domingo, 23 de abril de 2023

A Morte de Deus - Nietzsche

Deus está morto


... Não conheço em absoluto o ateísmo como resultado, menos ainda como acontecimento: em mim ele é óbvio por instinto. Sou muito inquiridor, muito duvidoso, muito altivo para me satisfazer com uma resposta grosseira. Deus é uma resposta grosseira, uma indelicadeza para conosco, pensadores – no fundo até mesmo uma grosseira proibição para nós: não devem pensar 27 NIETZSCHE, Ecce Homo, 


O que é a Morte de Deus?


A "morte de Deus"  envolve não apenas o abalo da fé, da religião, da metafísica, mas também a crise das formas tradicionais de autoridade, a fragmentação da experiência humana e a emergência de um mundo sem valores objetivos e universais. Nietzsche não celebra a morte de Deus como um triunfo do niilismo, mas a vê como um desafio para a criação de novos valores e para o desenvolvimento da individualidade humana.


A a crise dos valores tradicionais da cultura ocidental tem diversas causas: 
  •  a ascensão da ciência e da tecnologia, que desafiaram a visão religiosa do mundo e a autoridade da Igreja; 
  • a industrialização e urbanização, que mudaram as formas de vida e trabalho das pessoas; 
  • as transformações políticas e sociais, como a Revolução Francesa e as guerras mundiais, que abalaram as estruturas sociais e políticas; 
  • e o surgimento de filosofias e ideologias que questionaram as crenças e valores tradicionais, como o positivismo, o marxismo e o existencialismo. 
A filosofia de Nietzsche é uma suposta resposta a essa crise, buscando compreender suas causas e suas consequências para a cultura e a humanidade.


Nietzsche fala da Morte de Deus e de suas sombras que são conceitos derivados ou correlacionados a crença em Deus. Ele explica que a crença em Deus perdeu crédito, foi minada e com ela toda a moral.

O anúncio da morte de Deus, na obra  A Gaia Ciência, simboliza a queda de toda a moral metafísica e religiosa. Surge na figura do “homem louco”, que “adentrará ao mercado e pergunta por Deus e proclama, então, que Deus está morto, e os próprios homens o mataram. Ele lança uma série de perguntas  que atinge as principais crenças humanas, trazendo à tona a angústia causada pelo vazio que a morte de Deus deixou. Não apenas os valores, mas a forma de valorar (avaliar) dos homens perdeu-se, pois provinham da moral, agora em ruínas. Não resta já qualquer paradigma ao homem, nem proposição que lhe indique o agir: o homem está, pois, em total desamparo.

... No fabuloso romance Os irmãos Karamazov de Fiódor Dostoiévski o personagem Ivã Karamazov, que praticamente simboliza o niilismo, apresenta a influência da religião e os resultados de sua inexistência, nos mesmos moldes em que Nietzsche apresenta a morte de Deus. Ainda que o contato de Nietzsche com a obra de Dostoiévski seja colocado como posterior ao escrito da Gaia Ciência pelos seus biógrafos, é interessante observarmos a seguinte passagem da obra do autor russo:

Há cinco dias, numa reunião em que se achavam sobretudo senhoras, declarou ele solenemente, no curso duma discussão, que nada no mundo obrigava as pessoas a amar seus semelhantes, que não existia nenhuma lei natural ordenando ao homem que amasse a humanidade; que se o amor havia reinado até o presente sobre a terra, era isto devido não à uma lei natural, mas unicamente à crença das pessoas em sua imortalidade. Ivã Fiódorovitch acrescentou entre parênteses que nisso está toda a lei natural, de sorte que se destruís no homem a fé em sua imortalidade, não somente o amor secará nele, mas também a força de continuar a vida no mundo. Mais ainda, não haverá então nada de imoral, tudo será autorizado, até mesmo a antropofagia30.


