se segue necessariamente a uma multidão de estímulos em parte contraditórios, em parte concordantes — a vontade não mais ‘se efetiva’, não mais ‘põe em movimento”* (AC § 14). A chamada “teoria psicológica” negligencia o fato de a vontade agir no homem e no ser vivo em geral ou, mais precisamente, nos numerosos seres vivos microscópicos que constituem o organismo. Ora, Nietzsche toma nosso corpo como um edifício de múltiplas almas; referindo-se a almas mortais, posiciona-se contra o indivíduo; desqualifica a hipótese de um sujeito único e aponta seu caráter transitório; por fim, afirma peremptório: “o homem enquanto multiplicidade de ‘vontades de potência’ : cada uma com uma multiplicidade de meios de expressão e de formas”.9 Dessa perspectiva, nada mais errôneo do que supor a existência de um sujeito responsável pelo querer. “Minha tese”, conclui, “é que a vontade, tal como a psicologia até agora a compreendeu, é uma generalização injustificada, que essa vontade absolutamente não existe, que, em vez de apreender a transformação de uma vontade determinada em várias formas, riscou-se seu caráter e eliminou-se seu conteúdo e direção” (XIII, 14 (121)). Procede por redução quem descuida de que a vontade tem diversas direções e, por generalização, quem desconsidera que ela atua nos elementos mais ínfimos do organismo. 34
“Os fisiológos”, afirma, “deveriam refletir antes de colocar o instinto de conservação como ‘instinto cardeal’ de um ser orgânico. Algo vivo quer sobretudo extravasar sua força: a ‘conservação’ é apenas uma conseqüência disso” (XII, 2 (63)). A vontade de potência não pode deixar de querer mais potência, mas nem mesmo isso constitui um objetivo a atingir, uma meta a alcançar, uma finalidade a realizar; trata-se simplesmente de seu caráter intrínseco. Desta perspectiva, pretender que o ser vivo busque antes de mais nada conservar-se é reintroduzir sub-repticiamente a teleologia no âmbito de que foi banida. “Em suma, aqui, como por toda parte”, adverte o filósofo, “cuidado com princípios teleológicos supérfluos! — tais como o impulso de autoconservação (que se deve à inconseqüência de Espinosa)” (BM § 13). 40-41
Em todo ser vivo, pode-se justamente mostrar, com a maior clareza, que ele faz tudo — não para conservar-se mas para tomar-se mais...” (XIII, 14 (121)). 41
...a crítica equivocada a Espinosa: “querer conservar-se a si mesmo é a expressão de uma situação de penúria, de uma restrição do próprio impulso fundamental da vida, que surge da ampliação de potência e, nessa vontade, freqüentemente põe em questão e sacrifica a autoconservação. Toma-se como sintomático o fato de alguns filósofos, por exemplo o tísico Espinosa, terem visto, precisado ver no chamado instinto de autoconservação um princípio decisivo — eram homens em situação de penúria. Que nossas modernas ciências da natureza estejam de tal modo comprometidas com o dogma espinosano (recentemente ainda, e da maneira mais grosseira, no dar-winismo com sua doutrina incompreensivelmente unilateral da ‘luta pela existência’), é provável que se deva à proveniência da maioria dos naturalistas: sob esse aspecto, eles pertencem ao ‘povo’“ (GC § 349). Deixemos de lado as idéias, que apareceram em outros escritos, e as considerações sobre a origem social ou as condições físicas dos pensadores, que não cabe agora examinar. Mesmo assim, este texto apresenta interesse; introduz novo alvo de ataque: a idéia dariniana da luta pela existência. ...Grande foi o equívoco de Darwin: tomou por causa o que não passava de conseqüência. A autoconservação não impele à luta, mas dela decorre.42
