quarta-feira, 8 de junho de 2022

Epicurismo- análise racional e cristã

 


Texto retirado do livro História da Filosofia vol. 1 Giovanni Reale.São Paulo: Paulus, 2014.


Epicuro e a fundação do "Jardim" (Képos)-  (341-270 a.C.)

 A primeira das grandes escolas helenísticas, em ordem cronológica, foi a de Epicuro, que surge em Atenas por volta do fim do século IV a.C. (provavelmente em 307/306 a.C.). 

Epicuro nascera em Samos em 341 a.C. e já havia ensinado em Cólofon, Mitilene e Lâmpsaco. 

O próprio lugar escolhido por Epicuro para sua escola é a expressão da novidade revolucionária do seu pensamento: não  uma palestra, símbolo da Grécia clássica, mas um prédio com um jardim (que era mais um horto), nos subúrbios de Atenas. 

Por isso, o nome "Jardim" e os "filósofos do jardim" (que, em grego, diz-se Képos) passou a indicar a escola e as expressões "os do Jardim" tornaram-se sinônimos dos seguidores de Epicuro,os epicuristas. Da riquíssima produção de Epicuro foram reunidas integralmente as Cartas endereçadas a Heródoto, a Pítocles, a Meneceu (que são tratados, resumidos), duas coleções de Máximas e vários fragmentos.


Resumo dos ensinos:

a) a realidade é perfeitamente penetrável e cognoscível pela inteligência do homem; 

b) nas dimensões do real existe espaço para a felicidade do homem; 

c) a felicidade é falta de dor e perturbação;

 d) para atingir essa felicidade e essa paz, o homem só precisa de si mesmo; 

e) não lhe servem absolutamente a cidade, as instituições, a nobreza, as riquezas, todas as coisas e nem mesmo os deuses: o homem é perfeitamente "autárquico".

 É claro que, no contexto desta mensagem, todos os homens são iguais, porque todos aspiram à paz de espírito, todos têm direito a ela e todos podem atingi-la, se quiserem. Em conseqüência, o Jardim quer abrir suas portas para todos: nobres e não-nobres, livres e não-livres, homens e mulheres, talvez até para prostitutas em busca de redenção. 

Crítica:

  • Sem  é dúvida é possível conhecer a realidade e a felicidade é possível. 
  • Felicidade é um conceito bem mais amplo que a  falta de dor e perturbação, tem muito a ver com senso de cumprimento de propósito, realização , preenchimento existencial. 
  • A espiritualidade  , entendida como o contato com Deus é um dos critérios para a plena felicidade, inclusive um de seus expoentes, Lucrécio se suicidou.
  •  O ascetismo, como veremos abaixo é um dos grandes problemas do epicurismo

A figura de um "profeta"

Existe em Epicuro, como justamente foi revelado pelos estudiosos modernos, mais de um traço que evoca a figura do profeta e do santo na dimensão "mundana". "O Jardim era uma base de adestramento para os missionários e a casa era o centro de uma intensa propaganda. Os fragmentos que sobreviveram informam-nos sobre a difusão do movimento ainda durante a vida do fundador: sabemos de cartas 'aos amigos de Lâmpsaco', 'aos amigos do Egito', 'aos amigos na Ásia, e, aos filósofos de Mitilene'. Na literatura epistolar endereçada às suas comunidades esparsas no Oriente, Epicuro parece ser o precursor de São Paulo" (B. Farrington).

Obviamente, Epicuro é um precursor de Paulo no "espírito missionário", não no conteúdo da mensagem, já que a fé epicúreia é uma fé que se coloca do lado de cá, negadora de toda transcendência e radicalmente ligada à dimensão do "natural" e do "fisico".

Os resultados metafisicos da "segunda navegação" platônica são radicalmente contestados e negados, assim como todo o desenvolvimento aristotélico.

Crítica:

A própria medicina contemporãnea reconhece a importancia da espiritualidade ou transcendencia:

Em 2002, a Organização Mundial da Saúde definiu cuidado paliativo como uma “abordagem que promove a qualidade de vida de pacientes e familiares que enfrentam problemas associados a doenças que ameaçam a vida, através da prevenção e alívio de sofrimento, por meio da identificação precoce, avaliação e tratamento impecáveis da dor e outros problemas físicos, psicossociais e espirituais” (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2014).

 

A espiritualidade, portanto, faz parte do cerne da abordagem de cuidados paliativos, conforme proposto pela Organização Mundial da Saúde. Desta forma, é interessante que esta dimensão do cuidado seja incluída no atendimento de pacientes que se encontram em situação de doença ameaçadora de vida. Viver esta situação pode ser algo transformador e resultar em crescimento, como também pode ser desesperador e angustiante (PUCHALSKI et al., 2020).


 Puchalski et al. (2009) sugerem que a espiritualidade no contexto dos cuidados paliativos deve ser considerada como um sinal vital, ou seja, integrada na rotina de cuidados, abordada como qualquer outra questão médica e inserida no plano de cuidados do paciente. Há várias barreiras para a abordagem do sofrimento espiritual. Entre elas estão: desconhecimento dos profissionais sobre o conceito de espiritualidade e como abordá-lo, a preocupação em relação a instituir pontos de vista religiosos, além da ideia de que esta abordagem não é importante ou que não faz parte do seu escopo de trabalho (SAPORETTI, 2009; EVANGELISTA et al., 2016). Espiritualidade é um elemento complexo e multidimensional, intrínseco da experiência humana, que compreende a busca de cada um por sentido na vida e de transcendência (EVANGELISTA et al., 2016; PUCHALSKI et al., 2020).

 Estudiosos da área definem espiritualidade como “um aspecto intrínseco e dinâmico da humanidade através do qual o indivíduo busca significado, sentido e transcendência, e experimenta a relação consigo mesmo, com a família, com os outros, a comunidade, a sociedade, a natureza e o que é significativo e sagrado. Espiritualidade é expressada através de crenças, valores, tradições e práticas” (PUCHALSKI et al., 2014, p. 646). Apesar de poder incluir a busca por uma entidade divina, a espiritualidade diferencia-se da religiosidade na medida em que esta envolve, dentro de uma coletividade, a expressão da espiritualidade através de uma organização, com tradições, rituais, crenças, práticas, normas e celebrações em comum (EVANGELISTA et al., 2016; STEINHAUSER et al., 2017; PUCHALSKI et al., 2020). 