"108. Novas lutas. — Depois que Buda morreu, sua sombra ainda foi mostrada numa caverna durante séculos — uma sombra imensa e terrível. Deus está morto; mas, tal como são os homens, durante séculos ainda haverá cavernas em que sua sombra será mostrada. — Quanto a nós — nós teremos que vencer também a sua sombra! " NIETZSCHE - Gaia Ciência


"109. Guardemo-nos! — Guardemo-nos de pensar que o mundo é um ser vivo. Para onde iria ele expandir-se? De que se alimentaria? Como poderia crescer e multiplicar-se? Sabemos aproximadamente o que é o orgânico; e o que há de indizivelmente derivado, tardio, raro, acidental, que percebemos somente na crosta da terra, deveríamos reinterpretá-lo como algo essencial, universal, eterno, como fazem os que chamam o universo de organismo? Isso me repugna. 

Guardemo-nos de crer também que o universo é uma máquina; certamente não foi construído com um objetivo, e usando a palavra “máquina” lhe conferimos demasiada honra. Guardemo-nos de pressupor absolutamente e em toda parte uma coisa tão bem realizada como os movimentos cíclicos dos nossos astros vizinhos; um olhar sobre a Via Láctea já nos leva a perguntar se lá não existem movimentos bem mais rudimentares e contraditórios, assim como astros de trajetória sempre retilínea e outras coisas semelhantes. A ordem astral em que vivemos é uma exceção; essa ordem e a considerável duração por ela determinada tornaram possível a exceção entre as exceções: a formação do elemento orgânico. O caráter geral do mundo, no entanto, é caos por toda a eternidade, não no sentido de ausência de necessidade, mas de ausência de ordem, divisão, forma, beleza, sabedoria e como quer que se chamem nossos antropomorsmos estéticos. Julgados a partir de nossa razão, os lances infelizes são a regra geral, as exceções não são o objetivo secreto e todo o aparelho repete sempre a sua toada, que não pode ser chamada de melodia — e, afinal, mesmo a expressão “lance infeliz” já é uma antropomorfização que implica uma censura. Mas como poderíamos nós censurar ou louvar o universo? 

Guardemo-nos de atribuir-lhe insensibilidade e falta de razão, ou o oposto disso; ele não é perfeito nem belo, nem nobre, e não quer tornar-se nada disso, ele absolutamente não procura imitar o homem! Ele não é absolutamente tocado por nenhum de nossos juízos estéticos e morais! Tampouco tem impulso de autoconservação, ou qualquer impulso; e também não conhece leis. 

Guardemo-nos de dizer que há leis na natureza. Há apenas necessidades: não há ninguém que comande, ninguém que obedeça, ninguém que transgrida. Quando vocês souberem que não há propósitos, saberão também que não há acaso: pois apenas em relação a um mundo de propósitos tem sentido a palavra “acaso”. 

Guardemo-nos de dizer que a morte se opõe à vida. O que está vivo é apenas uma variedade daquilo que está morto, e uma variedade bastante rara. — Guardemo-nos de pensar que o mundo cria eternamente o novo. Não há substâncias que duram eternamente; a matéria é um erro tal como o deus dos eleatas. Mas quando deixaremos nossa cautela e nossa guarda? Quando é que todas essas sombras de Deus não nos obscurecerão mais a vista? Quando teremos desdivinizado completamente a natureza? Quando poderemos começar a naturalizar os seres humanos com uma pura natureza, de nova maneira descoberta e redimida?"


"125. O homem louco. — Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? — E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. 

Então ele está perdido? perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? — gritavam e riam uns para os outros. 

O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós o matamos — vocês e euSomos todos seus assassinos

Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós, ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Existem ainda ‘em cima’ e ‘embaixo’? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? 

Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? — também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais — quem nos limpará este sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? 

