Antístenes
Segue o texto de Giovanni Reale -Dario Antiseri História da Filosofia
A figura de maior relevo entre os Socráticos menores foi Antístenes, que viveu na passagem entre os séc. V e IV a.C., filho de pai ateniense e mãe trácia. Frequentou inicialmente os Sofistas, tornando-se discípulo de Sócrates apenas em idade um tanto avançada. Das numerosas obras que Ihe são atribuidas, apenas alguns fragmentos chegaram até nos.
Antistenes destacou sobretudo a extraordinária capacidade pratico-moral de Sócrates, como a capacidade de bastar-se a si mesmo, a capacidade de autodomínio, a forga de himo, a capacidade de suportar o cansaço. Limitou ao mínimo indispensável os aspectos doutrinários, opondo-se duramente ao desenvolvimento lógico-metafisico que Platão imprimira ao Socratismo.
A lógica de Antístenes, portanto, revela-se um tanto redutiva. Segundo nosso filosofo, não existe uma definição das coisas simples: nós as conhecemos com a percepção e as descrevemos por meio de analogias. No que se refere as coisas complexas, sua definição não é mais que a descrição dos elementos simples de que são constituídas.
A capacidade de bastar-se a si mesmo de que Sócrates havia falado foi levada às extremas consequencias, de modo que o ideal de autarquia tronou-se o fim essencial do seu filosofar.
Também foi radicalizado o domínio socrático, ou seja, a capacidade de dominar os prazeres (e dores). O prazer que era para Sócrates, nem bem nem mal,torna-se para Antístenes mal absolutamente, do qual deve-se fugir sempre e de qualquer modo, como dizem de forma icástica estas suas famosas máximas:
"Eu preferiria enlouquecer do que sentir prazer"
Ademais , Antístenes também combateu muitas das ilusões criadas pela sociedade, as quais nada mais fazem do que tolher a liberdade e fortalecer as cadeias da servidão, chegando inclusive sustentat que "a falta de glória e de fama é um bem"
Para ele, o sábio não deve viver segundo as leis da Cidade, mas sim segundo a "lei da virtude" devendo dar conta de que os deuses são muitos "para alei da cidade, mas que há um só Deus "segundo a natureza"
A instrução deve concentrar-se na "busca dos nomes", isto é, no conhecimento linguístico. De cada coisa só é possível afirmar o nome que lhe é próprio (por exemplo, o homem é "homem") e, portanto, só se pode formular juízos tautológicos (afirmar o idêntico pelo idêntico).
Antístenes fundou sua Escola no ginásio de Cinosarge (= Cão ágill"), de onde talvez a Escola tenha tomado o nome com que ficou conhecida. Outras fontes relatam que Antistenes era denominado "cão puro".
Diogenes de Sinope, ao qual o Cinismo deve o seu florescimento maximo, denominou-se "Diógenes o cínico".
História da Filosofia . São Paulo: Paulus, 2014
Críticas:
Apesar de aceitar o monoteísmo e rejeitar a glõria e a fama, o filósofo rejeitou o prazer que é um reação natural do coropo humano criada por Deus.
Diógenes
Diógenes e a radicalização do cinismo
O fundador do cinismo do ponto de vista da doutrina (ou, pelo menos, de suas teses capitais) foi Antístenes, como já sabemos. Mas coube a Diógenes de Sinope a ventura de tomar-se: o principal expoente e quase o símbolo desse movimento. Diógenes foi contemporâneo (mais velho) de Alexandre. Um testemunho antigo registra ademais que ele "morreu em Corinto no mesmo dia em que Alexandre morreu na Babilônia".
O encontro com Antístenes teria ocorrido deste modo, como narra uma fonte antiga: "Perto de Atenas, Diógenes se aproximou de Antístenes. Embora este não quisesse receber ninguém como aluno, rejeitando-o, Diógenes, perseverante, conseguiu vencer a resistência. Certa vez, Antístenes ergueu o bastão contra ele, mas Diógenes apresentou-lhe a cabeça, acrescentando: "Podes golpear, que não encontrarás madeira tão dura que possa fazer-me desistir de obter que me digas alguma coisa, como me parece que deves." A partir de então, tomou-se ouvinte de Antístenes. Diógenes não só levou às últimas conseqüências as instâncias levantadas por Antístenes, mas também soube tomá-las substância de vida, com um rigor e uma coerência tão radicais que, por séculos inteiros, foram consideradas verdadeiramente extraordinárias.