A espiritualidade diz respeito a uma força interior que motiva a busca por um sentido para a vida como um todo, para uma situação, para a própria história de vida; esta busca pode ocorrer por meio da religião, da arte, da música, de projetos de vida, da filosofia, do contato com a natureza, ou da ajuda àqueles que precisam (CHERNY, 2015; EVANGELISTA et al., 2016; PUCHALSKI et al., 2020). A inspiração para tal significado da vida é único e varia de pessoa para pessoa (CHERNY, 2015). É, ainda, um recurso que pode ser usado para compreender melhor a si mesmo ou para transcender e ressignificar o sofrimento (EVANGELISTA et al., 2016). É vista como algo que pode ser praticado tanto dentro quanto fora de instituições formais e que propõe a experimentação da vida como algo que é mais do que aquilo que pode ser observada materialmente. Envolve compaixão e conexão com aquilo que transcende, com algo maior do que nós mesmos (CHERNY, 2015; STEINHAUSER et al., 2017).

Religiosidade, espiritualidade e crenças culturais influenciam na tomada de decisão em saúde e em desfechos de saúde (PUCHALSKI et al., 2020). Há evidência na literatura, como no estudo prospectivo de Phelps et al. (2009), de que a presença de coping religioso positivo está associada com maior preferência e recebimento de medidas agressivas no final da vida (ventilação mecânica ou ressuscitação na última semana de vida). Na discussão, os autores desse trabalho formulam que esta associação pode estar relacionada com a crença dos pacientes de que Deus possa curar através dessas medidas, que Deus pode intervir milagrosamente enquanto estão submetidas a esse suporte intensivo, ou ainda que eles se apoiam em Deus para superar essa situação e que isso vem através de algum sofrimento. Por outro lado, também foi encontrado associação positiva entre pacientes com medidas elevadas de espiritualidade e melhor qualidade de vida (STEINHAUSER et al., 2017; BALBONI; BALBONI, 2019). Manual de Cuidados Paliativos / Coord. Maria Perez Soares D’Alessandro, Carina Tischler Pires, Daniel Neves Forte ... [et al.]. – São Paulo: Hospital SírioLibanês; Ministério da Saúde; 2020. 

 

O "cânon" epicureu

Epicuro adota substancialmente a tripartição senocrática da filosofia em "lógica", "física" e" ética". A primeira deve elaborar os canônes segundo os quais reconhecemos a verdade; a segunda estuda a constituição do real; a terceira, o fim do homem (a felicidade) e os meios para alcançá-la. A primeira e a segunda são elaboradas só em função da terceira.


Critérios de verdade

1-As sensações

Platão afirmara que a sensação confunde a alma e desvia do ser. Epicuro precisamente inverte essa posição, afirmando que, ao contrário, a sensação e somente ela "colhe o ser" de modo infalível.

Nunca nenhuma sensação pode falhar. Diz Cícero: "A tal linha chega Epicuro ao dizer que, se uma sensação, uma única vez na vida, devesse induzir ao erro, não existiria mais possibilidade de se acreditar em nenhuma sensação"; "Epicuro temia que, se uma única sensação se revelasse mentirosa, mais nenhuma pudesse ser dita verdadeira. E chamava os sentidos de: 'mensageiros do verdadeiro'

1) Em primeiro lugar, a sensação é uma "alteração" e, em consequência, passiva; como tal, é. produzida por alguma coisa da qual é o efeito correspondente e adequado. 

2) Em segundo lugar, a sensação é objetiva e verdadeira, porque é produzida e garantida pela própria estrutura atômica da realidade (da qual falaremos adiante). De todas as coisas emanam complexos de átomos, que constituem "imagens ou simulacros", e as sensações são exatamente produzidas pela penetração, em nós, de tais simulacros. As sensações são registros objetivos dos simulacros tais como eles são, mesmo aqueles que erroneamente são considerados ilusões dos sentidos, como as diferentes formas segundo as quais um objeto aparece, segundo o lugar ou a distância em que nos encontramos dele. De fato, o simulacro do objeto próximo é efetivamente diverso daquele que está distante; assim, em vez de estabelecer a prova, segundo alguns, de que os sentidos se enganam, é prova de sua objetividade.

3) Finalmente, a sensação é a-racional e, em consequência, incapaz de retirar ou acrescentar a si mesma alguma coisa, sendo, pois, objetiva.


2- Pré-Noções

Como segundo "critério" de verdade, Epicuro colocava as "prolepses", "antecipações" ou "pré-noções", que são as representações mentais das coisas, as quais não são senão "memória daquilo que frequentemente mostrou-se do exterior". A experiência deixa, pois, na mente uma "impressão" das sensações passadas e essa "impressão" permite-nos conhecer antecipadamente as características das coisas correspondentes mesmo sem tê-las atualmente presentes ou, para dizê-lo em outros termos, "antecipamos" quais características as coisas terão quando a sensação colocá-las-á novamente diante de nós. Logo, a prolepse antecipa a experiência somente porque e enquanto ela foi produzida pela experiência. Os "nomes" são expressões "naturais" dessas prolepses e, em conseqüência, constituem também uma manifestação natural da ação originária das coisas sobre nós.


3- Prazer e dor

Como ·terceiro critério de verdade, Epicuro coloca os sentimentos de "prazer" e "dor". As sensações do prazer e da dor são objetivas pelas mesmas razões que o são todas as sensações. Têm, todavia, uma importância inteiramente particular porque, além de critério para distinguir o verdadeiro do falso, o ser do não-ser, como todas as outras sensações, constituem o critério axiológico para distinguir o "bem" do "mal", constituindo assim o critério de escolha ou da não escolha, ou seja, a regra do nosso agir.

As sensações e prolepses e os sentimentos de prazer e dor têm uma característica comum que garante seu valor de verdade, a qual consiste na evidência imediata. Portanto, desde que firmemos a evidência e acolhamos como verdadeiro o que é evidente, não podemos errar, porque a evidência é sempre dada a partir da ação direta que as coisas exercem sobre nosso espírito. "Evidente" no sentido estrito é, então, só aquilo que é imediato, como as sensações, as antecipações e os sentimentos. Mas, uma vez que o raciocínio não pode apoiar-se no imediato, sendo operação de mediação, assim nasce a opinião e, com ela, a possibilidade do erro.

Portanto, enquanto as sensações, as prolepses e os sentimentos são sempre verdadeiros, as opiniões poderão ser ora verdadeiras, ora falsas. Por isso, Epicuro procurou determinar os critérios com base nos quais pode-se distinguir as opiniões verdadeiras das falsas.