A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve um ato maior — e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então!” Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles ficaram em silêncio, olhando espantados para ele. “Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos. Esse ato ainda lhes é mais distante que a mais longínqua constelação — e no entanto eles o cometeram!” — Conta-se também que no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas, e em cada uma entoou o seu Requiem aeternam deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus?”. NIETZSCHE -  Gaia Ciência


343. O sentido de nossa jovialidade.86 — O maior acontecimento recente — o fato de que “Deus está morto”, de que a crença no Deus cristão perdeu o crédito — já começa a lançar suas primeiras sombras sobre a Europa. Ao menos para aqueles poucos cujo olhar, cuja suspeita no olhar é forte e refinada o bastante para esse espetáculo, algum sol parece ter se posto, alguma velha e profunda confiança parece ter se transformado em dúvida: para eles o nosso velho mundo deve parecer cada dia mais crepuscular, mais desconfiado, mais estranho, “mais velho”. Mas podesse dizer, no essencial, que o evento mesmo é demasiado grande, distante e à margem da compreensão da maioria, para que se possa imaginar que a notícia dele tenha sequer chegado; e menos ainda que muitos soubessem já o que realmente sucedeu — e tudo quanto irá desmoronar, agora que esta crença foi minada, porque estava sobre ela construído, nela apoiado, nela arraigado: toda a nossa moral europeia, por exemplo

Essa longa e abundante sequência de ruptura, declínio, destruição, cataclismo, que agora é iminente: quem poderia hoje adivinhar o bastante acerca dela, para ter de servir de professor e prenunciador de uma tremenda lógica de horrores, de profeta de um eclipse e ensombrecimento solar, tal como provavelmente jamais houve na Terra?... Mesmo nós, adivinhos natos, que espreitamos do alto dos montes, por assim dizer, colocados entre o hoje e o amanhã e estendidos na contradição entre o hoje e o amanhã, nós, primogênitos e prematuros do século vindouro, aos quais as sombras que logo envolverão a Europa já deveriam ter se mostrado por agora: como se explica que mesmo nós encaremos sem muito interesse o limiar deste ensombrecimento, e até sem preocupação e temor por nós?

Talvez soframos demais as primeiras consequências desse evento — e estas, as suas consequências para nós, não são, ao contrário do que talvez se esperasse, de modo algum tristes e sombrias, mas sim algo difícil de descrever, uma nova espécie de luz, de felicidade, alívio, contentamento, encorajamento, aurora... De fato, nós, filósofos e “espíritos livres”, ante a notícia de que “o velho Deus morreu” nos sentimos como iluminados por uma nova aurora; nosso coração transborda de gratidão, espanto, pressentimento, expectativa — enfim o horizonte nos aparece novamente livre, embora não esteja limpo, enfim os nossos barcos podem novamente zarpar ao encontro de todo perigo, novamente é permitida toda a ousadia de quem busca o conhecimento, o mar, o nosso mar, está novamente aberto, e provavelmente nunca houve tanto “mar aberto”NIETZSCHE - Gaia Ciência


"Aos trinta anos de idade, Zaratustra deixou sua pátria e o lago de sua pátria e foi para as montanhas.1 Ali gozou do seu espírito e da sua solidão, e durante dez anos não se cansou. Mas enfim seu coração mudou — e um dia ele se levantou com a aurora, foi para diante do sol e assim lhe falou:...

2.

Zaratustra desceu sozinho pela montanha, sem deparar com ninguém.

Chegando aos bosques, porém, viu subitamente um homem velho, que havia deixado sua cabana sagrada para colher raízes na floresta. E assim falou o velho a Zaratustra:

“Não me é estranho esse andarilho: por aqui passou há muitos anos. Chamava-se Zaratustra; mas está mudado. Naquele tempo levavas tuas cinzas para os montes: queres agora levar teu fogo para os vales? Não temes o castigo para o incendiário? Sim, reconheço Zaratustra. Puro é seu olhar, e sua boca não esconde nenhum nojo. Não caminha ele como um dançarino? Mudado está Zaratustra; tornou-se uma criança Zaratustra, um despertado3 é Zaratustra: que queres agora entre os que dormem? Vivias na solidão como num mar, e o mar te carregava. Ai de ti, queres então subir à terra? Ai de ti, queres novamente arrastar tu mesmo o teu corpo?”

Respondeu Zaratustra: “Eu amo os homens”.

“Por que”, disse o santo, “fui para o ermo e a floresta? Não seria por amar demais os homens? Agora amo a Deus: os homens já não amo. O homem é, para mim, uma coisa demasiado imperfeita. O amor aos homens me mataria.”