Ele mostra, em escritos posteriores a Assim falou Zaratustra, que os pensamentos, sentimentos e impulsos se acham presentes nas células, tecidos e órgãos. Contudo, não se limita a afirmar que os processos psicológicos têm base neurofísiológica; procura, antes, suprimir a distinção entre fisiologia e psicologia. Não é por acaso que usa este termo de modo muito específico, vinculando-o à questão dos valores. Se, do ponto de vista fisiológico, deixa de ter sentido a idéia de um aparelho neurocerebral responsável pelo querer, tampouco faz sentido, em termos filosóficos, considerar a vontade uma faculdade do homem, ao lado de outras como a imaginação, o entendimento ou a razão. Ao ser humano não é facultado exercer ou não a vontade; ela não apresenta caráter intencional algum. Só é pertinente falar em “liberdade da vontade”, quando se chega a encará-la enquanto afeto de mando. “Querer é mandar, mas mandar é um afeto particular (esse afeto é uma repentina explosão de força) — tenso, claro, uma coisa excluindo as outras em vista, convicção íntima da superioridade, certeza de ser obedecido — a ‘liberdade da vontade’ é o ‘sentimento de superioridade de quem manda’ em relação a quem obedece: ‘eu sou livre, é preciso que ele obedeça’7’ (XI, 25 (436». A vontade é livre, não porque pode escolher, mas porque implica um sentimento de superioridade . p. 32-33
Atribuindo origem biológica à consciência, Nietzsche acaba por inscrevê-la no quadro das considerações fisiológicas. Com os biólogos da época, Roux e Rolph, concebe o organismo como um aglomerado de ínfimos seres vivos; a partir daí, entende que todos eles possuem consciências elementares e conclui que estas, articuladas de alguma forma, constituem a consciência do organismo. Ao contrário do que defendem a religião cristã e a chamada metafísica dogmática, sustenta que consciência e corpo não se opõem, mas acham-se intimamente ligados. Com isso, pretende operar nova inversão. Tendo em vista que, na linguagem filosófica, tradicional mente se entende “alma” como sinônimo de “consciência”, quer então dar-se o direito de atribuir ao teimo um novo sentido: ele passa a designar apenas os seres vivos microscópicos que formam o organismo. Das forças cósmicas aos valores humanos. Scarlett Marton. São Paulo:Brasiliense, 1990, p. 173-174
2- Esse apego a fisiologia da época leva Nietzsche a encarar as pessoas como doentes como já vimos, os cristãos, Jesus, Espinosa, Rossseau , Schopenhauer e Wagner:
"20. Às vezes, o recurso precipitado à fisiologia faz de Nietzsche um crítico por demais irreverente: ele identifica Pascal como hipocondríaco, refere-se a Espinosa como tísico, suspeita que Rousseau e Schopenhauer eram doentes do coração e considera Wagner uma anomalia fisiológica (cf. respectivamente Cl, Os quatro grandes erros, § 6, GC § 349, A § 538 e CW § 7). Mas talvez seja justamente essa irreverência que o tome atraente para tantos
Das forças cósmicas aos valores humanos. Scarlett Marton São Paulo:Brasiliense, 1990, p. 94
27- O sofrimento purifica o pecado?
Por ensinar que o sofrimento purifica do pecado e e que a prática doa ascetismo conduz o cristão à redenção no além-mundo, o cristianismo teria poder de conservar uma forma de vida décadente. Em outras palavras, o cristianismo dá um sentido a quem não suporta mais viver o sofrimento, da vidad terrana, pois mostra que justamente vivendo essa dor que o sofredor alcançará outra vida repleta de recompensas. p. 165
Resposta:
Nem um texto da bíblia diz que o sofrimento salva o homem, como já vimos, os textos bíblicos mostram que o sofrimento faz parte da vida e Deus aqui e agora pode nos ajuda a superar cada um deles
Sl 34:17 Clamam os justos, e o SENHOR os escuta e os livra de todas as suas tribulações.
18 Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito oprimido.
19 Muitas são as aflições do justo, mas o SENHOR de todas o livra.