São verdadeiras as opiniões que: 

a) "recebem testemunho comprobatório", isto é, confirmação por parte da experiência e da evidência e 

b) "não recebem testemunho contrário", ou seja, não recebem desmentido da experiência e da evidência; por sua vez, 

são falsas as opiniões que

 a) "recebem testemunho contrário", ou seja, são desmentidas pelas experiências e pela evidência e 

b) "não recebem testemunho probante", ou seja, não recebem confirmação da experiência e da evidência. .

E de se notar que a evidência permanece sempre o parâmetro com base no qual se mede e reconhece a verdade, mas é, somente uma evidência empírica: é a evidência tal como aparece aos sentidos e não tal como aparece à razão

Crítica:

"Mais do que nunca são aqui relevantes as pesadas hipotecas sensísticas do cânone epicureu que o tornam inadequado e insuficiente quanto às exigências para a construção da própria física epicúreia. De fato, os conceitos-base da física epicúreia, como os "átomos", o "vazio" e a "queda dos átomos", não são coisas evidentes por si, pelo motivo de que não são sensorialmente aceitáveis. Mas, diz Epicuro, são coisas não evidentes, supostas e opinadas para explicar os fenômenos e de acordo com os fenômenos. Mas, evidentemente, Epicuro está bem longe de poder demonstrar que os átomos, o vazio e a queda sejam as únicas coisas que podemos supor para explicar os fenômenos, porque outros princípios, inteiramente diversos destes, poderiam igualmente se vangloriar da "falta de testemunho contrário" por parte da experiência.

Recordemos, enfim, que há tempos os estudiosos revelaram que, a partir da afirmação de que todas as sensações são verdadeiras, pode-se deduzir tanto o objetivismo absoluto, como faz Epicuro, como o subjetivismo absoluto, como fazia Protágoras. A verdade é que tanto a fisica como a ética epicúreia, em todo caso, vão muito além daquilo que o cânone que vimos permitiria sozinho." História da Filosofia 1 Geovanni Reale, 2014


Física epicuriana

Por que é necessário elaborar uma fisica ou ciência da natureza, da realidade em seu conjunto? Epicuro responde: 

"Se não nos perturbasse o pavor dos fenômenos celestes e da morte, algo que nos toca de perto, e se não nos perturbasse o desconhecimento dos limites dos prazeres e das dores, não teríamos necessidade da ciência da natureza." 

O que significa que a física deve ser feita para dar fundamento à ética.

A "física" de Epicuro é uma ontologia, uma visão geral da realidade em sua totalidade e em seus princípios últimos. Epicuro, na verdade, não sabe criar uma nova ontologia: para expressar a própria visão materialista da realidade de modo positivo (ou seja, não negando simplesmente a tese platônico-aristotélica), remete a conceitos e figuras teoréticas já elaboradas no âmbito da filosofia pré-socrática. E, entre todas as perspectivas pré-socráticas, era quase inevitável que Epicuro escolhesse a dos atomistas, exatamente porque, essa depois da "segunda navegação" platônica, revelava-se a mais materialista de todas. Mas o atomismo, como vimos, é uma resposta precisa às aporias levantadas pelo eleatismo, uma tentativa de mediar as instâncias opostas do logos eleático, por um lado, e da experiência, por outro. Grande parte da lógica eleática passa pela lógica do atomismo (Lêucipo, o primeiro atomista, foi discípulo de Melissos e, em geral, o atomismo, entre as propostas pluralistas, foi a mais rigorosamente eleática). Em conseqüência, era inevitável que também estivesse presente em Epicuro.


FÍSICA- INFINITOS MUNDOS E ÁTOMOS- DESTINO

Os fundamentos da física epicúreia podem ser enucleados e formulados como segue:

a) "Nada nasce no não-ser", porque, de outro modo, tudo poderia absurdamente gerar-se de qualquer coisa, sem necessidade de nenhum elemento gerador; e nenhuma coisa "dissolvesse no nada", porque, de outro modo, neste momento, tudo pereceria e nada mais existiria. E, dado que nada nasce e nada perece, assim o todo, isto é, a realidade em sua totalidade, sempre foi como é agora e sempre será assim; com efeito, além do todo, não existe nada em que ele possa mudar-se, nem existe nada do qual possa provir.

b) Esse "todo", ou seja, a totalidade da realidade, é determinado por dois componentes essenciais: os corpos e o vazio. A existência dos corpos é provada pelos próprios sentidos, enquanto a existência do espaço e do vazio é inferida pelo fato de que existe movimento. Com efeito, para que exista movimento, é necessário que exista um espaço vazio no qual os corpos possam deslocar-se.

·O vazio não é absoluto não-ser, mas exatamente "espaço" ou, como diz Epicuro, "natureza intangível". Além dos corpos e do vazio tertium non datur, porque não seria pensável nada que exista por si mesmo e não seja alteração (afecção) dos corpos.

c) Tal como é concebida por Epicuro, a realidade é infinita. Em primeiro lugar, é infinita como totalidade. Mas é evidente que, para que tudo possa ser infinito, cada um dos seus princípios constitutivos também deve ser infinito: infinita deverá ser a multidão dos corpos e infinita a extensão do vazio (se a multidão dos corpos fosse finita, eles se perderiam no vazio infinito e, se o vazio fosse finito, não poderia acolher corpos infinitos. O conceito de infinito torna, assim, a se impor, contra as concepções platônicas e aristotélicas.

d) Alguns "corpos" são compostos; outros, ao contrário, são simples e absolutamente indivisíveis (átomos). A admissão do átomo torna-se necessária porque, caso contrário, seria preciso admitir uma di visibilidade dos corpos ao infinito, a qual, no limite, conduziria à dissolução das coisas no não-ser, o que, como sabemos, é absurdo.

A concepção do átomo de Epicuro difere de visão dos antigos atomistas (Lêucipo e Demócrito) em três pontos fundamentais.

1) Os antigos atomistas indicavam como características essenciais do átomo a "figura", a "ordem" e a "posição". Epicuro, por sua vez, indica como características essenciais a "figura", o "peso" e a "grandeza". As formas diferentes dos átomos (que não são somente formas regulares de caráter geométrico, mas formas de toda espécie e tipo, sendo em todo caso, sempre e só formas quantitativas diferentes e não qualitativamente diversas, como as formas platônicas e aristotélicas, dado que os átomos são todos de idêntica natureza) resultam necessárias para explicar as diversas qualidades fenomênicas das coisas que nos aparecem. O mesmo vale também para a grandeza dos átomos (o peso, porém, como veremos melhor adiante, é necessário para explicar o movimento dos átomos). As formas atômicas devem ser diversas e numerosíssimas, mas não infinitas (para ser infinitas, deveriam poder variar sua grandeza ao infinito; mas, então, tornar-se-iam visíveis, o que não acontece), ao passo que o número dos átomos em geral é infinito.