Respondeu Zaratustra: “Que fiz eu, falando de amor? Trago aos homens uma dádiva”.

“Não lhes dês nada”, disse o santo. “Tira-lhes algo, isto sim, e carrega-o juntamente com eles — será o melhor para eles: se for bom para ti! E, querendo lhes dar, não dês mais que uma esmola, deixando ainda que a mendiguem!”

“Não”, respondeu Zaratustra, “não dou esmolas. Não sou pobre o bastante para isso.”

O santo riu de Zaratustra, e falou assim: “Então cuida para que recebam teus tesouros! Eles desconfiam dos eremitas e não acreditam que viemos para presentear. Para eles, nossos passos ecoam solitários demais pelas ruas. E, quando, deitados à noite em suas camas, ouvem um homem a caminhar bem antes de nascer o sol, perguntam a si mesmos: aonde vai esse ladrão? Não vás para junto dos homens, fica na floresta! Seria até melhor que fosses para junto dos animais! Por que não queres ser, como eu — um urso entre os ursos, um pássaro entre os pássaros?”

“E o que faz o santo na floresta?”, perguntou Zaratustra.

Respondeu o santo: “Eu faço canções e as canto, e, quando faço canções, rio, choro e sussurro: assim louvo a Deus. Cantando, chorando, rindo e sussurrando eu louvo ao deus que é meu Deus. Mas o que trazes de presente?”

Ao ouvir essas palavras, Zaratustra saudou o santo e falou: “Que poderia eu vos dar? Deixai-me partir, para que nada vos tire!” — E assim se despediram um do outro, o idoso e o homem, rindo como riem dois meninos.

Mas, quando Zaratustra se achou só, assim falou para seu coração:4 Como será possível? Este velho santo, na sua floresta, ainda não soube que Deus está morto!”.

3.Quando Zaratustra chegou à cidade mais próxima, na margem da floresta, ali encontrou muita gente reunida na praça; pois fora anunciado que um equilibrista5 andaria na corda. E Zaratustra assim falou à gente: Vede, eu vos ensino o super-homem! O super-homem é o sentido da terra. Que a vossa vontade diga: o superhomem seja o sentido da terra!

Eu vos imploro, irmãos, permanecei fiéis à terra e não acrediteis nos que vos falam de esperanças supraterrenas! São envenenadores, saibam eles ou não. São desprezadores da vida, moribundos que a si mesmos envenenaram, e dos quais a terra está cansada: que partam, então!

Uma vez a ofensa a Deus era a maior das ofensas, mas Deus morreu, com isso morreram também os ofensores. Ofender a terra é agora o que há de mais terrível, e considerar mais altamente as entranhas do inescrutável do que o sentido da terra!

Uma vez a alma olhava com desprezo para o corpo: e esse desdém era o que havia de maior: — ela o queria magro, horrível, faminto. Assim pensava ela escapar ao corpo e à terra. Oh, essa alma mesma era ainda magra, horrível e faminta: e a crueldade era a volúpia dessa alma!" NIETZSCHE - Assim falou Zaratrsutra

Nas palavras de Heidegger:

Quatro anos depois (1886), Nietzsche acrescentou um quinto livro, intitulado “nós os destemidos”, aos quatro livros de A gaia ciência. Por sobre o primeiro fragmento desse quinto livro está escrito: “O que se passou com nossa serenidade”. O fragmento começa: “O grande e novo acontecimento – o fato de ‘Deus estar morto’, de a crença no Deus cristão ter perdido a sua fidedignidade – já começa a lançar suas primeiras sombras sobre a Europa”. A partir dessa asserção fica claro que a sentença nietzschiana acerca da morte de Deus tem em vista o Deus cristão. Mas não é menos certo e a priori digno de consideração o fato de o nome Deus e o nome Deus cristão serem utilizados no pensamento de Nietzsche para designar o mundo supra-sensível em geral. Deus é o nome para o âmbito das idéias e do ideal. Este âmbito supra-senível vige desde Platão, dito ainda mais precisamente, desde a interpretação grega tardia e cristã da filosofia platônica, enquanto o mundo verdadeiro e o propriamente real. Em contraposição a este, o mundo sensível é apenas o mundo do aquém, o mundo transitório e por isso mesmo aparente, irreal. O mundo do aquém é o vale das lamentações em contraposição à montanha da eterna bemaventurança no além. Se denominarmos, como ainda acontece em Kant, o mundo sensível o mundo físico em sentido amplo, então o mundo supra-sensível é o mundo metafísico. ...