Diógenes rompeu a imagem clássica do homem grego. E a nova que propôs logo foi considerada um paradigma: com efeito, a primeira parte da época helenística e depois ainda a época imperial reconheceriam nela a expressão de uma parte essencial de suas próprias exigências de fundo. O programa do nosso filósofo se expressa inteiramente na célebre frase: "procuro o homem", que, como se relata, ele pronunciava caminhando com a lanterna acesa em pleno dia, nos lugares mais cheios. Com evidente e provocante ironia, queria significar exatamente o seguinte: busco o homem que vive segundo sua mais autêntica essência; busco o homem que, para além de toda exterioridade, de todas as convenções da sociedade e do próprió capricho das sorte e da fortuna, saber encontrar sua genuína natureza, sabe viver conforme essa natureza e, assim, sabe ser feliz.
Uma fonte antiga afirma: "Diógenes, o cínico, andava gritando repetidamente que os deuses concederam aos homens fáceis meios de vida, mas que todavia os esconderam da vista humana." O objetivo que Diógenes se propôs foi exatamente o de trazer à vista aqueles fáceis meios de vida e demonstrar que o homem tem sempre à sua disposição aquilo de que necessita para ser feliz, desde que saiba dar-se conta das efetivas exigências da sua natureza. É nesse contexto· que se incluem suas afirmações sobre a inutilidade das matemáticas, da física, da astronomia, da música e o absurdo das construções metafisicas, substituindo a mediação conceitual pelo comportamento, o exemplo e a ação. Com Diógenes, de fato, o cinismo tomava-se a mais "anticultural" das filosofias que a Grécia e o Ocidente conheceram. E ainda nesse contexto estão incluídas suas conclusões extremistas, que o levaram a proclamar como necessidades verdadeiramente essenciais do homem aquelas necessidades elementares de sua animalidade.
Teofrasto narra que Diógenes "viu, uma vez, um rato correr daqui para ali, sem objetivo (não buscava um lugar para dormir, nem tinha medo das trevas, nem desejava algo daquilo que comumente se considera desejável) e assim cogitou um remédio para suas dificuldades". Logo, é um animal que dita no cínico o modo de viver: um viver sem meta (sem as metas que a sociedade propõe como necessárias), sem necessidade de casa nem de moradia fixa e sem o conforto das comodidades oferecidas pelo progresso.
E eis como Diógenes, segundo testemunhos antigos, pôs em prática essas teorias: "( ... )Diógenes foi o primeiro a dobrar o manto por necessidade de dormir dentro dele e levava uma cuia na qual recolhia comidas; servia-se indiferentemente de qualquer lugar para todos os usos, para fazer refeições, para dormir ou para conversar. E assim costumava responder aos atenienses que procuravam para: ele um lugar onde pudesse morar: indicava o pórtico de Zeus e a sala das procissões(. .. ). Uma vez, ordenou a alguém que providenciasse uma casinha; e como este demorava, Diógenes escolheu como habitação um barril que estava na rua, como. ele próprio o atesta ... " E mesmo a representação de Diógenes no barril torna-se um símbolo do pouco que é suficiente para viver. Esse modo de viver de Diógenes coincide com a "liberdade": quanto mais se eliminam as necessidades supérfluas, mais se é livre.
Mas os cínicos insistiram sobre a liberdade, em todos os sentidos, até os extremos do paroxismo. Na "liberdade de palavra" (parrhesía), tocaram os limites da desfaçatez e da arrogância, até mesmo em relação aos poderosos. Lançavam-se à "liberdade de ação" ( anáideia) até à licenciosidade. Com efeito, embora com essa "anáideia" Diógenes fundamentalmente tenha pretendido demonstrar a "não naturalidade" dos costumes gregos, nem sempre ele manteve a medida, caindo em excessos que bem explicam a carga de significado negativo com a qual o termo "cínico" passou à história e que ainda hoje mantém. Eis alguns testemunhos significativos:
"Diógenes estava habituado a fazer qualquer coisa à luz do dia, mesmo as que dizem respeito a Deméter e Afrodite". "Durante um banquete, alguns jogaram-lhe os ossos como a um cão. Diógenes, andando por ali, urinou em cima, como um cão". "Uma vez alguém o introduziu numa casa suntuosa e proibiu-lhe de escarrar. Diógenes então limpou profundamente a garganta e escarrou-lhe no rosto, dizendo não ter encontrado lugar pior". "Quando precisava de dinheiro, voltava-se para os amigos, dizendo que não pedia dado, mas como restituição". Diógenes resumia o método que pode conduzir à liberdade e à virtude nos dois conceitos essenciais de "exercício" e "fadiga", que consistiam numa prática de vida capaz de temperar o físico e o espírito nas fadigas impostas pela natureza e, ao mesmo tempo, capaz de habituar o homem a dominar os prazeres e até a desprezálos. Esse "desprezo pelos prazeres", já pregado por Antístenes, é fundamental na vida do cínico, já que o prazer não só amolece o físico e o espírito, mas põe em perigo a liberdade, tomando o homem ~escravo, de vários modos, das coisas e dos homens aos quais estão ligados os prazeres.