2) Uma segunda diferença consiste na introdução da teoria dos "mínimos". Segundo Epicuro, todos os átomos, dos maiores aos menores, são física e ontologicamente indivisíveis; todavia, o fato mesmo de serem "corpos" dotados de figura e, conseqüentemente, de extensão e grandezas diversas (embora no âmbito dos dois limites que assinalamos) implica que eles teriam partes. (Se assim não fosse, não existiria sentido algum em falar de átomos pequenos e átomos grandes.) Obviamente, trata-se de "partes" não separáveis ontologicamente, mas apenas lógica e idealmente distinguíveis, porque o átomo é estruturalmente indivisível. E mesmo a grandeza dessas "partes" do átomo, pela mesma razão eleática em virtude da qual é impossível que os átomos diminuam de grandeza ao infinito, deve-se deter em um limite que Epicuro chama exatamente de "mínimo" e que, como tal constitui a unidade da medida analógica.

3) A terceira diferença diz respeito à concepção do movimento originário dos átomos. Epicuro entende este movimento não como aquele voltejar em todas as direções do qual falavam os antigos atomistas, mas como um movimento de queda para baixo no espaço infinito, devido ao peso dos átomos, com um movimento tão veloz quanto o pensamento e igual para todos os átomos, quer sejam pesados, quer leves. Tal correção da concepção do antigo atomismo resulta num híbrido bastante infeliz, porque demonstra de modo claríssimo o quanto o pensamento sobre o infinito está irremediavelmente comprometido pelo "sensismo", que não sabe livrar-se da representação empírica do alto e do baixo (que são conceitos relativos ao finito). Mas como então os átomos não caem segundo linhas paralelas, no infmito, sem nunca se tocar? Para resolver a dificuldade, Epicuro introduz a teoria da "declinação" dos átomos (clinámen), segundo a qual os átomos podem desviar-se a qualquer momento do tempo e em qualquer ponto do espaço num intervalo mínimo da linha reta e, assim, encontrar outros átomos.

A teoria do clinámen não foi introduzida só por razões físicas, mas também e sobretudo por razões éticas. Com efeito, no sistema do antigo atomismo tudo ocorre por necessidade: o fado e o destino são soberanos absolutos; mas, num mundo no qual predomina o destino, não há lugar para a liberdade humana e, em conseqüência, não há lugar para uma vida moral tal como Epicuro a concebe e, portanto, também não há lugar para uma vida de sábio. Eis pois o que Epicuro escreve, opondo-se à necessidade dominante no sistema dos antigos atomistas: 

"Na verdade, seria melhor acreditar nos mitos sobre os deuses do que tornar-se escravo do fado que os físicos pregavam: aquele mito, com efeito, oferece uma esperança, com a possibilidade de aplacar os deuses com honras, enquanto no fado existe apenas uma necessidade implacável."

Como os antigos já observavam, a "queda" dos átomos contradiz as premissas do sistema, porque é gerada sem causa no "não ser"; o que é tanto mais grave quando se sabe que Epicuro repisa energicamente que "do nada, nada procede".

Assim Epicuro, para introduzir o "clinámen", contradiz o princípio eleático que, como vimos, está na base da sua física; e, para abrigar-se da necessidade, do fado e do destino, lança o cosmos à mercê do fortuito. Com efeito, o "clinámen", que não está vinculado às leis nem às normas da sorte, não é certamente "liberdade", porque lhes são estranhas qualquer finalidade e qualquer intligência: logo, ele é apenas mera casualidade. A liberdade não pode ser buscada e encontrada na esfera do fisico e do material, mas somente na esfera superior, do espiritual. Por outro lado, como dizíamos, exatamente estas aporias estão entre as coisas que melhor nos ajudam a compreender a complexidade do pensamento de Epicuro e sua verdadeira estatura. 

Dos infinitos princípios atômicos derivam infinitos mundos. Alguns são iguais ou análogos ao nosso, outros muito diversos. E pois de se notar que todos esses infinitos mundos nascem e se dissolvem, alguns mais rapidamente, outros mais lentamente, na duração do tempo. Se bem que os mundos não são apenas infinitos na infinitude do espaço num dado momento do tempo, mas também são infinitos na infinita sucessão temporal. E, embora em cada instante existam mundos que nascem e mundos que morrem, Epicuro bem pode afirmar que "o todo não muda". Com efeito, não só os elementos constitutivos do universo permanecem perenemente como são, mas também todas as suas possíveis combinações permanecem sempre atuantes, exatamente por causa da infmitude do universo, que dá sempre lugar à concretização de todas as possibilidades.

Na raiz dessa constituição de infinitos universos não estão, pois, nenhuma Inteligência, nenhum projeto e nenhuma finalidade - e sequer está a necessidade -, mas, como vimos, está o clinámen e, logo, o casual e o fortuito. É Epicuro e não Demócrito o filósofo que verdadeiramente "coloca o mundo ao caso".

Crítica:

Além das crítica marcadas em azul no texto de Giovanni Reale, o conceito de infinito Real não corresponde à realidade. O matemático Hilbert com seu exemplo de "Hotel de Hilbert" demonstra que o infinito real (objetos físicos) é diferente de infinito imaginário. 

Não existe também multiversos http://lordisnotdead.blogspot.com/


ALMA

A alma, como todas as outras coisas, é um agregado de átomos. Agregado formado em parte por átomos ígneos, aeriformes e ventosos, que constituem a parte irracional e a lógica da alma, e em parte por átomos que são "diversos" dos outros e que não têm um nome específico, constituindo a parte racional. Portanto, como todos os outros agregados, a alma não é eterna, mas mortal. Essa é uma conseqüência que decorre necessariamente das premissas materialistas do sistema.

Crítica:

Atomos,. como demonstra a ciência contemporânea são objetos materiais, portanto a alma não é constituída de átomos.


DEUSES

Epicuro não nutre nenhuma dúvida sobre a existência dos deuses. Entretanto, nega que eles se ocupem com os homens ou com o mundo. Vivem em bem-aventurança nos "intermundos", ou seja, nos espaços existentes entre mundo e mundo; são numerosíssimos, falam uma língua semelhante à grega (a língua dos sábios) e transcorrem a vida na alegria, alimentada por sua sabedoria e por sua própria companhia. 