 Se Deus está morto enquanto o fundamento supra-sensível e enquanto a meta de todo real, se o mundo supra-sensível das idéias perdeu sua força imperativa e antes de tudo sua força evocadora e construtora, então não resta mais nada, junto a que o homem possa se manter e em direção a que ele possa se direcionar. Por isso encontra-se na passagem lida a pergunta: “Não erramos como que através de um nada infinito?”. A sentença “Deus está morto” encerra em si mesma a constatação de que esse nada se expande. Nada significa aqui: ausência de um mundo suprasensível, imperativo. O niilismo, “o mais sinistro de todos os hóspedes”, encontra-se à porta. A sentença nietzschiana “Deus está morto” Martin Heidegger Traduzido porMarco Casanova. Nat. hum. [online]. 2003, vol.5, n.2 [citado 2023-04-22], pp. 471-526 . Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-24302003000200008&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 1517-2430.


Se Deus morreu todos os valores baseados nesse fundamento se desabam e se abre caminho para o nada, o Niilismo, mas a outra alternativa é a criação de novos valores baseados na terra, na vida e no corpo. Vejamos nas palavras de Heidegger:

Se Deus está morto enquanto o fundamento supra-sensível e enquanto a meta de todo real, se o mundo supra-sensível das idéias perdeu sua força imperativa e antes de tudo sua força evocadora e construtora, então não resta mais nada, junto a que o homem possa se manter e em direção a que ele possa se direcionar. Por isso encontra-se na passagem lida a pergunta: "Não erramos como que através de um nada infinito?". A sentença "Deus está morto" encerra em si mesma a constatação de que esse nada se expande. Nada significa aqui: ausência de um mundo supra-sensível, imperativo. O niilismo, "o mais sinistro de todos os hóspedes", encontra-se à porta. ...


Com a consciência de que "Deus está morto" inicia-se a consciência de uma transvaloração radical dos valores supremos até aqui. O homem mesmo passa para uma outra história depois dessa consciência: uma história que é mais elevada porque nela o princípio de toda avaliação, a vontade de poder, é experimentada e assumida explicitamente enquanto a realidade do real, enquanto o ser de todo ente. A auto-consciência, na qual a humanidade moderna tem sua essência, empreende com isso o derradeiro passo. Ela quer a si mesma enquanto concretizadora da vontade de poder incondicionada. O declínio dos valores normativos chegou ao fim. O niilismo "da desvalorização dos valores supremos" foi superado. Aquela humanidade que quer o seu próprio ser-humano enquanto vontade de poder e experimenta esse ser-humano enquanto pertencente à realidade na totalidade determinada pela vontade de poder é determinada através de uma configuração essencial do homem, que se lança para além do homem até aqui. HEIDEGGER, Martin. A sentença nietzschiana "Deus está morto". Traduzido porMarco Casanova. Nat. hum. [online]. 2003, vol.5, n.2 [citado 2023-04-22], pp. 471-526 . Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-24302003000200008&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 1517-2430.


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Deus realmente está morto?

Com presente estudo observamos que a luta contra o niilismo coloca-se como a nova tarefa do pensamento filosófico, que deve buscar o sentido da vida fora dos dogmas metafísicos e religiosos. Neste ponto se evidencia a atualidade do tema em questão, não se tratando apenas de um estudo histórico, dado ao fato de que os problemas colocados pelo pensamento nietzschiano ainda não foram resolvidos; e são centrais no atual debate filosófico. Pode-se dizer que a morte de Deus, embora já colocada, ainda está longe de ser efetivamente superada. Revista Enciclopédia Inverno 2011 21 Considerações sobre a Morte de Deus na filosofia de Nietzsche17 Leonardo Camacho de Oliveira18