Até o matrimônio era contestado pelos cínicos, que o substituíam pela "convivência concorde entre homem e mulher". E, naturalmente, a cidade era contestada: o cínico proclamava-se "cidadão do mundo". . . A "autarquia-", ou seja, o bastar-se a si mesmo, a apatia e a indiferença diante de tudo eram os pontos de chegada da vida cínica. Um episódio, tomado famoso e, ademais, marco simbólico, define o espírito do cinismo talvez melhor do que qualquer outro: certa vez, quando Diógenes tomava sol, aproximou-se o grande Alexandre, o homem mais poderoso da terra, que lhe disse: "Pede-me o que quiseres"; ao que Diógenes respondeu: "Basta-te do meu sol". Diógenes não sabia o que fazer com o enorme poder de Alexandre; bastava-lhe, para estar contente, o sol, que é a coisa mais natural, à disposição de todos, ou melhor, bastava-lhe a profunda convicção da inutilidade de tal poder, já que a felicidade vem de dentro e não de fora do homem.
Talvez Diógenes tenha sido o primeiro a adotar o termo "cão" para autodefinir-se, vangloriando-se desse epíteto, que os outros lhe atribuíam por desprezo, e explicando que se chamava "cão" pelo seguinte motivo: "Faço festas aos que me dão alguma coisa, lato contra os que não me dão nada e mordo os celerados." Diógenes foi porta-voz de muitas instâncias da época helenística, mesmo que de modo unilateral. Seus próprios contemporâneos já o entendiam assim, erguendo-lhe uma coluna que era encimada por um cão de mármore de Paros, com a inscrição: "Até o bronze cede ao tempo e envelhece, mas tua glória, Diógenes, permanecerá intacta eternamente porque só tu ensinaste aos mortais a doutrina de que a vida basta a si mesma e mostraste o caminho mais fácil para viver."
2.2. Crates e outros cínicos da época helenística Crates foi discípulo de Diógenes e uma das figuras mais significativas da história do cinismo. Viveu provavelmente por volta do início do século III a.C. Difundiu o conceito de que as riquezas e a fama, longe de serem bens e valores, para o sábio são males. E ainda afirmou que os seus contrários, "pobreza" e "obscuridade", são bens.
Sobre Crates diz-se: "Vendeu seu patrimônio, já que pertencia a uma família distinta; recolheu cerca de .duzentos talentos, que distribuiu aos seus concidadãos ( ... ). Diógenes o persuadiu a abandonar seus campos ao pasto das ovelhas e a jogar no mar o dinheiro que tivesse ( ... ). Foi perseverante no seu propósito e não se deixou desviar por seus parentes, que vinham visitá-lo e que freqüentemente teve que perseguir com o bastão ( ... ).Consignou seu dinheiro a um. banqueiro, sob a condição de que, se seus filhos se tornassem profanos e incultos, desse-lhes o dinheiro, mas, se se tornassem fl.lósofos, o distribuísse ao povo; porque os seus filhos, se se dedicassem à fllosofia, não teriam necessidade de nada." O cínico deve ser apolide, porque a Polis é expugnável e não o refúgio do sábio.
A Alexandre, que lhe perguntava se queria que a sua cidade natal fosse reconstruída, respondeu: "E para que serviria? Talvez um outro Alexandre a destruísse." E, numa obra, escreveu: "Minha pátria não tem só uma torre nem um só teto; mas onde é possível viver bem, em qualquer ponto de todo o universo, lá está minha cidade, lá está minha casa." Crates casou-se, mas com um mulher (chamada Hiparquia) que abraçara o cinismo e vivia com ele a "vida cínica".