Epicuro chegava a apresentar argumentos para demonstrar a existência dos deuses:

 1) temos deles um conhecimento evidente e, conseqüentemente, incontestável;

 2) tal conhecimento é possuído não só por alguns, mas por todos os homens de todos os tempos e lugares; 

3) o conhecimento que temos deles, assim como nossos outros conhecimentos, não pode ser produzido senão por "simulacros" ou "eflúvios" que provêm deles, sendo, em conseqüência, um conhecimento objetivo.


É muito importante destacar o fato de que, da mesma forma que sublinha a "diversidade" dos átomos que constituem a alma racional em relação a todos os outros átomos. Epicuro também admite que a conformação dos deuses "não é corpo, mas 'quase corpo', não é alma, mas 'quase alma'".

Seria o caso de destacar que esse "quase" arruina todo o raciocínio filosófico e põe irreparavelmente a nu a insuficiência do materialismo atomístico. Como todas as outras coisas, os deuses devem ser constituídos por átomos, mas todo composto atômico é suscetível de dissolução, enquanto que os deuses são imortais. Pois bem, a afirmação de que o composto atômico que constitui os deuses, diversamente daquele que constitui todas as outras coisas, não se dissolve porque as suas perdas (sofridas com o contínuo fluxo dos átomos que formam os simulacros) são continuamente preenchidas, nada mais faz do que acentuar o problema. Com efeito, não há modo de explicar a razão do estatuto privilegiado desses compostos. E, então, a Epicuro só resta a aporética afirmação do "quase-corpo", que, na realidade, revela inexoravelmente a incapacidade estrutural do atomismo de explicar os deuses, bem como de explicar a unidade da consciência que existe em nós, da mesma forma que o clinámen se revela estruturalmente insuficiente para explicar a liberdade.

Crítica

Epicuro de maneira irracional acredita em deuses criados (de acordo com a mitologia grega), o que faz deles apenas seres super humanos . Não acredita porém na intervenção deles no mundo dos humanos.

A ciência contemporânea mostra que a matéria foi criada no Big bang, bem como o tempo e o espaço. De forma que a causa do Big Bang é imaterial, atemporal e admensional. O unico ser com estas caracteristicas é chamado de DEUS.

Para discussões sobre provas da existência de Deus click http://lordisnotdead.blogspot.com/


A ética epicuréia- ataraxia  e  aponia

Se a essência do homem é material, também necessariamente será material o seu bem específico, aquele bem que, concretizad e realizado, torna o homem feliz. E que bem seja este é a natureza, considerada na sua imediaticidade, que nos diz sem meias palavras, como já vimos: o bem é o prazer.

Essa conclusão já havia sido extraída pelos cirenaicos. Mas Epicuro reforma radicalmente o seu hedonismo. Com efeito, os cirenaicos sustentavam que o prazer é um "movimento suave", enquanto que a dor é um "movimento violento"; negavam o estado de quietude intermediário, ou seja, a ausência de dor ou prazer. Epicuro não só admite esse tipo de prazer na quietude (catastemático), mas dá-lhe a máxima importância, considerando-o o limite supremo, o cume do prazer. Ademais, enquanto os cirenaicos consideravam os prazeres e dores fisicos superiores aos psíquicos, Epicuro sustenta exatamente o oposto. Como fino indagador da realidade do homem que era, Epicuro havia compreendido perfeitamente que mais do que os gozos ou sofrimentos do corpo, que são circunscritos no tempo, contam as ressonâncias interiores e os movimentos da psique, que os acompanham e duram bem mais.

Para Epicuro, portanto, o verdadeiro prazer vem a ser a"ausência de dor no corpo" (aponía) e a "falta de perturbação da alma" (ataraxia). Eis as afirmações do filósofo: 

"Assim, quando dizemos que o prazer é um bem, não aludimos, de modo algum aos prazeres dos dissipados, que consistem em torpezas, como crêem alguns que ignoram nosso ensinamento ou o interpretam mal; aludimos, isso sim, à ausência de dor no corpo e à ausência de perturbação na alma. Nem libações e festas ininterruptas, nem gozar com crianças e mulheres, nem comer peixes e tudo o mais que uma mesa rica pode oferecer são fonte de vida feliz, mas sim o sóbrio raciocinar, que escruta a fundo as causas de todo ato de escolha e de recusa e que expulsa as falsas opiniões por via das quais grande perturbação se apossa da alma."

Sendo assim, a regra da vida moral não é o prazer como tal, mas a razão que julga e discrimina, ou seja, a sabedoria que, entre os prazeres, escolhe aqueles que não comportam em si dor e perturbação, descartando aqueles que dão gozo momentâneo, mas trazem consigo dores e perturbações.

Para garantir o atingimento da "aponia" e da "ataraxia",

Epicuro distinguiu: 

1) prazeres naturais e necessários;

 2) prazeres naturais mas não necessários, 

3) prazeres não naturais e não necessários. 


Estabeleceu depois que atingimos o objetivo desejado satisfazendo sempre o primeiro tipo de prazeres, limitando-nos em relação ao segundo tipo e fugindo do terceiro. Nesse terreno, Epicuro manifesta uma posição que não seria exagero chamar de "ascética", pelas razões que seguem:

1) Entre os prazeres do primeiro grupo, isto é, aqueles naturais e necessários, ele coloca unicamente os prazeres que estão estreitamente ligados à conservação da vida do indivíduo: estes seriam os únicos verdadeiramente válidos, porque subtraem a dor do corpo, como, por exemplo, comer quando se tem fome, beber quando se tem sede, repousar quando se está cansado e assim por diante. Ao mesmo tempo, exclui do grupo o desejo e o prazer do amor, porque são fonte de perturbação. Os desejos e prazeres do primeiro grupo são os únicos que são sempre e habitualmente satisfeitos, porque têm por natureza um preciso "limite", que consiste na eliminação da dor: obtida a eliminação da dor, o prazer não cresce ulteriormente. 

2) Entre os prazeres do segundo grupo, ao contrário, coloca todos os desejos e prazeres que constituem as variações supérfluas dos prazeres naturais: comer bem, beber bebidas refinadas, vestir-se com apuro e assim por diante. Os desejos e prazeres do segundo grupo já não têm mais aquele "limite" do primeiro, porque não subtraem a dor do corpo, mas variam somente no grau do prazer e podem provocar notável dano. 

3) Por fim, entre os prazeres do terceiro grupo, não naturais e não necessários, Epicuro coloca os prazeres "vãos", isto é, nascidos das "vãs opiniões dos homens", que são todos os prazeres ligados ·ao desejo de riqueza, poder, honras e semelhantes.

Os prazeres do terceiro grupo não tolhem a dor corpórea e, por acréscimo, produzem sempre perturbação na alma. Por isso, são compreensíveis estas conclusões:

 "A riqueza segundo a natureza está inteira no pão, na agua e num abrigo qualquer para o corpo; a riqueza supérflua traz para a alma também uma ilimitada aspiração dos desejos."

Refreemos pois nossos desejos, reduzamo-los ao primeiro núcleo essencial e teremos copiosa riqueza e felicidade, porque para nos propiciar aqueles prazeres bastamo-nos a nós mesmos ' e neste bastar-se-a- SI-mesmo (autarquia) é que estão a maior riqueza e felicidade.

Mas o que devemos fazer quando somos atingidos pelos males físicos não desejados? Epicuro responde: se é leve o mal físico é suportável, nunca sendo tal que ofusque a alegria da alma; se é agudo, passa logo; se é agudíssimo, conduz logo à morte, a qual, em todo caso, como veremos, é um estado de absoluta insensibilidade.

E os males da alma? A respeito destes não é o caso de nos alongarmos, porque são apenas produtos de opiniões falazes e dos erros da mente. E toda a filosofia de Epicuro se apresenta como o mais eficaz remédio e o mais seguro antídoto contra eles.

E a morte? A morte é um mal só para quem nutre falsas opiniões sobre ela. Como o homem é um "composto alma" num "composto corpo", a morte não é senão a dissolução desses compostos, na. qual os átomos se espraiam por toda parte, a consciência e a sensibilidade cessam totalmente e, assim, só restam do homem ruínas que se dispersam, isto é, nada. Assim, a morte não é pavorosa em SI mesma porque, com sua vinda, não sentimos mais nada; nem pelo seu "depois", exatamente porque não resta nada de nós, dissolvendo-se totalmente nossa alma, assim como nosso corpo; nem, enfim, a morte tolhe nada da vida que tenhamos vivido, porque a eternidade não é necessária para a absoluta perfeição do prazer.

A vida política, para o fundador do "Jardim", é substancialmente não-natural. Em conseqüência, ela comporta continuamente dores e perturbações, compromete a aponia e a ataraxia e, portanto, compromete a felicidade. Com efeito, os prazeres da vida política, a que muitos se propõem, são puras ilusões: da vida política os homens esperam poder, fama e riqueza, que são, como sabemos, deseJOS e prazeres nem naturais nem necessários, sendo portanto vazias e enganosas miragens. Assim, é compreensível o convite de Epicuro: 

"Livremo-nos amplamente do cárcere das ocupações cotidianas e da política." A vida pública não enriquece o homem, mas o dispersa e dissipa. Por isso é que Epicuro se apartava e vivia separado da multidão: "Retira-te para dentro de ti mesmo, sobretudo quando és constrangido a estar entre a multidão." "Vive oculto", soa o célebre mandamento epicureu.

Somente nesse entrar em si e permanecer em si é que podem ser encontradas a tranqüilidade, a paz da alma e a ataraxia. Para Epicuro, o bem supremo não está nas coroas dos reis e dos poderosos da terra, mas na ataraxia: "A coroa da ataraxia é incomparavelmente superior à coroa dos grandes impérios." Com base nessas premissas, é claro que Epicuro devia dar do direito, da lei e da justiça uma interpretação em nítida antítese tanto em relação à opinião clássica dos gregos como em relação às teses filosóficas de Platão e Aristóteles. Direito, lei e justiça só têm sentido e valor quando e à medida que são ligados ao "útil"; o seu fundamento objetivo não é senão a utilidade. Assim o Estado, de realidade moral dotada de valor absoluto que fora no passado torna-se instituição relativa, nascida de um simples contrato tendo em vista o útil; do mesmo modo, de fonte e coroamento dos supremos valores morais torna-se simples meio de tutela dos valores vitais; por fim, torna-se condição necessária para a vida moral, mas não uma condição suficiente. A justiça torna-se um valor relativo subordinado ao útil.O desmoronamento do mundo ideal platônico não poderia ser mais radical e a ruptura com o sentimento de vida classicamente grego não poderia ser mais decisiva: o homem deixou de ser homem-cidadão para tornar-se puro homem-indivíduo. O único liame admitido como verdadeiramente factível entre estes indivíduos é a "amizade", que é um laço livre, que reúne aqueles que sentem, pensam e vivem de modo idêntico. Na amizade, nada é imposto de fora e de modo não-natural; sendo assim, nada viola a intimidade do indivíduo. No amigo, Epicuro vê um como outro eu. A amizade não é senão o útil, mas é o útil sublimado. Com efeito, primeiro se busca a amizade para conseguir determinadas "vantagens" estranhas a ela; depois, uma vez nascida, a amizade tornase, ela mesma, fonte de prazer e, conseqüentemente, um fim.

Assim, Epicuro bem pode afirmar o que segue: "De todas as coisas que a sabedoria busca, em vista de uma vida feliz, o maior bem é a conquista da amizade"; "A amizade anda pela terra anunciando a todos que devemos acordar para dar alegria uns aos outros".


Os quatro remédios e o ideal do sábio Epicuro forneceu pois aos homens um quádruplo remédio da seguinte forma: mostrou  

1) que são vãos os temores em relação aos deuses e ao além

2) que o pavor em relação à morte é absurdo, pois ela não é nada,

 3) que o prazer, quando o entendemos corretamente, está à disposição de todos e

4) finalmente que o mal dura pouco ou é facilmente suportável. '

O homem que souber aplicar esse quádruplo remédio em si mesmo poderá adquirir paz de espírito e a felicidade, que nada e ninguém poderão atingir. Tornado, assim totalmente senhor de si, o sábio não pode temer mais nada, nem mesmo os mais atrozes males e sequer as torturas: "O sábio será feliz mesmo entre os tormentos." Diz Sêneca: "Epicuro diz inclusive que o sábio, se for queimado dentro do touro de Falárides, gritará: isto é doce e não me atinge de modo algum"; "Epicuro diz inclusive que é doce arder entre as chamas".

. É evidente que dizer que o sábio pode ser feliz mesmo sob as mais atrozes torturas. (das quais o tour~ de Falárides é o exemplo extremo) é uma maneira paradoxal de dizer que o sábio é absolutamente "imperturbável"- e o próprio Epicuro deu uma demonstração disso quando, por entre os espasmos do mal que o levava à morte, escrevendo a um amigo o último adeus proclamava que a vida é doce e feliz. '

E assim, fortalecido por sua "ataraxia", Epicuro capacita-se para poder dizer que o sábio pode competir, em felicidade, até com os deuses: exceto a eternidade, Zeus não possui nada mais além do sábio.