A completa ruptura com a sociedade é demonstrada também no relato segundo o qual teria "casado a filha experimentalmente, por trinta dias". No séculoIII a.C. tivemos notícia de um certo número de cínicos, como Bíon de Borístenes, Menipo de Gadara, Teletes e Menedemos. A Bíon parece que se deva atribuir a codificação da "diatribe", forma literária que iria ter larga repercussão. A diatribe é um breve diálogo de caráter popular com conteúdo ético, escrita freqüentemente com linguagem mordaz. Trata-se, substancialmente, do diálogo socrático cinicizado. As composições de Menipo tornaram-se modelos literários. Luciano inspirar-se-á neles; a própria sátira latina de Lucílio e Horácio inspirar-se-á na característica de fundo dos escritos dos cínicos, os quais, precisamente "ridendo castigant mores" ("rin<;lo, criticam os costumes"). Nos últimos dois séculos da era pagã o cinismo se enfraqueceu. Além da exaustão de sua carga interna, o eclipse do cinismo foi determinado por razões sociais e políticas: ao robusto senso ético de romanidade repugnavam a doutrina e a vida cínicas.
O juízo de Cícero é bastante eloqüente: "O sistema dos cínicos deve ser repudiado em bloco, pois é contrário à pudicícia, sem a qual nada pode ser reto e nada honesto."
Significado e limites do cinismo
O cinismo, principalmente na formulação de Diógenes e Crates, como já assinalamos, responde a algumas exigências de fundo da época helenística. Por esse motivo, teve um sucesso não muito inferior às grandes filosofias nascidas nessa época atormentada.
A denúncia cínica das grandes ilusões que inutilmente agitam os homens, quer dizer,
1) a busca do prazer,
2) o amor à riqueza,
3) a sede de poder e
4) o desejo· de fama, brilho e sucesso, bem como a firme convicção de que elas conduzem o homem sempre e somente à infelicidade, seria repisada quer pela "Estoá" de Zenon, quer pelo "Jardim" de Epicuro, quer pelo "Abrigo" de Pirro, tornando-se um "lugar comum" repetido durante séculos inteir?s..:
A exaltação da autarquia e da apatia, entendidas como as condiçoes essênciais da sabedoria e até mesmo da felicidade, tornar-se-á precisamente o motivo condutor do pensamento helenístico.
A menor vitalidade que o cinismo demonstrou em relação ao estoicismo, ao empirismo e ao ceticismo é devida a)a seu extremismo e anarquismo e, ademais,
b) ao seu desequilíbrio de fundo e
c) à sua objetiva pobreza espiritual.
a) O extremismo do cinismo consiste no fato de que a contestação das convenções e dos valores consagrados pela tradição sistematicamente perseguida pelos cínicos, não deixa quase nada a salvo, faltando à escola propor valores alternativos positivos.
b) O desequilíbrio de fundo do cinismo é devido ao fato de reduzir o homem, em última análise, à sua animalidade, retendo essencialmente (e em conseqüência, satisfazendo) quase que apenas as necessidades animais, ou se assim se preferir, às necessidades do homem primitivo; mas, ao mesmo tempo, propõe ao sábio um modelo de vida a realizar no qual são necessárias energias espirituais que vão bem além daquelas que a pura animalidade ou o homem no seu estado primitivo podem ter: exigem a atividade superior da psyché socrática, que, pouco a pouco, contudo, o cinismo esquece quase totalmente.
c) Finalmente, a pobreza espiritual do cinismo consiste não só no repúdio à ciência e à cultura, mas também na redução do aspecto propriamente filosófico da sua mensagem, a tal ponto que esta se torna incapaz de justificar-se teoricamente. A intuição emocional da validade da própria mensagem é o verdadeiro e único fundamento do cinismo. Os antigos já_ haviam definido o cinismo como . "o breve caminho para a virtude". Mas em filosofia podemos dizer, com Hegel, que não há caminhos breves, ou seja, atalhos. E, com efeito, o estoicismo, que mais do que todas as outras~ filosofias heleniaticas fez próprias as instâncias essenciais do cinismo, alongou consideravelmente o "caminho para a virtude"; mais exatamente, pela "mediação" e pelo esforço para dar conta, a fundo, de si mesmo e das próprias afirmações de base, conquistou os espíritos em medida bem maior do que o cinismo, suplantando-o radicalmente.
Críticas:
Além das criticas acima (em azul) de Reale e Antiseri, Diógenes rejeitava o a crença no monoteísmo, os legítimos prazeres criados por Deus, exaltando a pobreza, a ausência de metas sociais, desprezando a cultura