Para os homens de seu tempo, agora privados de tudo o que tornava a Vida segura para os antigos gregos e atormentados pelo pavor e pela angústia do viver, Epicuro indicava um novo caminho para o reencontro da felicidade e pregava uma palavra que era como que um desafio à sorte e à fatalidade. Mostrava que a felicidade pode vir de dentro de nós, embora as coisas estejam fora de nós, porque o verdadeiro bem, à medida que vivemos e enquanto vivemos, está sempre e somente em nós: o verdadeiro bem é a vida para mantê-la basta pouquíssimo e esse pouquíssimo está à disposiçao de todos, de cada homem - e todo o resto é vaidade.

Sócrates e Epicuro são os paradigmas de duas grandes fés e portanto, de duas religiões leigas: a fé e a religião da "justiça" a ré e a religião da "vida". '


Críticas

 Epicuro tinha uma posição ascética como já comentada por Giovanni Reale, ao contrário do que escreve Ambrósio:



13. Também o próprio Epicuro , a quem essas pessoas pensam que deveriam seguir antes que os apóstolos , o defensor do prazer, embora negue que o prazer traga o mal , não nega que dele resultem certas coisas das quais os males são gerados; e afirma, em suma, que a vida do licensioso, cheia de prazeres, não parece repreensível, a menos que seja perturbada pelo medo da dor ou da morte. Mas o quão longe ele está da verdade é percebido até disso, que ele afirma que o prazer foi originalmente criado no homem por Deus seu autor, como Philomarus seu seguidor argumenta em seu Epitomæ, afirmando que os estóicos são os autores dessa opinião.

19. Mas quanto ao próprio Epicuro , o defensor do prazer, de quem, portanto, temos feito menção frequente para provar que esses homens são discípulos dos pagãos e seguidores da seita epicurista ou ele mesmo, a quem os próprios filósofos excluir de sua companhia como patrono do luxo, e se provarmos que ele é mais tolerável do que esses homens? Ele declara, como Demarco afirma, que nem beber, nem banquetes, nem filhos, nem abraços de mulheres, nem abundância de peixes, e outras coisas semelhantes que são preparadas para o serviço de um banquete suntuoso, tornam a vida doce, mas a discussão sóbria. Por último, acrescentou que quem não usa em excesso os banquetes da sociedade, usa-os com moderação. Aquele que voluntariamente faz uso dos sucos das plantas, juntamente com o pão e a água, despreza os banquetes de iguarias, pois muitos inconvenientes surgem deles. Em outro lugar, eles também dizem: Não são banquetes excessivos, nem bebidas que dão origem ao gozo do prazer, mas uma vida de temperança .

20. Uma vez que a filosofia rejeitou esses homens, a Igreja não deve excluí-los? Vendo, também, que eles, por terem uma causa ruim , freqüentemente se desqualificam por suas próprias afirmações. Pois, embora sua opinião principal seja que não há gozo de prazer exceto aquele derivado de comer e beber, mas entendendo que eles não podem, sem a maior vergonha, se apegar a uma definição tão vergonhosa, e que eles são abandonados por todos, tentaram colori-lo com uma espécie de mancha de argumentos ilusórios; de modo que um deles disse: Enquanto buscamos o prazer por meio de banquetes e canções, perdemos o que é infundido em nós pela recepção da Palavra, pela qual somente podemos ser salvos. Ambrósio Epistola 63:13, 19-20

A bíblia condena a avareza, o sexo fora do casamento monogamico heterosexual, a embriagues e seus vícios, e não traz restrições alimentares.

1 Tm 4:1 ¶ Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios,

2  pela hipocrisia dos que falam mentiras e que têm cauterizada a própria consciência,

3  que proíbem o casamento e exigem abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos, com ações de graças, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade;

4  pois tudo que Deus criou é bom, e, recebido com ações de graças, nada é recusável,

5  porque, pela palavra de Deus e pela oração, é santificado.

Provérbios 5:19  corça de amores e gazela graciosa. Saciem-te os seus seios em todo o tempo; e embriaga-te sempre com as suas carícias.

Eclesiastes 2:24  Nada há melhor para o homem do que comer, beber e fazer que a sua alma goze o bem do seu trabalho. No entanto, vi também que isto vem da mão de Deus,





 Desenvolvimento do epicurismo na época helenística

. Epicuro não só propôs, mas impôs essa doutrina aos seus seguidores com férrea disciplina, a ponto de no "Jardim" não haver lugar para conflitos de idéias e desenvolvimentos doutrinários de relevo, pelo menos sobre questões de fundo. Os estudiosos se sucederam em Atenas, da morte de Epicuro (270 a.C.) até a primeira metade do século I a.C. Sabe-se que na segunda metade desse século, o terreno no qual surgira a escola de Epicuro havia sido vendido e que o "Jardim" já estava morto em Atenas. Mas a palavra de Epicuro iria encontrar uma segunda pátria na Itália. 

No século I a.C., por obra de Filodemo de Gádara (nascido por volta de fns do século II a.C. e morto entre 40 e 30 a.C.), constituiu-se um círculo de epicuristas, de caráter aristocrático, que teve sua sede numa vila de Herculano, de propriedade de Calpúrnio Pisão, notável e influente político (foi cônsul em 58 a.C.) e grande mecenas. As escavações realizadas em Herculano levaram à redescoberta dos restos da vila e da biblioteca, constituída por escritos de epicuristas e do próprio Filodemo.

Mas a contribuição de longe mais significativa para o epicurismo deveria vir de Tito Lucrécio Caro, que constitui um unicum na história da filosofia de todos os tempos. Nascendo no início do século I a.C., morreu por volta de meados desse século. O seu De rerum natura que canta em versos admiráveis o pensamento de Epicuro, constitui o maior poema filosófico de todos os tempos.

Quanto à doutrina, Lucrécio repete fielmente Epicuro. A sua inovação consiste na poesia, ou seja, no modo como soube expor a mensagem que vinha do "Jardim": "Para libertar os homens, Lucrécio compreendeu que não se tratava de obter, nos momentos de fria reflexão, sua adesão a alguma verdade de ordem intelectual, mas que era preciso tornar essas verdades, como poderia dizer Pascal, compreensíveis ao coração" (P. Boyancé). Com efeito, confrontando as passagens do poema lucreciano com as correspondentes passagens de Epicuro, pode-se concluir que a diferença é quase sempre esta: o filósofo fala com a linguagem do logos, ao passo que o poeta acrescenta os tons persuasivos do sentimento e da intuição fantástica- em suma, é a magia da arte. Uma só diferença subsiste, no restante, entre Epicuro e Lucrécio: o primeiro soube aplacar suas angústias, até existencialmente; Lucrécio, ao contrário, foi a vítima delas, tendo se suicidado aos quarenta e quatro anos.

O Epicurismo sobrevivera também na era imperial, mas sem inovações. o documento mais significativo que atesta a vitalidade do Epicurismo é um grandioso Iivro mural que Diogenes de Enoanda (na Asia Menor) mandou esculpir no sec. I1 d.C. No século seguinte o epcicurismo se extinguiu.

Epicuro Carta a Meneceu
 (Sobre a Felicidade) 
1 - O Estudo da Filosofia 
Meneceu. Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou, ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la. Pratica e cultiva então aqueles ensinamentos que sempre te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz.

 2 - Os Deuses 
Em primeiro lugar, considerando a divindade como um ente imortal e bem aventurado, como sugere a percepção comum de divindade, não atribuas a ela nada que seja incompatível com a sua imortalidade, nem inadequado à sua bem-aventurança; pensa a respeito dela tudo que for capaz de conservar-lhe felicidade e imortalidade. Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já a imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe: as pessoas não costumam preservar a noção que têm dos deuses. Ímpio não é quem rejeita os deuses em que a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos dessa maioria. Com efeito, os juízos do povo a respeito dos deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas. Daí a crença de que eles causam os maiores malefícios aos maus e os maiores benefícios aos bons. Irmanados pelas suas próprias virtudes, eles só aceitam a convivência com seus semelhantes e consideram estranho tudo que seja diferente deles. 

3 - A Morte 
Acostuma-te à idéia de que a morte para nós não é nada, visto que todo o bem e todo o mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade. Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de  que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo portanto quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado. Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida. O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; viver não é um fardo e não-viver não é um mal. 

4 - Saber Viver 
Assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve. Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem não passa de um tolo, não só pelo que a vida tem de agradável para ambos, mas também porque se deve ter exatamente o mesmo cuidado em honestamente viver e em honestamente morrer. Mas pior ainda é aquele que diz: bom seria não ter nascido, mas uma vez nascido, transpor o mais depressa possível as portas do Hades. Se ele diz isso com plena convicção, por que não vai desta vida? Pois é livre para fazê-lo, se for esse realmente seu desejo; mas se o disse por brincadeira, foi frívolo em falar de coisas que brincadeira não admitem. Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais. 

5 - Os Desejos e a Tranqüilidade de Espírito 
Consideremos também que, dentre os desejos, há os que são naturais e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais; dentre os necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o bemestar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo. Uma vez que tenhamos atingido esse estado, toda a tempestade da alma se aplaca, e o ser vivo, não tendo que ir em busca de algo que lhe falta, nem procurar outra coisa a não ser o bem da alma e do corpo, estará satisfeito. De fato, só sentimos necessidade do prazer quando sofremos sua ausência; ao contrário, quando não sofremos, essa necessidade não se faz sentir. 

6 - O Prazer 
É por essa razão que afirmamos que o prazer é o início e o fim de uma vida feliz. Com efeito, nós o identificamos como o bem primeiro e inerente ao ser humano, em razão dele praticamos toda escolha ou recusa, e a ele chegamos escolhendo todo bem de acordo com a distinção entre prazer e dor. 3 Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles advêm efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo. Portanto, todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser evitadas. Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem. 

7 - A Simplicidade
 Consideramos ainda a autos suficiência um grande bem; não que devamos nos satisfazer com pouco, mas para nos contentarmos com esse pouco caso não tenhamos o muito, honestamente convencidos de que desfrutam melhor a abundância os que menos dependem dela; tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil. Os alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais requintadas, desde que se remova a dor provocada pela falta: pão e água produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem deles necessita. Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem temor as vicissitudes da sorte. 

8 - A Temperança e a Prudência
 Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que é ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma. Não são, pois, bebidas nem banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos peixes ou das outras iguarias de uma mesa farta que tornam doce uma vida, mas um exame cuidadoso que investigue as causas de toda escolha e de toda rejeição e que remova as opiniões falsas em virtude das quais uma imensa perturbação toma conta dos espíritos. De todas essas coisas, a prudência é o princípio e o supremo bem, razão pela qual ela é mais preciosa do que a própria filosofia; é dela que originaram todas as demais virtudes; é ela que nos ensina que não existe vida feliz sem prudência, beleza e justiça, e que não existe prudência, beleza e justiça sem felicidade. Porque as virtudes estão intimamente ligadas à felicidade, e a felicidade é inseparável delas. 

9 - O Homem Sábio 
Na tua opinião, será que pode existir alguém mais feliz do que o sábio, que tem um juízo reverente acerca dos deuses, que se comporta de modo absolutamente indiferente perante a morte, que bem compreende a finalidade da natureza, que discerne que o bem supremo está nas coisas simples e fáceis de obter, e que o mal supremo ou dura pouco, ou só nos causa sofrimentos leves? Que nega o destino, apresentado por alguns como o senhor de tudo, já que as coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; e que a necessidade é incoercível, o acaso, instável, enquanto nossa vontade é livre, razão pela qual nos acompanham a censura e o louvor? Mais vale aceitar o mito dos deuses, do que ser escravo do destino dos naturalistas: o mito pelo menos nos oferece a esperança do perdão dos deuses através das homenagens que lhes prestamos, ao passo que o destino é uma necessidade inexorável. Entendendo que a sorte não é uma divindade, como a maioria das pessoas acredita (pois um deus não faz nada ao acaso), nem algo incerto, o sábio não crê que ela proporcione aos homens nenhum bem ou nenhum mal que sejam fundamentais para uma vida feliz, mas, sim, que dela pode surgir o início de grandes bens e de grandes males. A seu ver, é preferível ser desafortunado e sábio, a ser afortunado e tolo; na prática, é melhor que um bom projeto não chegue a bom termo, do que chegue a ter êxito um projeto mau.

 10 - Meditação 
Medita, pois, todas essas coisas e muitas outras a elas congêneres, dia e noite, contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, quer acordado, quer dormindo, mas viverás como um deus entre os homens. Porque não se assemelha absolutamente a um mortal o homem que vive entre bens imortais.